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3.REFERENCIAL TEÓRICO

3.4. CONCEPÇÃO DOS SISTEMAS E A INTERFACE COM FATORES HUMANOS

O tema fatores humanos surgiu como uma disciplina que se refere às interações entre as pessoas e componentes técnicos em sistemas complexos. Os conceitos e métodos de fatores humanos têm sido amplamente aplicados em indústrias de alto risco, tais como o transporte aéreo e ferroviário, controle de processo nuclear e indústrias químicas41,42.

A abordagem dos fatores humanos está associada a um maior amadurecimento do sistema de gestão de segurança e pode oferecer contribuições importantes para a concepção de equipamentos, garantia de segurança, sistema de gestão e investigação de incidentes, permitindo que os requisitos e as restrições de operadores do sistema (humano) sejam formalmente descritas e sistematicamente entendidas41,42.

Uma das definições amplamente aceitas sobre fatores humanos é a definição do Health and Safety Executive (HSE)43 que conceitua fatores humanos como “fatores ambientais, organizacionais e do trabalho e características humanas e individuais que influenciam o comportamento no trabalho e na forma como eles podem afetar a saúde e segurança”. Esta definição inclui três aspectos inter- relacionados que devem ser considerados: o trabalho, o indivíduo e a organização.

O trabalho inclui áreas como a natureza da tarefa, carga de trabalho do profissional, o ambiente de trabalho, desenho de painéis e controles e o papel dos procedimentos. As tarefas devem ser projetadas de acordo com princípios de ergonomia e levar em consideração tanto limitações humanas quanto pontos fortes. Isto inclui a correspondência do trabalho para limitações físicas e

mentais das pessoas. Aspectos mentais incluem percepção, atenção e requisitos para tomada de decisão43.

Fatores individuais incluem a competência, habilidades, personalidade, atitude e percepção de risco. As características individuais influenciam o comportamento em ambientes complexos. Algumas características, como a personalidade, não mudam. Outras, como habilidades e atitudes, podem ser modificadas e melhoradas43. Fatores organizacionais incluem os padrões de trabalho, a cultura organizacional, recursos disponíveis, comunicação, liderança, entre outros. Tais fatores são muitas vezes negligenciados durante a concepção de postos de trabalho, mas têm uma influência significativa no comportamento individual e em grupo43.

Em outras palavras, o fator humano está preocupado com o que está sendo solicitado às pessoas (a tarefa e suas características), quem está operacionalizando essas tarefas (o indivíduo e sua competência) e onde eles estão trabalhando (a organização e seus atributos). As intervenções nos fatores humanos não serão eficazes se esses aspectos forem considerados isoladamente.

Corrobora este conceito, o modelo do queijo suíço, elaborado pelo psicólogo britânico James Reason44. Este modelo teoriza a respeito da avaliação e análise do erro. Segundo o autor, a interpretação do erro tem de ser realizada tanto por meio de uma abordagem individual quanto de uma abordagem do sistema. Ou seja, em organizações complexas o erro que causa lesão ao doente raramente é decorrente de um fato isolado. O que ocorre é que os erros devem atravessar diversas barreiras de proteção para poderem resultar em dano importante.

A abordagem individual é focada nos atos inseguros – erros e violações de procedimentos – cometidos por profissionais que estão na linha de frente dos processos e que derivam, primariamente, de processos mentais como esquecimentos, falta de atenção, baixa

motivação, falta de cuidado, negligência e imprudência. A falha é atribuída à pessoa e não à instituição44.

Na abordagem do sistema do modelo do queijo suíço, o autor propôs que barreiras e defesas ocupam uma posição chave ao considerar que cada uma delas deveria estar íntegra. Porém, cada uma delas é semelhante às fatias de um queijo suíço, com muitos “buracos”, que se abrem e se fecham continuamente, em diferentes momentos. Em algumas situações, quando esses “buracos” se alinham, permitem que um erro ultrapasse as múltiplas barreiras de segurança, ocasionando o dano. Quando um evento adverso ocorre, o importante não é investigar quem cometeu o erro, mas sim como e por que as defesas falharam. Assim, as medidas preventivas baseiam-se no fato de que não é possível mudar a natureza humana, mas as condições sob as quais os seres humanos trabalham44.

Os “buracos” nas defesas ocorrem por duas razões: falhas ativas e condições latentes, ambas envolvidas na ocorrência de eventos adversos. As falhas ativas são representadas pelos atos inseguros cometidos pelas pessoas que estão em contato direto com o sistema, podendo assumir diferentes formas: deslizes, lapsos, perdas, erros e violações de procedimentos.

As condições latentes são representadas pelas patologias intrínsecas do sistema e surgem a partir de decisões dos projetistas, construtores, elaboradores de procedimentos e do nível gerencial mais elevado. Tais condições podem tanto contribuir para o erro no local de trabalho (como, por exemplo, sobrecarga de trabalho, equipamentos inadequados, fadiga e inexperiência) quanto criar buracos ou fraquezas duradouras nas defesas podendo permanecer dormentes no sistema por anos antes que se combinem com as falhas ativas e provoquem acidentes44.

As falhas ativas não podem ser previstas facilmente, mas as condições latentes podem ser identificadas e corrigidas antes da ocorrência de um evento adverso. A compreensão deste fato leva ao gerenciamento proativo ao invés do reativo.

A ideia do queijo suíço não é tentar aperfeiçoar o comportamento humano individual, mas sim tentar diminuir os “buracos” no queijo — os erros latentes — ao mesmo tempo em que se tentam criar novas camadas de proteção de modo a impedir o alinhamento dos “buracos”.

Esta abordagem implica em uma análise das causas raízes do erro, por exemplo, concentrando-os nos aspectos institucionais (regulações, aspectos legais), de organização e gestão (recursos financeiros, políticas e cultura de segurança), do ambiente de trabalho (níveis e capacidades do pessoal, padrões de conduta, características dos equipamentos, suporte administrativo), do grupo de trabalho (tipos de comunicação, liderança e supervisão), da tarefa em si (existência de protocolos práticos e resultados dos testes de avaliação) e das características dos doentes (complexidade e gravidade da doença, comunicações e fatores pessoais e sociais)46. Isto não quer dizer que, apesar desta abordagem sistêmica do erro, não seja necessário analisar o comportamento individual dos profissionais responsáveis pelo erro. É na combinação entre essas duas abordagens que reside o potencial sucesso da gestão do erro clínico47.

Robert Wachter, um médico perito em segurança dos doentes, classificou os comportamentos em conscientes (aos quais prestamos atenção, especialmente quando a tarefa é nova para nós) e automáticos (que são aqueles que fazemos quase inconscientemente, independentemente do trabalho inicial que nos levou a aprendê-lo)19. Segundo o médico, as pessoas, na maior parte dos casos, preferem o comportamento automático, já que este implica menor energia para a sua realização, tem objetivos claros e

permite fazer várias coisas ao mesmo tempo. O automatismo é o contexto mais propício para a ocorrência de erros.

Os comportamentos podem ainda classificarem-se como falhas (slips) e erros (mistakes). As primeiras são inconscientes e inesperadas e surgem na execução de uma tarefa automática, mais frequentemente em contextos de estresse. Já os erros, resultam habitualmente de escolhas desacertadas ou decisões mal fundamentadas, quer por falta de conhecimento técnico-científico, quer de prática ou treino, quer ainda da aplicação de regras equivocadas para auxiliar na decisão sobre um problema específico19.

As falhas constituem a maior ameaça à segurança dos doentes, uma vez que os profissionais utilizam, na maior parte das vezes, comportamentos automáticos: os erros aparecem precisamente quando estamos no meio de uma ação que realizamos milhares de vezes antes. Soma-se a isto, o fato de que o problema dos comportamentos automáticos ainda é ignorado pelos sistemas de saúde e seus responsáveis19.

Uma vez que se entende que a falibilidade humana surge a partir desses constrangimentos humanos universais, a abordagem sobre os fatores humanos e sobre os sistemas permite que essas questões sejam sistematicamente gerenciadas. Com isso, pretende- se limitar a incidência de situações de perigo na assistência e criar sistemas melhor preparados para conter os efeitos prejudiciais dos erros43.

3.5. CARGA DE TRABALHO DE ENFERMAGEM E SUA