Por um momento, o universo, a vida Podem ser apenas este pequeno som enigmático...
Longo caminho foi percorrido na consolidação dos nossos objetivos. Fizemos um recorte neste imenso oceano poético, ao qual Cecília Meireles dedicou grande parte da sua vida, concentrando-nos no reconhecimento da preferência temática ligada às tradições cultural e filosófico-religiosa indiana, da qual o poeta foi admirador e pesquisador, e às idéias dos grandes líderes como Buda, Gandhi, Vinoba Bhave e Rabindranath Tagore.
No primeiro capítulo, constatamos que a motivação do poeta pelas temáticas místicas nasceram, já na infância, das duras perdas familiares, imprimindo no seu espírito um estado de alma solitário, indagador sobre os mistérios da existência e que, aos poucos, se justificaram e se ampliaram no rico espaço das imagens do folclore açoriano, relatados por sua avó, Jacinta Garcia Benevides. Cecília Meireles, portanto, reconhece que as predisposições para as questões da alma estão alicerçadas inicialmente por sua ascendência açoriana.
No segundo capítulo, focalizamos o poeta em três macrocosmos. No macrocosmo político-social, nossa pesquisa descreveu o nascimento do século XX e o início da era moderna. A reflexão encerrou sobre as conseqüências que os impactos políticos, desencadeados pelas guerras, fizeram abalar os costumes sociais, marcando o início de uma nova mentalidade. Se, por um lado, o horizonte do progresso criou abundância; por outro, desestabilizou a economia, acarretando o desequilíbrio social e político, do subemprego e do desemprego.
A identidade cultural já não podia ser explicada dentro do cogito, pois sua fisionomia moldava-se de forma mais democrática, reconhecendo a integridade cultural de cada país sem exclusivismos. Se, por um outro aspecto, o homem moderno alcançava a justa condição da diversidade cultural; por outro, massificava-se e automatizava-se e, por isso, o que se considerava como cultura também foi colocado em questão. Assim, todos os aspectos mencionados revelaram a crise emergida no século XX, de um tempo nitidamente conflituoso, que alcançou um ritmo de extremismo, ameaçando as condutas intelectual e científica,
revelando o individualismo e a dessacralização da vida. A escritura ceciliana foi composta dentro dessas circunstâncias sócio-históricas. A participação crítica ativa do poeta transfigurou-se não só dentro da sua poesia, mas, sobretudo, no âmbito da educação e do jornalismo.
No macrocosmo estético-literário, traçamos, pela tendência espiritualista e idealista, pela intenção musical do sonho e pela temática do absoluto e do transitório, a concepção de uma lírica universalizante, que passeou por estéticas várias, demonstrando com isso a alta dimensão do seu talento.
No macrocosmo filosófico-religioso, identificamos, na poesia ceciliana, as questões de ordem metafísica como a temporalidade, a morte, os mistérios que inquietam o ser humano, e sabendo que o poeta foi pesquisador da tradição religiosa e mítica indiana, ministrando em 1957, um curso de literatura oriental dramática, na Fundação Dulcina e professorando também cursos livres sobre literatura comparada e literatura oriental, bem como da filosofia ocidental, de vertente platônica e neo-platônica, pudemos estabelecer o campo intelectual com o qual o poeta confessadamente se identificava.
Estabelecidas as etapas mencionadas, no terceiro capítulo, utilizamo-nos do corpus Cânticos (1927). Nele, nossa leitura, encaminhou-se dentro dos limites e convenções formais consolidados pelas concepções clássicas e modernas de arte e poesia. A obra traz como temática a Liberdade. A interpretação dessa temática encaminhou-se para uma leitura com viés filosófico-religioso do Budismo, influência direta para a autora, relatada em cartas e depoimentos. Observamos que a composição estilística e conteudística do corpus revelou estreita relação com a poesia lírica oriental, em que os símbolos poéticos vinculavam-se a um tom, a um caráter, a disposições estéticas e morais do povo oriental, em específico, ao da Índia.
Ao longo da interpretação constatamos que presas à temática central da liberdade, outras temáticas dispostas nos cânticos, como: espaço, tempo, corpo, ego e morte, funcionavam como elementos fundamentais para o que explicitamente toda a obra propunha — a liberdade espiritual.
No quarto capítulo, nossa pesquisa, ainda amparada pelos depoimentos, cartas e entrevistas concedidas pelo poeta, buscou identificar as afinidades ideológicas e culturais da
Índia e seus principais representantes (Buda, Mahatma Gandhi, Vinoba Bhave e Rabindranath Tagore) com a escritura ceciliana.
No seu processo de construção poética, o poeta firmou sua identidade comungando com valores peculiares à cultura indiana, mas, por talento, ele redimensionou os símbolos, ampliando e aprofundando de maneira particular as visões deste mesmo mundo.
O estudo interpretativo-comparativo do poeta com as convicções ideológicas de Buda, Mahatma Gandhi e Vinoba Bhave abriu mais um espaço para a compreensão de tudo que ele nos legou. Constatamos que a comunhão com o poeta indiano Rabindranath Tagore foi extremamente rica. Cecília sorveu da sensibilidade desse grande poeta, considerando-o como um espírito afim; e, guardando as devidas idiossincrasias, nosso poeta potencializou sua lírica, trazendo para o mundo a singularidade do seu canto.
Reforçar que a obra literária ceciliana carrega em si um fabuloso aparato cultural não é redundante. O século XXI, regido pelos valores mercantilistas, pela absurda busca superficial da vida, pela dessacralização dos valores genuinamente humanos como o respeito por si mesmo, pelo outro e pela natureza, pelo poder disseminador das culturas e dos povos e da sua dignidade; pelo abandono dos gestos verdadeiros e simples e da crença no sagrado, trazer às Humanidades, desse tempo, um olhar constituído de vida interior, poeticamente convertido em espaço sinestésico, inscrito num autêntico caminho de ascese, entregue ao completo sentimento e posse de liberdade, é acreditar, de alguma forma, que é possível restituir o humano e o divino ao homem; que a literatura para a vida de todos os seres humanos, nesses tempos de profuso abandono, é também luz prismatizada de tudo que os envolve: cultura, história, religião, ciência e arte.
Reconhecer que somos a extensão humana de todos os tempos, constantemente relidos e reescritos pelos fazedores de Poesia, vinculados pelo fio da história de povos e cultura, irmanados pela condição cíclica da vida e seus misteriosos percursos, já justificaria nossa devoção ao que vimos, humildemente, construindo como leitores-pesquisadores de arte poética.
BIBLIOGRAFIA GERAL