3.1 REDES SOCIAIS – DOS CONCEITOS À CARTOGRAFIA
3.1.1 Conceitos, Atores e Formas de Representação
O conceito de redes sociais, segundo Vermelho, Velho e Bertoncello (2015) surge na primeira parte do século XX, sendo usado inicialmente de forma metafórica; apenas na segunda metade do século XX é que tal conceito toma corpo na discussão social, ressaltando que a construção desse conceito se dividiu em uma corrente de antropologia social e outra de análise quantitativa a partir de uma visão estruturalista. Castells (1999) situa que os primeiros passos da cronologia do surgimento de uma nova ordem econômica e social ocorreram na década de 1970, com a invenção do microprocessador – que propiciou processamento em larga escala a custos mais acessíveis – e das redes de comunicação com padrões abertos – que propiciaram a base da Internet como se conhece hoje. Para Castells (2005) a sociedade em rede seria uma nova estrutura social, baseada em redes operadas por tecnologias de informação e comunicação, que produz, processa e distribui informação com base no conhecimento acumulado nos nós da rede. Tal rede é um sistema de nós interconectados, formando estruturas abertas que evoluem pela adição ou remoção de nós, de acordo com as novas exigências dos programas que atribuem metas de desempenho para as redes (CASTELLS, 2005).
Latour (2012, p.189) corrobora com Castells (2005) ao considerar que o termo rede não designa um objeto estático, que poderia ter a forma aproximada de pontos
permanentemente interconectados, similar a uma rede de telefonia, de rodovias ou de esgoto. Para Latour (2012, p. 192) “uma rede não é feita de fios de nylon, palavras ou substâncias duráveis; ela é o traço deixado por um agente em movimento”. Logo, as ações dos atores componentes é que provocariam o aparecimento de redes, a qual não representaria uma infraestrutura de conexão de pontos com algum tipo de materialidade, à medida que a rede não seria aquilo que conecta, mas sim aquilo que representa a dinâmica das relações entre os atores (LATOUR, 2012, p.189). Granovetter (1973) corrobora Latour (2012) ao afirmar que não haveria grupos a priori, a retratar em uma rede social, mas apenas a formação (e também o desmantelamento) de grupos a partir das ações (conexões) dos atores.
Uma das características desta nova configuração social seria a mesma lógica de redes predominar em qualquer sistema ou conjunto de relações, dando origem a uma nova economia, com prevalência informacional e global, bem como formando uma grande rede interdependente (CASTELLS, 1999). Dessa forma, o surgimento da economia informacional é caracterizado principalmente pelo surgimento de uma nova lógica organizacional, relacionada com o processo tecnológico, porém não dependente dele (CASTELLS, 1999).
Por outro lado, para Latour (2012) não são apenas as pessoas que podem agir, na medida em que qualquer coisa (por exemplo, um objeto ou uma tecnologia) que modifique uma situação fazendo alguma diferença, também deve ser considerado um actante candidato a ator. Portanto, na abordagem da Teoria Ator-Rede – ANT, uma rede seria formada por conexões entre atores humanos e não-humanos, sem deixar de ser social (LATOUR, 2012).
Neste ponto, cabe ressaltar que o conceito de rede adotado neste estudo incorpora a noção de movimento, reflexo das ações dos diversos atores – inclusive os não humanos – que fazem parte da rede social. Evidencia-se, portanto, a importância dos atores e suas ações. Entretanto, ainda que a formação de grupos seja consequência da interação entre os atores, determinam-se alguns grupos a priori para o caso estudado – que envolve o desenvolvimento no modelo software livre – tais como desenvolvedores e tecnologias.
Aprofundando os conceitos, a história da pesquisa sobre análise de redes sociais (Social Network Analysis) foi marcada por iniciativas em direções diferentes e envolveu um esforço considerável em descobrir formas de decompor as redes em seus subgrupos (PRELL, 2012; SCOTT, 2000; VERMELHO; VELHO;
BERTONCELLO, 2015). É perceptível, segundo Vermelho, Velho e Bertoncello (2015) uma orientação em dois eixos: (i) no campo da antropologia social, com forte influência britânica e (ii) uma abordagem estrutural de influência anglo-americana.
Enquanto Jacob Moreno e Hellen Jennings (1934, 1953) exploravam como as relações sociais afetavam o bem-estar psicológico, utilizando sociogramas para sua representação (PRELL, 2012, p. 22), antropologistas norte-americanos e britânicos, influenciados por Alfred Radcliffe-Brown – cujos estudos iniciaram na Austrália da década de 1920, desenvolviam novas formas de investigar questões estruturais (ibidem, p.29) a partir de relações informais (SCOTT, 2000, p.16).
W. Loyd Warner e Elton Mayo, segundo Prell (2012, p. 30) desenvolveram um estudo antropológico (1931-1932) pela universidade de Harvard na Howthorne – uma planta industrial da Western Electric em Illinois, utilizando pela primeira vez sociogramas para descrever relações interpessoais entre trabalhadores em um contexto organizacional natural. Esses autores detectaram a existência de grupos informais – denominados cliques (apud PRELL, 2012, p. 30) e por meio deles concluíram que a produtividade dos trabalhadores era mais influenciada pela percepção de que os gerentes se interessavam pela vida dos trabalhadores do que pelas condições físicas de trabalho (SCOTT, 2000, p.17).
Os sociogramas são representações diagramáticas da rede social, na qual as pessoas são geralmente representadas por círculos (nós10) e os seus relacionamentos são representados por linhas (arestas11) direcionadas ou não (SCOTT, 2000, p.18). O exemplo de sociograma ilustrado na figura 8 representa uma rede social extraída a partir do mecanismo mailing list da comunidade Demoiselle, objeto deste estudo.
10 Os nós são representações do atores (indivíduos ou grupos) de uma rede social
(RECUERO;BASTOS;ZAGO, 2015).
11 As arestas são representações das conexões (interações) entre os atores de uma rede
Figura 8: Exemplo de Sociograma
Fonte: Autoria própria (2018) usando a ferramenta Gephi 0.9.1.
No exemplo de sociograma da Figura 8, os nós representam membros da comunidade Demoiselle (anonimizados) e as arestas (arcos) representam trocas de mensagens pelo mailing list da plataforma SourceForge. Além da representação de nós e arestas, ferramentas de análise mais recentes, tal como o Gephi, oferecem facilidades de visualização que enriquecem o sociograma com informações adicionais. Por exemplo, é possível distinguir categorias de nós por cor, o tamanho dos nós pode ser proporcional à quantidade de mensagens trocadas, bem como a distância do nó em relação ao centro do diagrama pode ser inversamente proporcional à quantidade de mensagens trocadas. Tais facilidades permitem distinguir os atores focais e distinguir os atores internos (laranja), ligados à entidade patrocinadora, dos atores externos (azuis), bem como enfatiza a existência de um núcleo mais ativo e um nível periférico menos ativo.
Recuero (2014) resgata algumas métricas da Análise de Rede Social aplicáveis ao estudo das redes sociais online, organizando-as em dois grupos de métricas: (i) medidas de posição do nó na rede e (ii) medidas de rede. Dentre as
medidas de posição de nó, o grau do nó representa o número de conexões que o nó possui, de forma que, quanto mais conectado for o nó, mais central é o nó na rede (ibidem). Dentre as medidas de rede, a densidade refere-se à quantidade de conexões existentes em relação ao total de conexões possíveis (ibidem). Um conjunto de nós mais densamente conectados que o restante da rede é geralmente associado à presença de comunidades, ou clusters (RECUERO, 2014).
Se sociogramas identificam e posicionam os atores, o método fundamental da ANT consiste em “seguir os próprios atores” (LATOUR, 2005, p. 12), ou seja, tentar acompanhar, por exemplo, as inovações introduzidas, para entender por meio delas como o coletivo foi modificado pelos atores, bem como quais métodos eles aplicaram e quais relatos poderiam explicar melhor as novas associações que foram estabelecidas. Logo, seguir os atores pode ampliar o entendimento da rede por eles estabelecida.