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Conclusões

No documento PARE. ESCUTE... OUÇA! (páginas 131-140)

Os ateliers realizados no âmbito deste trabalho, mais do que permitirem tirar conclusões sistemáticas, tiveram como objetivo fazer a experiência da sensibilização para o som, na arte e na vida, utilizando novas tecnologias a que os alunos não têm habitualmente acesso, no interior de um contexto pedagógico de educação não formal.

A amostra neles representada foi pouco relevante, permitindo apenas retirar algumas impressões não conclusivas.

As duas oficinas foram bastante diferentes, tanto em termos de contexto, como de grupo participante. Enquanto na Escola Santo António, os participantes eram os alunos de uma turma do 2ºano do ensino básico, de 7 / 8 anos, acompanhados pela professora da AEC de expressões; no caso da oficina dinamizada no âmbito do festival Lisboa Soa, o grupo era constituído por crianças entre os 8 e os 12 anos, acompanhadas pelos seus pais.

Enquanto na primeira, estávamos em contexto escolar, no horário das AEC para alguns, e recreio para outros; na segunda estávamos no interior de um festival dedicado a questões sonoras, o que já de si criava uma predisposição ao interesse pelas questões abordadas.

Na escola Santo António, era um grupo grande, de aproximadamente 20 alunos, acompanhado apenas de uma professora. No Lisboa Soa, era um grupo pequeno, de 12 pessoas, aproximadamente metade crianças, e a outra metade, os seus encarregados de educação.

A disponibilidade dos equipamentos utilizados era também muito diferente. Enquanto na primeira oficina, havia apenas um gravador com microfones integrados; na segunda existiam 2 gravadores, e alguns tipos de microfones diferentes (hidrofone, shotgun, microfone de contacto).

Em comum, as duas oficinas tiveram uma boa resposta por parte dos participantes. Todos os alunos se mostraram interessados e participativos. Todos gostaram de ter a experiência de

procurar, ouvir e gravar sons (os encarregados de educação também). Na oficina da escola Santo António, como existia apenas um gravador, este tinha que passar de um grupo de alunos para outro, em relativamente pouco tempo e, quando chegava o momento de mudar, havia geralmente alguma resistência por parte de quem tinha que deixar de ouvir os sons, para dar a vez a outro aluno.

A qualidade dos sons não é boa, nem se esperava que fosse, numa primeira experiência, e em idades tão jovens. Aquilo que é mais relevante são as ligações que fazem entre o meio ambiente que os rodeia e as novas ferramentas que aprendem a manipular.

A diferença na perceção auditiva entre o que estão a ouvir através dos ouvidos diretamente, ou através da mediação dos gravadores, microfones, auscultadores é sempre uma surpresa:

− “A minha voz é assim?”

− “Este não sou eu...”

− “Eu consigo ouvir aquilo, lá ao longe!”

− “Com o microfone ouve-se bem melhor”

À medida que se avança no percurso pedagógico da escolaridade obrigatória, seja no ensino regular, seja no ensino vocacional especializado de música, assim os conteúdos da educação musical se vão aprofundando no sentido de uma educação musical mais orientada para a prática de um instrumento musical que aperfeiçoe a interpretação das peças musicais dos compositores chamados clássicos, e o virtuosismo técnico e de execução dessas obras.

Cai fora do âmbito deste trabalho, a análise dos curricula e programas de educação musical no ensino superior de música. Por aquilo que temos constatado, nesta fase já será possível orientar os estudos no sentido de projetos musicais mais experimentais, e que incluem educação sonora.

Da análise dos curricula e programas de Educação Musical, do pré-escolar ao secundário, podemos concluir que estes deixam espaço aos professores da área, que lhes permite

explorar conceitos de educação sonora e musical, e integrá-los nas suas aulas de educação ligados a projetos independentes de educação não formal. Reconhecendo uma lacuna nesta área da educação sonora, por vezes são estabelecidas parcerias entre estes e alguns estabelecimentos de ensino formal, com o objetivo de diversificar e enriquecer os conteúdos pedagógicos ministrados nas disciplinas de educação musical, ou outras disciplinas.

Ao nível da organização e estrutura do ensino, ao longo de toda a escolaridade obrigatória, a Educação Musical tem objetivos, conteúdos e métodos pedagógicos suficientemente abrangentes para poderem conter abordagens e referências à Educação Sonora em sala de aula. As referências bibliográficas sugeridas pela DGE / MEC incluem também várias obras em que se explora a Educação Sonora aprofundadamente. Desta forma, os professores / educadores têm liberdade para incluir práticas pedagógicas em sala de aula, que possam trabalhar a Educação Sonora, antes, ou em paralelo, com a Educação Musical mais clássica.

Apesar disto, são ainda poucas as abordagens pedagógicas em sala de aula que exploram a Educação Sonora. Uma possível explicação para isto, passa por questões de perpetuação do modelo pedagógico.162

A importância de nos reconectarmos com o nosso universo sonoro, não pode deixar de ser enfatizada, sendo imperativa a sensibilização para estas questões de atenção ao meio ambiente sonoro em que estamos inseridos.

161 c.f. anexo 2

162 Simão Costa, cf anexo 6

Esta proposta de projeto artístico/pedagógico pretende juntar estas duas realidades, e fazer com que as pessoas que nela participem, saiam dela com uma maior consciência do nosso mundo sonoro.

Por um lado, o desviar a ênfase do “musical”, para focar em tudo o que é “sonoro”, abre o campo da educação para abranger a totalidade da perceção auditiva.

Assim, não se limita o campo educativo ao que se considera música, independentemente da definição que se estiver a considerar aplicar. À semelhança do que acontece na educação visual, em que o foco é a perceção da visão, e inclui noções de pintura, escultura, desenho, ilustração, cinema, vídeo, ...

Falamos em educação do escutar como se fala também em educação do olhar.

Educação da percepção do sensível.

Tudo o que é sonoro é, por excelência, uma grande parte do que constitui comunicação.

Alargar o âmbito da educação musical, para o sonoro, teria como vantagem poder passar a incluir noções de:

Expressão musical e sonora

Independentemente da definição de música que se está a considerar, a arte e a criatividade ligadas ao som;

Relação imagem-som

O lugar do som na expressão artística em cinema e audiovisuais, bem como em outras formas de arte que utilizam a criatividade sonora;

Saúde

Os efeitos do som sobre a nossa saúde, a poluição sonora;

Meio ambiente acústico

As paisagens sonoras, naturais e construídas, e o que o seu estudo nos ensina sobre a boa convivência no nosso planeta, noções de ecologia acústica, a proporcionalidade direta entre um lugar e o seu som;

Novas tecnologias aplicadas ao som

Como vimos nos capítulos música e novas tecnologias, os desenvolvimentos tecnológicos estão diretamente relacionados com a evolução das formas artísticas.

Abranger as novas tecnologias na educação, para além de ensinar diretamente a lidar com as mesmas, assimilando conhecimentos técnicos, científicos e informáticos, tem sobretudo como efeito secundário principal, fomentar a aprendizagem da relação entre ciência e tecnologia, e a expressão artística;

sonificação.

Os Estudos da paisagem sonora (...), acredita-se que, ainda, pouca gente compreendeu a importância desses estudos para a formação do ouvinte consciente. A escuta da “paisagem sonora” é um fator importante no estudo de Música e o precede ou acompanha. A acuidade auditiva decorrente desse estudo – de cunho prático, além do teórico – é incontestável. Atualmente, (...) esses estudos ganham novas possibilidades, na medida em que podem atuar como elo entre a música e outras disciplinas (Estudos Sociais, Geografia) ou eixos transversais (Estudos do Meio), por exemplo. (Fonterrada, 2015)163

A questão económica e financeira é sempre um grande problema a ultrapassar, quando se fala em equipar escolas com novas ferramentas.

163 Fonterrada, Marisa Trench de Oliveira (2008) De Tramas e Fios – Um ensaio sobre música e educação. S. Paulo: Fundação Editora da UNESP (p. 267-268)

Seria interessante pensar um projeto de oficinas com continuidade, em que se pudesse avaliar a progressão da sensibilidade às questões abordadas, e a interdisciplinaridade entre esta e outras disciplinas.

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