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CONCORRÊNCIA x/eESTABILIDADE

No documento Novembro de 2005 (páginas 57-62)

A legislação desenvolvida pelo o governo para regular processos de fusão do setor bancário objetiva criar um ambiente estável e propício à concorrência, corrigindo possíveis falhas de mercado do setor. Dessa forma, a regulação para analisar e julgar processos de fusão possui dois objetivos, e portanto, deve-se analisar se esses objetivos são conflitantes ou se trabalham na mesma direção. Entender a dinâmica entre concorrência e estabilidade consiste num passo importante para se escolher qual agência melhor poderá desempenhar a função de analisar e julgar processos de fusão no setor bancário.

Existem tanto argumentos para acreditar que ocorre trade-off entre concorrência e estabilidade quanto para acreditar que elas trabalham na mesma direção. Nesse capítulo serão apresentados os argumentos para ambas as dinâmicas, e por fim uma sessão discorrerá sobre os efeitos da restrição da concorrência no setor bancário. Finalmente, deve-se ter em mente que nenhum desses argumentos utilizados a favor ou contra o trade-off entre concorrência e estabilidade são de fato conclusivos, e portanto, não se deve utilizá-los isoladamente para a defesa de qual agência melhor pode exercer a função de analisar processos de fusão no setor bancário.

4.1. Concorrência x Estabilidade

Existem alguns argumentos para acreditar que concorrência e estabilidade não podem ser atingidas simultaneamente. O primeiro argumento se relaciona ao já

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discutido caso da firma falida. No caso de um banco se tornar insolvente, torna-se preferível que outro banco o adquira do que deixá-lo falir. Isso porque a quebra de confiança que um banco insolvente possa exercer sobre o setor, pode levar à corrida bancária inclusive em bancos com fundamentos sólidos, podendo impactar a economia como um todo. Dessa forma, estabilidade e concorrência agem em direções contrárias.

Todavia, não se pode esquecer que, no argumento da firma falida, mesmo que o banco insolvente não fosse incorporado a um outro banco, ocorreria concentração no setor.

Assim, o que se argumenta é que mesmo que o banco comprador já possua grande porte, a fusão poderá ser admitida dada a crise que um banco insolvente pode gerar.

O segundo argumento se relaciona a barreiras de entrada e o quanto elas podem influenciar o grau de estabilidade do setor. A agência reguladora impõe requisitos a serem cumpridos pelos entrantes no setor bancário, como requisitos de capital mínimo e limites a certas atividades. Se por um lado essa regulação prudencial garante a diminuição de crises sistêmicas, por outro lado ela compromete a concorrência por restringir a entrada de novos participantes no setor.

Outro argumento importante se relaciona com o fato de a competição aumentar os incentivos para que um banco eleve sua exposição ao risco uma vez que vê o valor esperado do seu lucro diminuir. Por esse argumento, o aumento da concorrência impacta negativamente a estabilidade por dois canais: maior competição leva a maior tomada de riscos e a menor possibilidade de diversificá-los, dado o menor porte dos bancos. Dessa forma, o aumento da concorrência elevaria a probabilidade de instabilidade no setor bancário.

O quarto argumento se relaciona com o mercado de crédito. Neste argumento, o aumento da competição levaria a maior exposição de bancos a piores tomadores. Isso

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porque o alto grau de competição levaria a elevação da oferta de crédito, o que aumentaria a quantidade de créditos não repagos. Assim, os bancos aumentariam a possibilidade de se tornarem insolventes comprometendo a estabilidade do setor.

4.2. Concorrência e Estabilidade

Apesar dos argumentos apresentados na sessão anterior, que comprovariam a existência de um trade-off entre estabilidade e concorrência, também existem motivos para acreditar no contrário. Primeiramente existe o argumento do too big to fail. Nesse argumento, o aumento da concorrência impactaria de forma positiva a estabilidade. Na concepção de ser too big to fail, um banco de grande porte se sentiria incentivado a tomar mais risco do que o prudente, uma vez que a agência supervisora do setor jamais o deixaria insolvente por não desejar comprometer a estabilidade do setor. Dessa forma, a maior competição levaria ao aumento da estabilidade.

Outro argumento relevante, a favor do aumento da concorrência para se manter a estabilidade, diz respeito ao tamanho do banco e a sua capacidade de influenciar outros bancos, em caso de crise. Bancos de maior porte influenciam mais agressivamente outros bancos. Dessa forma, mesmo que bancos de grande porte possuíssem menor probabilidade de se tornarem insolventes, uma crise por eles gerada, teria impactos bem mais perversos sobre o setor dada a sua capacidade em contaminar os demais.

O último argumento se relaciona ao mercado de crédito e, ao contrário do que se discutiu na sessão anterior, o aumento da concentração poderia levar a uma piora da qualidade dos tomadores de crédito, elevando-se assim o risco de insolvência no setor

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bancário. Sob esse argumento, o aumento do poder de mercado gerado pela diminuição da concorrência levaria a elevação das taxas de juros cobrados no mercado de crédito.

Isso incentivaria os tomadores a se engajarem em atividades mais arriscadas, o que por sua vez aumentaria o risco de inadimplência e de insolvência no setor bancário. Assim, o aumento da concorrência melhoraria a qualidade dos tomadores de crédito e diminuiria o risco de crise no setor.

4.3. Lições do Estudo

Apesar dos argumentos não serem conclusivos em nenhuma direção, podem-se apreender algumas lições. Primeiramente, sob alguns casos existe a possibilidade que uma fusão, que apesar de não comprometer no primeiro momento a estabilidade, caso não seja aprovada, poderá aumentar a estabilidade do setor. Dessa forma, mesmo fusões que não envolvessem bancos insolventes poderiam ser aprovadas se provassem que aumentariam a estabilidade do setor. Assim, o argumento da firma falida para o setor bancário ganha outras proporções.

Segundo, uma vez que o setor bancário possui dinâmica própria, torna-se necessário avaliar qual é o verdadeiro impacto do aumento da concentração sobre o consumidor. Como argumentado, no mercado do crédito, é possível que o aumento da concentração aumente os benefícios para a sociedade. Assim, abre-se uma nova questão.

Torna-se necessário avaliar quais são os verdadeiros impactos do aumento de concentração, e se eles sempre impactaram de forma maléfica a população. Nesse ponto, deve-se deixar claro que não se objetiva excluir da análise os impactos maléficos

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do aumento da concentração como os impactos anticompetitivos sobre preço, a criação de um possível conflito de interesse gerado por diversas transações pertencerem ao mesmo comando e o aumento de influência econômica e política causado pela concentração de mercado.

Por último, a preocupação com a estabilidade do setor e o fato de que existe probabilidade não desprezível de existir conflito entre estabilidade e concorrência gera a necessidade de que haja ao menos, participação da agência de regulação do setor bancário na avaliação e julgamento de processos de fusão. Todavia, isso não significa que se deva excluir a agência de concorrência desse processo. Apenas, se conclui que a importância da estabilidade do setor gera a necessidade que processos de fusão devam ser analisados pela ótica prudencial. Resta portanto analisar se esse processo deve se realizar em conjunto com a agência de concorrência ou se ele deve ser deixado a cargo exclusivo da agência prudencial.

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No documento Novembro de 2005 (páginas 57-62)

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