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Conceito e precedentes históricos do dano moral

Espécie de ato ilícito, o dano moral é capaz de gerar a responsabilidade civil analisada anteriormente. Para que se inicie um estudo a cerca do dano moral, importante se faz conhecer o conceito a ele despendido pela doutrina. Antonio Jeová Santos (2003, p. 78) aduz que quando “a lesão afeta sentimentos, vulnera afeições legítimas e rompe o equilíbrio espiritual, produzindo angústia, humilhação, dor etc., diz-se que o dano é moral.”

Conforme Pablo Stolze Gagliano e Rodolfo Pampolha Filho (2012, p. 90), o dano moral

Trata-se, em outras palavras, do prejuízo ou lesão de direitos, cujo conteúdo não é pecuniário, nem comercialmente redutível a dinheiro, como é o caso dos direitos da personalidade, a saber, o direito à vida, à integridade física (direito ao corpo, vivo ou morto, e a voz), à integridade psíquica (liberdade,

pensamento, criações intelectuais, privacidade e segredo) e à integridade moral (honra, imagem e identidade)[...]

No entendimento de Silvio de Salvo Venosa (2011, p. 49), ”Dano moral é o prejuízo que afeta o ânimo psíquico, moral e intelectual da vítima. Sua atuação é dentro dos direitos da personalidade.” Já para Carlos Alberto Bittar (1993, p. 41),

Qualificam-se como morais os danos em razão da esfera da subjetividade, ou do plano valorativo da pessoa na sociedade, em que repercute o fato violador, havendo-se, portanto, como tais aqueles que atingem os aspectos mais íntimos da personalidade humana (o da intimidade e da consideração pessoal), ou da própria valoração da pessoa no meio em que vive e atua (o da reputação ou da consideração social).

Diante dos conceitos elaborados pela doutrina, fica clara a essência, bem como a importância do dano moral em nosso meio. Mas esses conceitos modernos nem sempre foram assim. A reparação do dano moral obteve maior importância após a Constituição Federal de 1988 (artigo 5º, X). Conforme Sílvio de Salvo Venosa (2011, p. 49), “Com a Lei Maior expressa, superou-se a renitência empedernida de grande massa da jurisprudência, que rejeitava a reparação de danos exclusivamente morais.”

Após a conceituação doutrinária atual, passa-se a demonstrar a evolução do dano moral ao longo dos anos. A primeira informação de codificação do dano moral que se tem notícia, segundo Gagliano e Pampolha Filho (2012) é o Código de Hamurabi, promulgado por volta de 1750 a.C.. Conforme João Batista de Souza Lima (1983), o artigo 219 preceituava que, se um médico fizesse uma incisão difícil com lanceta de bronze no escravo de um homem vulgar e causasse a sua morte, ele deveria restituir um escravo idêntico ao escravo morto. Nas palavras de Clayton Reis (apud GAGLIANO; PAMPOLHA FILHO, 2012, p. 103)

Noção de reparação de dano encontra-se claramente definida no Código de Hamurabi. As ofensas pessoais eram reparadas na mesma classe social, à custa de ofensas idênticas. Todavia o Código incluía ainda a reparação do dano à custa de pagamento de um valor pecuniário.

Em 300 a.C., surge a Lei das XII Tábuas, trazendo o cabimento da ação de dano moral quando alguém colocar seu rebanho para pastar no campo de outrem. Trouxe ainda, penas como a de amarrar, flagelar e matar queimado aquele que

colocasse fogo intencionadamente em bens alheios. E, não o acontecendo por querer, a reparação pecuniária do dano. Conforme Gagliano e Pampolha Filho (2012), no século II a.C., é editado o Código de Manu, prevendo a reparação pecuniária para indenização do dano moral sofrido, tanto pelos homens quanto pelos danos causados pelos animais.

De acordo com os referidos autores, o Alcorão também trouxe repressão às esferas extrapatrimoniais, como por exemplo, a previsão de que um adúltero só poderia se casar com outra adúltera. Conforme o autor, na Bíblia Sagrada também encontram-se passagens prevendo a reparação do dano moral, mais precisamente no Antigo Testamento, tutelando amplamente a honra e aplicando castigos para quem não à praticasse, incluindo castigos corporais e indenização pecuniária.

Quanto à evolução do dano moral na legislação brasileira, o legislador teve que criar mecanismos de reparação de danos imateriais, graças a percepção de que os danos sofridos pela sociedade iam muito além de meros danos patrimoniais. Assim, o Código Penal de 1890, mais precisamente em seu artigo 316 previa

Art. 316. Si a calumnia for commettida por meio de publicação de pamphleto, impresso ou lithographado, distribuido por mais de 15 pessoas, ou affixado em logar frequentado, contra corporação que exerça autoridade publica, ou contra agente ou depositario desta e em razão de seu officio: Penas – de prisão cellular por seis mezes a dousannos e multa de 500$ a 1:00000$

Contudo, foi o advento do Código Civil de 1916 (Lei 3.071, de 1º de janeiro de 1916) que trouxe mais claramente a possibilidade de reparação do dano exclusivamente moral sofrido. Apesar de ser um Código patrimonialista, e de não se referir expressamente ao dano moral e, consequentemente à isso, alguns negarem a reparabilidade do dano moral, o diploma legal foi muito importante para inspirar as futuras legislações sobre o tema. “O fato é que em nosso ordenamento de 1916, o art. 159, astro-rei de nossa responsabilidade civil, nunca restringiu a indenização aos danos exclusivamente materiais.” (VENOSA, 2011, p. 49).

Foi com a promulgação da Constituição Federal de 1988 que a reparação do dano exclusivamente moral foi efetivamente tratada de forma expressa. O artigo 5°

do diploma aludido, em seus incisos V e X trazem as seguintes previsões: V - “é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem.” Assim como no inciso X: “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurando o direito à indenização pelo dano material ou moral decorrentes de sua violação.”

Dessa forma, conforme Caio Mário da Silva Pereira (2001, p. 58)

Com as duas disposições contidas na Constituição de 1988 o princípio da reparação do dano moral encontrou o batismo que a inseriu em a canonicidade de nosso direito positivo. Agora, pela palavra mais firme e mais alta da norma constitucional, tornou-se princípio de natureza cogente o que estabelece a reparação por dano moral em nosso direito. Obrigatório para o legislador e para o juiz.

Já o atual Código Civil de 2002 não trouxe expressamente o termo “dano moral”, porém, a análise de alguns de seus dispositivos nos traz, em outras palavras, a certeza da previsão de sua reparação. Dessa forma, o artigo 186 é o que prevê o instituto do dano moral (Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito), sendo o artigo 927 o que prevê a sua reparabilidade: “Aquele que, por ato ilícito, causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo.”

O dano moral sempre existiu e sempre existirá. A reparação em dinheiro dos danos sofridos pelas vítimas nunca acabou e nunca acabará com a dor, mas com toda certeza, a ameniza. O ser humano sofre constantemente ameaças em sua integridade pessoal, psíquica e física, geradas pelos mais diversos fatores, motivo pelo qual esse dano deve ser reparado com a maior efetividade possível.

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