2 A IMUNIDADE TRIBUTÁRIA DOS TEMPLOS DE QUALQUER CULTO
2.3 Conceitos e definições de “templo” para efeitos
Os dicionários assim definem a palavra “templo”:
“Substantivo masculino
1. Casa de oração em que se adora uma divindade; igreja. 2. Sinagoga, mesquita.
3. Local onde a maçonaria celebra as suas sessões. 4. A Ordem dos Templários.
5. [Figurado] Lugar sagrado ou venerável.”
(in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013). “Substantivo masculino.
1. Na Roma antiga, espaço descoberto e delimitado, orientado e consagrado pelos áugures para a realização de ato sagrado ou prática de suas observações;
2. Qualquer edifício público erigido em honra de uma ou mais divindades. Ex.: t. de Diana;
3. Qualquer edifício destinado ao culto religioso (...)” (in Dicionário HOUAISS).
Segundo Edmar Oliveira Andrade Filho:
A palavra ‘templo’ pode ser interpretada sob pelo menos duas perspectivas. Em sentido amplo pode designar toda uma ordem religiosa, composta dos locais de culto e da administração, o que inclui o pessoal necessário ao funcionamento desses locais e da administração da ordem como um todo. Em sentido estrito a palavra designa apenas e tão somente o local em que são celebrados os rituais próprios do culto respectivo. Parece-nos que interpretação ampla é a mais correta porquanto empresta maior espectro (máxima efetividade) a importantes princípios de organização social de nossa comunidade. (2005, p.117).
Ainda sobre o tema, em festejada doutrina, leciona Sacha Calmon Navarro Coelho:
Templo, do latim templum, é o lugar destinado ao culto. Em Roma, era lugar aberto, descoberto e elevado, consagrado pelos augures, sacerdotes da adivinhação, a perscrutar a vontade dos deuses, nessa tentativa de todas as religiões de religar o homem e sua finitude ao absoluto, a Deus. Hoje, os templos de todas as religiões são comumente edifícios (...).
Onde quer que se oficie um culto, aí é o templo. No Brasil, o Estado é laico. Não tem religião oficial. A todas respeita e protege, não indo contra as instituições religiosas com o poder de polícia ou o poder de tributar (...). O templo, dada a isonomia de todas as religiões, não é só a catedral católica, mas a sinagoga, a casa espírita kardecista, o terreiro de candomblé ou de umbanda, a igreja protestante, shintoísta ou budista e a mesquita
maometana. Pouco importa tenha a seita poucos adeptos. Desde que uns na sociedade possuam fé comum ou se reúnam em lugar dedicado exclusivamente ao culto da sua predileção, este lugar há de ser um templo e gozará de imunidade tributária. (2006, p.p. 331-332).
No entanto, não estava clara a abrangência da expressão “templo”; nesse sentido, o STF firmou jurisprudência para clarear o termo. Templo, para o STF, não se resume ao espaço físico onde é praticado o culto religioso, mas se estende a todos os bens da organização religiosa, os quais devem estar registrados em nome da Igreja – Pessoa Jurídica de Direito Privado, desde que, de forma direta, estejam também a serviço do culto, escola dominical, ensaio de coros etc.
Assim, o STF foi além quanto ao termo “prédio”:
O Supremo Tribunal Federal pacificou o entendimento que os cemitérios que constituam extensões de entidades religiosas, não tenham fins lucrativos e não se distanciem da atividade principal da organização, bem como se dediquem exclusivamente à realização de serviços religiosos e funerários, também são objeto da não tributação em comento, em conformidade com a interpretação sistemática de toda a Constituição Federal, levando em conta o fato de que a imunidade tributária religiosa representa uma espécie de desdobramento do disposto no art. 5º, VI (garantia da liberdade religiosa e proteção aos locais de cultos e manifestações religiosas), bem como no art. 19, I (veto para que o Estado não interfira no funcionamento de cultos religiosos de qualquer natureza), ambos da Constituição Federal de 1988.
Afastou-se, com isso, a cobrança de IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) sobre a área ocupada pelo cemitério pertencente à Igreja Anglicana (Recurso Extraordinário nº 578.562/BA, relator Ministro Eros Grau, Pleno, Unânime, 21/05/2008). Neste mesmo julgado, o STF defendeu que deveria ser feita uma distinção apurada entre os cemitérios com as características já anteriormente citadas (configurarem extensão de uma entidade religiosa e não terem fins lucrativos), os quais gozam sim de imunidade tributária, igualmente as entidades religiosas, das quais os cemitérios são extensão, e aos cemitérios de caráter comercial que não tenham nenhum tipo de ligação com nenhuma organização religiosa, bem como sejam objeto de exploração por parte de empresas que alugam ou vendem jazidos com finalidade substancialmente lucrativa, não recairá tal prerrogativa tributária. (SILVA, S.).
Embora o tema tenha sido pacificado pela maioria do STF, quando do julgamento do Recurso Extraordinário - RE 562351, o Procurador-Geral da República assim se manifestou:
Mesmo que não se reconheça à Maçonaria (Grande Oriente do Rio Grande do Sul) como religião, não é menos verdade que seus prédios são verdadeiros Templos, onde se realizam rituais e cultos, sob a proteção de Deus, o Grande Arquiteto do Universo, objetivando elevar a espiritualidade do homem, a ética, a justiça, a fraternidade e a paz universal.
Seus Templos têm direito à imunidade de tributos, consoante art. 150, inc. VI, letra ‘b’, da Constituição Federal.
No entanto, o Ministro Enrique Ricardo Lewandowski, ao negar provimento, ponderou, nos seguintes termos: “Penso que, quando a Constituição conferiu imunidade tributária aos ‘templos de qualquer culto’, este benefício fiscal está circunscrito aos cultos religiosos.” [...] “Nesse sentido, estamos a falar em imunidade tributária com o intuito de não criar embaraços à liberdade de crença religiosa.”
Esse entendimento também é o do ex-Ministro Carlos Augusto Ayres de Freitas Britto, quando pronunciou-se no RE 578.562/BA, que versava sobre o mesmo tema: “Tendo a interpretar a regra constitucional da imunidade sobre os templos de qualquer culto como uma espécie de densificação ou de concreção do inciso VI do art. 5º da Constituição [...].”
Pode-se sintetizar o significado de templo, no âmbito do presente trabalho, como o lugar dedicado a adoração dos fieis. Porém, não significa somente a edificação, mas tudo o que estiver ligado ao exercício da atividade religiosa, o que implica considerar que os impostos não podem incidir sobre os atos religiosos, como missas, batizados etc., tampouco sobre os bens que estejam a serviço do culto.
Templos de qualquer culto, então, são os locais e os bens utilizados para a realização do culto propriamente dito e as demais dependências físicas em função do mesmo.
O templo, na acepção da palavra, é uma edificação física; não tem, portanto, personalidade jurídica. Ora, essa edificação destinada às práticas religiosas é propriedade de alguma organização religiosa. Dessa forma, a organização está imune à incidência de impostos que tributem o imóvel em si ou a renda auferida em decorrência do culto nele praticado.
Então, como decidido pela maior corte judicial do país, essa imunidade tributária relativa aos templos de qualquer culto relaciona-se a seu “patrimônio, renda e os serviços”, abrangendo o prédio, veículos, móveis, equipamentos, utensílios etc., os quais são necessariamente utilizados na atividade religiosa, desde que “relacionados com as finalidades essenciais das entidades nelas mencionadas”.
A partir de uma diligência através da doutrina e jurisprudência pátrias, o presente trabalho teve como escopo investigar questões que tratam do tema da imunidade tributária, especificamente quando recaem sobre os templos de qualquer
culto.
O interesse pelo assunto surgiu da curiosidade da autora em entender como, de fato, as imunidades dos templos são abordadas pelo ordenamento jurídico, pela doutrina e pela jurisprudência do nosso país. Para tanto, destacou os requisitos a serem obedecidos a fim de que os templos possam fazer jus a tal benefício.
Constatou-se que a Constituição não cria tributos, mas, sim, outorga poderes aos entes federados para que o façam, e, portanto, devem fazê-lo nos moldes por ela definidos, seguindo os seus princípios e a eles limitados.
Abordou-se a questão da distinção entre três institutos – demasiadamente confundidos por leigos e até mesmo pela própria Carta Magna –, que são a imunidade, a isenção e a não incidência, chegando-se à conclusão de que os templos de qualquer culto são imunes apenas aos impostos, e, ainda assim, tão somente aos relativos a seu patrimônio, suas rendas e serviços, ficando, pois, sujeitos à cobrança de taxas e contribuições.
Esclareceu-se que a regulamentação do que respeita à imunidade tributária é matéria privativa de Lei Complementar, não sendo possível qualquer alteração por meio diverso.
Por derradeiro, chegou-se à conclusão de que alguns líderes de seitas estão enriquecendo, inclusive se adonando de redes emissoras de televisão, o que faz com que suas igrejas se disseminem pelo país e pelo mundo, reunindo número extraordinário de fiéis e a cada dia arrecadando maior fortuna, fruto de toda essa atuação em nome da fé. Isso nos parece injusto para com outras ordens religiosas que não detêm recursos financeiros o bastante para propagar sua doutrina, como também demonstra um comportamento incompatível com a noção de laicidade.
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