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3.6.1 Voz expletiva

3.7 Conclusão do capítulo

Neste capítulo, examinei a estrutura de anticausativas marcadas e não-marcadas no PB. Primeiramente, apresentei, em linhas gerais, possibilidades de análise presentes na literatura e optei pelas análises desenvolvidas por AAS, especialmente nas versões de 2006 e 2015. Com a estrutura desenvolvida pelos autores, pude fazer testes sintáticos que acusam a manutenção da mesma estrutura do vP de sentenças anticausativas com ou sem morfologia. Também adotei a proposta de AAS de que anticausativas marcadas possuem um núcleo de voz expletivo, o que explica a permanência de características definidoras de sentenças anticausativas mesmo quando elas deixam de ser marcadas. No entanto, diferentemente desses autores, argumento que essas

33 Mantenho os exemplos do texto, mas os exemplos em (99) têm paralelo em PB. i. Ela não está sendo ela mesma hoje;

ii. Ela viu ela mesma no espelho (cf. discussão no capítulo 2 sobre os contextos anafóricos de perda de SE);

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sentenças são intransitivas e o comportamento contrastante desses elementos e de pronomes plenos demonstra isso. Assim, esse capítulo demonstra que anticausativas marcadas e não- marcadas não terão mudanças significativas em sua estrutura, porque SE, nesses eventos, não se configura como um argumento.

Nos próximos capítulos, exploro as mudanças de eventos em que SE tem uma leitura arbitrária. Nesses eventos, como SE é computado como um participante do evento, espera-se que haja mudanças na estrutura.

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4.

MÉDIAS NO PB1

4.1 Introdução

Neste capítulo, discuto as sentenças médias do PB em detalhes, tratando tanto das características das variantes marcadas, quanto das não-marcadas. Mais especificamente, investigando algumas das propriedades já apontadas no capítulo 2, mostro que as sentenças médias marcadas no PB têm uma derivação diferente de médias marcadas em outras línguas românicas. Enquanto médias marcadas nas línguas românicas têm derivações compatíveis com sentenças SE-passivas, a média marcada do PB é formada com um DP diretamente gerado na posição de tópico. A estrutura parece ser a de SE-passiva, mas é, na verdade, uma estrutura alternativa, justamente pela perda de SE-passivas em PB. Além disso, o elemento pré-verbal não concorda com o verbo, ao contrário de médias em outras línguas românicas que têm os mesmos ingredientes de sentenças SE-passivas. Uma vez que sentenças SE-passivas estão confinadas à escrita formal e não são produtivas mesmo na fala de falantes cultos (cf. NUNES, 1990, entre muitos outros), a estranheza de médias marcadas concordando com o verbo, notada por Rodrigues (1998), por exemplo, é esperada. As sentenças SE-médias teriam, então, uma derivação alternativa em PB.

Após determinar os elementos da derivação de SE-médias em PB, passo à derivação de médias não-marcadas na mesma língua. Médias desse tipo em PB têm uma derivação diferente tanto de médias não-marcadas em inglês e holandês, as quais são geralmente descritas como médias inergativas, quanto de médias marcadas em línguas românicas. Em linhas gerais, não há nenhuma diferença entre médias não-marcadas em PB e sentenças inacusativas plenas, o que me leva a discutir se médias necessariamente precisam de um agente. Se esse for o caso, a perda do SE em PB acarretou a perda de eventos médios. Se a resposta for de que sentenças médias são construções sobre uma dada propriedade de um DP sem envolver, obrigatoriamente, um agente, as médias não-marcadas do PB exemplificam uma estratégia de formação de sentenças médias que não é comumente contemplada na literatura.

1 Partes deste capítulo foram desenvolvidas em parceria com Ana Paula Scher em apresentações no 45 LSRL e no VIII Encuentro de Gramatica Generativa. As seções 4.5, 4.8 e 4.9 são desenvolvimentos posteriores a essas apresentações e a seção 4.7 apresenta uma discussão mais detalhada do que a que foi apresentada nos dois eventos.

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Por fim, diferentemente de sentenças anticausativas discutidas no último capítulo, a perda do SE em eventualidades que envolvem uma interpretação arbitrária leva a uma diferença significativa das estruturas em comparação. É nessas eventualidades, em que pro se compõe com SE, que se localiza uma mudança significativa na gramática de eventos do PB.

4.2 O que são sentenças médias?

2

Sentenças médias são assunções sobre uma dada propriedade do complemento do verbo que descreve a ação. O exemplo (1) pode ter a seguinte leitura, de acordo com Stroik (2006: 303), [ ler facilmente] é uma propriedade genérica dos eventos de ler este livro, independentemente de quem inicie esse evento, que o evento será facilmente conduzido por essa pessoa.”3

(1) This book reads easily. (STROIK, 2006:303)

Na leitura atribuída à sentença (1) por Stroik (2006), vemos a menção a um Agente, mesmo que a sentença em questão não tenha nenhum agente manifesto. A representação do Agente em médias e sua relação ou não com morfologia manifesta nesse tipo de evento foi/tem sido alvo de intensos debates na literatura. Neste capítulo, vamos descrever como sentenças médias sem o SE em PB se comportam e como tais sentenças podem contribuir para o debate de representação de agentes em sentenças médias.

Além do debate sobre a representação do Agente, o papel da morfologia em sentenças médias também é importante na caracterização de propriedades de sentenças médias. De modo geral, dois tipos de sentenças médias são reconhecidas como possíveis em línguas do mundo: sentenças médias não marcadas, como as do inglês, e sentenças médias marcadas, como as do francês. Veja os exemplos (2) e (3) abaixo.

(2) Bureaucrats bribe easily.

(3) La Tour Eiffel se voit de loin. A torre Eiffel se vê de longe.

2 Utilizo, aqui, a definição de médias comumente empregada na Linguística Gerativa. Abordagens funcionalistas

e cognitivistas se valem do termo ‘Domínio Médio’ que abarca um grande número de construções. Para um

estudo do Domínio Médio do PB, ver Bauab Jorge (2016).

3No original: “it is a generic property of events of reading this book by any arbitrary person that they are events

120 ‘A torre Eiffel se vê de longe.’

(ACKEMA &SCHOORLEMMER, 2007:3)

A presença ou a ausência de uma marca em sentenças médias parece suscitar uma série de propriedades diferentes em sentenças médias. Veja-se, por exemplo, a tabela abaixo, feita a partir da discussão em Ackema e Schoorlemmer (2006), em que se apontam algumas diferenças entre sentenças médias em línguas como o inglês (tipo 1) e sentenças médias em línguas como o francês (tipo 2).

Quadro 1: Tipos de médias

O Quadro 1, então, mostra que, muito embora as sentenças médias do inglês sejam concebidas como dotadas de um Agente, não há reflexo sintático da presença desse elemento, uma vez que expressões orientadas para o agente não são licenciadas. Além disso, a presença de morfologia em médias, como em médias marcadas do francês, também licencia um número maior de verbos em sentenças médias. Exemplos dessas propriedades quando médias do PB são levadas em consideração se encontram na discussão feita no decorrer do capítulo.