À palavra “voluntário” vem do adjetivo latino voluntarius que, por sua vez, deriva da palavra voluntas ou voluntatis, que significa “capacidade de escolha, decisão”, assim como “anseio” e “desejo”. Como adjetivo, foi encontrada sua primeira ocorrência na língua portuguesa no século XV, com o significado de “espontâneo” (CUNHA apud ORTIZ, 2001, p. 29).
Atualmente, é utilizada como substantivo, para “[...] aquele que se oferece para uma tarefa a que não estava obrigado” e, ainda, ao indivíduo que se alista espontaneamente num exército (LAROUSSE CULTURAL, 1992, p.453).
Voluntário, no Dicionário Houaiss, diz respeito ao que não é forçado, que só depende da vontade; espontâneo, que se pode optar por fazer ou não, aquele que se dedica a um trabalho sem remuneração, prestando ajuda quando necessário. Já filantropia tem origem grega e significa profundo amor à humanidade, desprendimento, generosidade para com outrem, caridade. (HOUASSIS, 2009).
O trabalho voluntário (também denominado de voluntariado) pode ser entendido como a realização de qualquer atividade na qual a pessoa (voluntário) oferte, livremente, o seu tempo para beneficiar outras pessoas, grupos, ou organizações, sem retribuição financeira ou material. (WILSON apud SOUZA; LAUTERT; HILLESHEIN, 2010).
Segundo Martins Filho (2002 apud ORTIZ, 2007, p.20), foi na Idade Média que surgiu a primeira distinção entre o trabalho profissional, que tem retribuição terrena, e aquele que caracterizaria o estado religioso, cuja recompensa seria extraterrena:
[...] trabalho profissional: o trabalho no meio do mundo, no exercício de uma profissão ou ofício, correspondia a um serviço que mereceria uma retribuição terrena, na base de honorários e salário; estado religioso: o serviço prestado pelo religioso a Deus e à comunidade correspondia à resposta a uma vocação divina, segundo a qual o homem esperaria uma retribuição extra-terrena.
Segundo Garrafa e Selli (2006), a atividade voluntária organizada surgiu na Europa, quando a urbanização e o êxodo rural associado à industrialização, em seus primórdios, trouxeram consequências negativas para amplas parcelas da sociedade. No mundo rural pré- industrial, algumas instituições eram responsáveis pela solução de problemas, como fome, doença e catástrofes naturais que pudessem atingir indivíduos ou grupos. A família extensa de caráter patriarcal, as instituições religiosas ou mesmo a comunidade tinham tal atribuição. Não existia, ainda, um Estado capaz de propor políticas de amparo aos necessitados.
Além de contribuírem para a solução de questões sociais, segundo estes autores, as organizações voluntárias tiveram um papel importante na defesa da sociedade contra o exercício arbitrário do poder do Estado. Intermediárias entre o indivíduo isolado e a sociedade política, coube às associações voluntárias (partidos políticos, sindicatos, instituições de intelectuais, associações religiosas) promover a defesa da sociedade civil contra o poder arbitrário do Estado.
Para Weffort (1998, apud GARRAFA; SELLI, 2006), o processo de democratização política experimentado na Europa muito deveu a elas. O mesmo pode-se dizer dos Estados Unidos. Adeptos do liberalismo político, os construtores do Estado norte-americano reservaram um amplo espaço à auto-organização da sociedade civil, dotando as comunidades de um grande poder para gerir seus destinos sem a interferência pública.
Para discorrer sobre a história do voluntario brasileiro, recorro a Ortiz (2007, p.22-23), que afirma em sua tese:
Assim como nos Estados Unidos, a história da prática da filantropia e do voluntariado no Brasil foi marcada pelos propósitos e pelo estilo de nossos colonizadores. Diferente deles, a colonização aqui foi feita, a exemplo de outros países da América Latina, como empreendimento do estado. Assim que chegaram, os portugueses trataram de instalar os aparatos burocráticos da coroa e, com eles, as estruturas hierárquicas da igreja católica.
As misericórdias portuguesas foram estabelecidas no século XVI, com a fundação da Santa Casa de Misericórdia de Santos (1543). As misericórdias constituíram-se, assim, em todo o império ultramarino português e, de forma destacada, no Brasil, como fator unificador de toda a política assistencial. O voluntariado daí resultante foi marcado, desde o princípio, por fortes vínculos religiosos e por uma inserção política centralizada no estado.
Neste sentido, cabe destacar que as Santas Casas ofereciam diversos tipos de assistência, como esmolas, a assistência aos presos pobres e suas famílias, os dotes a jovens órfãs e pobres, a concessão de tumbas, as rodas de expostos e sua atividade principal que é assistência hospitalar aos enfermos.
A participação das mulheres como voluntárias sempre foi importante nas sociedades filantrópicas e teve sua expressão máxima através da Rainha Leonor de Portugal, viúva do Rei D. João II e irmão do Rei D. Manoel, o Venturoso, que fundou as Santas Casas de Misericórdias e sempre manifestou sua preocupação com o sofrimento dos pobres.
Segundo Silveira (2002 apud ORTIZ, 2007, p.23), entre as diversas organizações filantrópicas fundadas nessa época, constavam as religiosas, as de saúde e os educandários, assim como as instituições de assistência aos imigrantes e associações profissionais. Nelas, a participação feminina aumentou consideravelmente, sendo que, no início do século XX, as “[...] damas caridosas eram as principais agentes do voluntariado no país”.
Segundo Costa (2000), no Brasil colonial, os hospitais de caridade foram as primeiras unidades de atendimento à saúde dos pobres, marinheiros, índios. Deram origem às Santas Casas e adotavam o compromisso (estatuto) de Lisboa. Os irmãos da Santa Casa têm como compromisso primordial, praticar as 14 obras da misericórdia: sete espirituais e sete corporais, que são:
Espirituais: ensinar os ignorantes, dar bons conselhos, punir os faltosos com compreensão, consolar os infelizes, perdoar as injúrias recebidas, suportar as deficiências do próximo, orar a Deus pelos vivos e pelos mortos.
Corporais: tratar os doentes, resgatar os cativos e visitar os presos, vestir os nus, dar de comer aos famintos, dar de beber aos sedentos, abrigar os pobres e os peregrinos.
Ainda segundo Costa (2000), a Santa Casa de Lisboa, em verdade, é a continuação do primitivo sistema de filantropia originado nas albergarias (hospedarias) que, desde o século XI, existiam no norte de Portugal e na Itália. O substantivo hospital é a tradução da palavra
hospitale (do latim), que significa hospedaria. Hospitale era a albergaria onde se acolhiam os
doentes.
Em continuação à história cronológica do voluntariado no Brasil, recorri a Sberga (2002, apud ORTIZ, 2007), que destaca resumidamente:
Em 1908, chega ao Brasil o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, cuja finalidade era a de prestar assistência médica em áreas de conflito armado. Em 1910, surgiu o primeiro grupo de escotismo, com o objetivo de ajudar o próximo em toda e qualquer ocasião.
Em 1930, na era Getúlio Vargas, o Estado passa a ter um papel cada vez mais centralizador em relação à política assistencial em todo o país e, em 1935, foi promulgada a Lei de Declaração de Utilidade Pública, que passou a regular a colaboração do Estado com as instituições filantrópicas. Em 1942, em plena ditadura Vargas, foi fundada a Legião Brasileira
de Assistência (LBA), a ser presidida pela primeira dama do País, com o objetivo de coordenar a política de assistência social.
Em 1961, é fundada a APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), cuja missão é a de prestar assistência e desmistificar a deficiência mental na comunidade.
Os governos militares que sucederam ao golpe de 1964, diminuíram consideravelmente as verbas destinadas às obras sociais. Para canalizar a força do movimento estudantil e amortecer o impacto dos conflitos sociais, foi implantado, em 1967, o projeto Rondon, cuja finalidade era a de levar universitários voluntários a prestar assistência a comunidades carentes em todo o interior do País.
Em 1977, a pastoral do menor instituiu uma nova modalidade de voluntariado, com o apoio de casais que se dispunham a acompanhar adolescentes em regime de liberdade assistida. Por outro lado, as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) promoviam redes populares de solidariedade, para dar conta dos mais diversos problemas vividos pela população mais carente.
Já a pastoral da criança foi fundada em 1983, vinculada à Conferência Nacional dos Bispos no Brasil (CNBB), com o objetivo de treinar lideranças comunitárias e mobilizar as famílias carentes para o combate à mortalidade infantil, assim como em atividades para melhoria de sua qualidade de vida em geral.
Na década de 90, observam-se alterações bastante significativas no que tange às políticas sociais no Brasil, através da corrente de liberalismo americano com uma proposta de “Estado mínimo”. Ao mesmo tempo a globalização da economia promoveu um aumento nas disparidades sociais, o que acarretou o agravamento dos problemas sociais, levando à indignação setores mais politizados da população civil brasileira.
Em 1993, o sociólogo Herbert de Souza, empenhou-se em organizar a sociedade brasileira no combate à fome, com a Ação da Cidadania Contra a Miséria e pela Vida. Sua campanha, amplamente divulgada na mídia, foi também um marco na expansão das ONGs (organizações não governamentais).
Em 1995, a partir do Conselho da Comunidade Solidária, presidido pela então primeira dama Ruth Cardoso, e através dele foi instituído, em 1997, o Programa Voluntários, com a missão de promover e fortalecer o voluntariado no Brasil. Um dos objetivos principais foi disseminar uma “moderna cultura do voluntariado”, preocupada com a eficiência dos serviços e a qualificação de indivíduos e instituições. Com essa perspectiva, foram criados 34 centros de voluntariado, em 15 Estados e no Distrito federal.
Quanto à legislação do trabalho voluntário no Brasil, esta ação só foi regulamentada no Brasil apenas em 1998, pela Lei n0.
9.608/98, pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. De acordo com a Lei, independente do motivo que leva uma pessoa ao serviço, para ser caracterizado como voluntário, o trabalho deve ocorrer por vontade própria, sem remuneração, prestado por um indivíduo isoladamente e para uma organização sem fins lucrativos, com objetivos públicos.
Segundo Landim, em pesquisa sobre o voluntariado (2001), a preferência é realizar ações voluntárias em instituições religiosas (57%) e de assistência social (17%), o que corresponde a 74%, sendo o restante dividido em pequenas porções entre as áreas de saúde, educação, defesa dos direitos e ação comunitária. O perfil do voluntariado brasileiro desta pesquisa é o cidadão mais propenso a doar seu tempo às práticas religiosas. Esses dados estão relacionados à história da origem do voluntariado no Brasil, de caráter religioso.
Para Caldana e Figueredo (2008, p.474, grifos dos autores), “[...] a educação, ligada à
transmissão de princípios religiosos, promove o fortalecimento da cultura do voluntário e
constitui importante elemento de manutenção desta lógica”.
Devemos distinguir, dentro desse universo de conceituação de voluntariado, o que são ações pontuais e ações duradouras. Caldana e Figueredo (2008), distinguem ato voluntário e trabalho voluntário, ao afirmar que uma ação pontual é um ato voluntário, enquanto ações duradouras seria trabalho voluntário. As doações estariam também numa categoria à parte.
Já existe a mensuração do trabalho voluntário estimando a proporção em que o voluntariado participa nas entidades filantrópicas, ou seja, a média de horas recebidas como doações e os respectivos valores não registrados contabilmente por algumas organizações.
Segundo Milani Filho, Corrar e Martins (2003), os recursos humanos representam a essência do terceiro setor, devendo estar profundamente comprometidos com as respectivas causas sociais de suas entidades.
Segundo Kaplan e Norton (1996 apud MILANI FILHO, CORRAR; MARTINS, 2003, p.160), “fazerem a diferença” e não reconhecer contabilmente uma característica essencial das entidades filantrópicas pode parecer estranho. Reconhece-se, portanto, a receita pelo serviço prestado voluntariamente, utilizando-se como referência o valor de mercado, caso este serviço fosse contratado.
Segundo pesquisa realizada, com uma amostra de 16 entidades paulistanas, Milani Filho, Corrar e Martins (2003) demonstram que o voluntariado representa, em média, 45,1% da força do trabalho total das entidades, observando-se que a média amostral de dedicação ao serviço voluntário é de 4,5 horas por semana.
Por esse estudo, em média, cada organização pesquisada possuía 363 voluntários e recebia cerca de R$ 36,3 mil por mês em serviços prestados por voluntários, ou seja, se o voluntário cobrasse pelo seu trabalho, as organizações desembolsariam a quantia citada. Se levarmos em consideração que em São Paulo existiam, no período da pesquisa, 286 organizações cadastradas anualmente, esse valor esteve em torno de R$ 124,7 milhões.
Segundo Merege (2009), informações do independent sector demonstram que o percentual de pessoas voluntárias atinge cerca de 49% da população, que doa mais de 20 bilhões de horas anuais, o que corresponde a um valor de US$ 201 bilhões – um valor significativo, superando muitos PIBs do planeta.