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Este capítulo nasceu da necessidade de investigar mais acurada-mente os conceitos de “propriedade” e de “produtividade” presentes no Relatório, procurando compreendê-los à luz das proposições que até ago-ra venho defendendo. Interessa-me menos esses termos em si, e mais a relação que podem ter, num mundo globalizado, com o conceito de nação, e, na esteira, com os conceitos de segurança/defesa nacional, autodetermi-nação e identidades indígenas.

Apresento como baliza a seguinte hipótese de trabalho para este ca-pítulo: o Relatório de Farias foi, conforme afirmei em capítulos anteriores, construído a partir de um discurso fundado na racionalidade ocidental ca-pitalista. Ele se guia, basicamente, por dois fatores: primeiro, pelo postula-do de que “nação” compreende, além de certas singularidades, a existência de um território onde coabitam diferentes identidades numa única nacio-nalidade: a brasileira; segundo, pelo princípio de que os membros dessa nação devem trabalhar para o desenvolvimento do país chamado Brasil; o que faz com que a identidade “brasileira” se sobreponha a todas as outras. Considero particularmente importante pensar essas questões por-que elas me obrigam a reler o Relatório de Farias partindo da premissa de que a demarcação da Raposa/Serra do Sol é, para certo tipo de discurso dito hegemônico, também um problema de cidadania, portanto, de nacio-nalismo, quando não de patriotismo110. Considerar o conceito de cidadania 110 Inicialmente, chamei este capítulo de “Os apátridas pela nação”. O desejo era defender

na modernidade é versar sobre “homem” e também sobre “natureza”. Es-ses dois conceitos me são particularmente caros porque, no primeiro caso, falar de “homens” não é necessariamente falar de “sujeitos”; no segundo, falar de “natureza” não é necessariamente falar de “equilíbrio ecológico” ou de desenvolvimento sustentável. Pode parecer estranho, num primeiro mo-mento, discorrer sobre homem e natureza, mas é importante relembrar que desde o início dos tempos modernos, tomaram-se como “homem”, apenas civilizados europeus, dos quais muitas vezes se excluíam as mulheres e as crianças. É salutar relembrar também que os movimentos feministas pelo reconhecimento das diferenças e das igualdades têm pouco mais de 50 anos, e questionavam, sobretudo, esse universalizante.

Santos (2006, p.318) afirma que o contrato social, firmado desde o século XVIII, ao mesmo tempo se assenta em critérios de inclusão e de exclusão. Um desses critérios, segundo o autor, é o da “cidadania terrio-rialmente fundada”. Por tal critério, é “fundamental distinguir dos cida-dãos todos aqueles, que, não sendo cidacida-dãos, partilham com ele o mesmo espaço geoplítico”. Afirma ainda:

Só os cidadãos (homens) são parte no contrato social. Todos os outros – sejam eles mulheres, estrangeiros, imigrantes, minorias (e, às vezes, maiorias) étnicas – são dele excluídos. Vivem em estado de natureza mesmo quando vivem na casa dos cidadãos.

Não é sem razão que apenas no século XX o conceito de cidada-nia, mesmo que atrelado a um conjunto de práticas ainda excludentes e preconceituosas, começou a se ampliar e a se estender ao conjunto dos

que os indígenas brasileiros (assim como talvez pudesse aplicar o paradigma a outros povos indígenas, conforme tenho visto na literatura que me acompanhou nesta pesquisa), apesar de considerados apátridas, num sentido de “estrangeiros” ou “estranhos” ao patriotismo, são sujeitos de transformação da chamada de “nação brasileira”. Para mim, eles estão mais próximos de uma consciência ambiental que, ao que tudo indica, será um dos grandes motivadores na construção de identidades no século XXI.

membros de uma mesma nação. Todavia, em se tratando dos povos indí-genas, eles continuaram, em sua maioria, alijados das significativas práticas cidadãs, porque tutelados pelo Estado.

A relação entre nacionalidade e cidadania tem como subjacente a ideia do contrato social, a que Santos (2006) diz ser “a metáfora fundadora da racionalidade social e política ocidental”. Para esse autor, pensando ain-da o contrato social: “Os critérios de inclusão/exclusão que ele estabelece vão ser o fundamento da legitimidade da contratualização das interações econômicas, políticas e culturais” (Idem, p. 318) de um país. Apesar de a contratualização provocar uma separação radical entre excluídos e inclu-ídos, ela só se legitima se houver a possibilidade de os excluídos serem incluídos no mundo dos cidadãos. Não é à toa que, para os povos indíge-nas fazerem parte da “comunhão nacional”, eles precisem seguir algumas normas, como aprender a língua portuguesa, e firmar o contrato.

Essa questão abordada por Santos é fundamental para compreen-der o discurso de exclusão presente no Relatório, que se materializa dentre outros no exemplo a seguir:

Vale ressaltar que a área contígua à Raposa/Serra do Sol nos ter-ritórios da Guiana e Venezuela é habitada por índios das mesmas etnias encontradas no território brasileiro (Rel., p. 41).

O relator demonstra preocupação com o fato de os indígenas serem nômades, ocupando mais de um território. De acordo com essa lógica, a soberania nacional brasileira se fragiliza porque alguns povos indígenas são errantes, conforme mostrei no capítulo 7, em triplos espaços nacio-nais. Esse não é, definitivamente, um problema indígena, uma vez que a divisão dos territórios nacionais não respeitou os limites da territorialidade indígena quando foram traçados.

Todavia, não creio que o livre trânsito dos indígenas se configuraria um problema para Guiana, Venezuela e Brasil, uma vez que, em último caso, esses países podem legislar a favor da passagem sem impedimentos

dos povos indígenas que estão na situação apontada por Farias. Pela lógica do relator, ao demarcar a Raposa/Serra do Sol em terras não contínuas, o cordão que une os membros do mesmo povo, por transitarem pela tríplice fronteira, seria rompido. Portanto, o que se diz é que, para a segurança nacional, é preferível haver um descontínuo na “área habitada por índios da mesma etnia”.

Os antes excluídos da cidadania podem, pelo contrato social, serem então incluídos. Porém, na maior parte das vezes, a inclusão implica em significativa perda, ao que Santos (2006, p. 319) afirma: “é um campo de lutas sobre os critérios e os termos da exclusão e da inclusão que pelos seus resultados vão fazendo os termos do contrato”.

Eis outro trecho retirado do relatório de Farias:

Outro exemplo é a Pan-Tribal Confederacy of Indigenous Tribal Nations, sediada em Barbados, que reclama para os povos indígenas a

sobe-rania sobre a zona de conflito entre Guiana e Venezuela, contígua

à área Raposa/Serra do Sol (Rel., p. 41).

O relator aponta para uma organização “que vem de fora” e que reclamaria para os povos da tríplice fronteira o direito à soberania sobre seus territórios. Em momento algum, o relator considera a possibildiade de os indígenas envolvidos não quererem a soberania (ou mesmo quere-rem). Quererem ou não a independência. Quererem ou não a autodeter-minação. Em todos os momentos do Relatório, os indígenas continuam sendo tratados como incapazes. Em muitos trechos, quando há referência à voz indígena, esta está sob influência de ONGs e da Igreja. Como inca -pazes, então, caberia ao Estado brasileiro assegurar o que os indígenas não conseguem fazer.

Essa reflexão tornou-se necessária porque, no discurso de Lindberg Farias, a demarcação de terras indígenas – particularmente, a Raposa/Ser-ra do Sol – compromete a seguRaposa/Ser-rança não só das fronteiRaposa/Ser-ras bRaposa/Ser-rasileiRaposa/Ser-ras, em sentido estrito como já visto, como também a própria nação, em sentido

lato, o que não deixa de ser um grande equívoco; por isso o desejo de compreender de que “nação” fala o relator. Farias assevera:

Outros ingredientes imprimem contornos ainda mais graves ao tema. Entre eles, deve-se destacar a questão da soberania e da de-fesa nacional (Rel., p. 11).

Para pensar a questão da soberania, defesa ou segurança nacional, é preciso considerar outros elementos, tais como “propriedade” e “produ-tividade”, uma vez que a todo momento o Relatório levantará a questão econômica com um dos impedimentos para a demarcação contínua das reservas. Isso porque defendo, como hipótese de trabalho, que o discurso de Farias assenta-se sobre uma visão colonialista de nação, que remonta aos séculos XVIII e, sobretudo, XIX, quando a posse da terra passou a ser um dos critérios das práticas de individualização do capitalismo. É por isso que a posse coletiva da terra pelos povos indígenas, rivalizando com a lógica individual da posse da terra da racionalidade ocidental, é importante para refundar o conceito de nação.

10.1 Do nascimento da propriedade moderna: um conceito forjado na história

Pelo discurso do relator, o conceito de nação se alicerça sobre os princípios do liberalismo político, que determina ser função dos governos nacionais (dos Estados-nação) assegurar a preservação do direito à pro-priedade:

Cumpre ao administrador considerar outros direitos e valores igualmente tutelados pela ordem jurídica, tais como a soberania, autonomia federativa, segurança nacional, proteção da proprie-dade, dentre outros, na definição de quais terras se consideram

Para o relator, assegurar os direitos indígenas está condicionado a “outros direitos e valores igualmente tutelados”. Todavia, pela obser-vância de diversos discursos dominantes ditos hegemônicos, o contrário não se dá. Ou seja, enquanto o relator afirma que o direito à soberania, à autonomia federativa, à segurança nacional e à proteção da propriedade devem marcar os limites da demarcação dos territórios indígenas, a defesa dos direitos indígenas aos seus territórios tradicionais não recebe a mesma atenção. Para demarcar terras indígenas é sempre preciso observar “algo mais”, enquanto que, para proteger o direito à titularidade da terra, faz vistas grossas à necessidade de se observar o artigo 231 da CF-1988, ou o Estatuto do Índio (Lei 6.001, de 1973), ou a Convenção 107 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), de 1957. Ou, muito mais im-portante, não se respeitar a territorialidade indígena.

No exemplo a seguir, lê-se uma dimensão mais precisa do que afir -mo:

Outrossim, vale lembrar que a Constituição Federal constitui um sistema normativo, não cabendo interpretar o § 1º do art. 231 iso-ladamente, como único fundamento constitucional para a demar-cação da reserva Raposa/Serra do Sol, e das terras indígenas em

geral. […]. O conteúdo do art. 231 deve ser compatibilizado

com outros dispositivos constitucionais (e.g. soberania, art. 1º, I; segurança nacional, art. 91, § 1º; autonomia federativa, art. 18; devido processo legal, art. 5º, LIV; garantia da propriedade, art. 5º, XXII), e princípios gerais da ordem jurídica (e.g. proteção da boa fé nos atos jurídicos), de forma a que se atinja um equilíbrio entre os direitos das partes envolvidas. (Rel., p. 57. Grifos meus).

Assim é que, pelo discurso do relator, os direitos indígenas devem ser garantidos, conforme o art. 231 da CF-88, porém, não isoladamente. Há sempre outros artigos a considerar. De acordo com o Relatório de Farias: