2. SOB A ÓTICA DOS AUTORES

3.2 Condição socioeconômica atual

Observando o Guarapes nos dias de hoje pode-se dizer que ele ainda possui características de área de expansão urbana, apresentando baixos índices de ocupação na maior parte de seu território.

Em consonância com o censo levantado pelo IBGE (2010), o Guarapes se apresenta como o bairro com o menor número de domicílios entre 2000 e 2010, e cerca de 68% de seu território ainda é de cobertura vegetal. Sobre isto, é importante destacar a restrição de adensamento imposta ao bairro por conter em seu território a Zona de Preservação Ambiental dos cordões dunares, ou ZPA-4.

No entanto, mesmo com esta particularidade ambiental, seu afastamento geográfico e a dificuldade de acesso aos centros e principais vias da capital e, também, a infraestrutura urbana de baixa qualidade, se mostram como fatores elementares do baixo adensamento (DIÓGENES, 2014).

Além da particularidade ambiental, todo o bairro está contido numa Mancha de Interesse Social (MIS), cuja predominância de renda é de até 03 salários mínimos (SEMURB, 2017).

O trajeto histórico mais recente do bairro muito difere do seu passado como importante entreposto comercial na capitania do Rio Grande do Norte, tendo sido bastante influenciado por sucessivos reassentamentos de famílias advindas de periferias da cidade. Como exemplo dos primeiros reassentamentos promovidos pelo poder público, tem-se a favela do Fio e a do DETRAN, que, “em 1988, foram ali abrigadas por viverem em situação de risco” (SEMURB, 2007), dando início a expressiva ocupação do território do bairro.

De acordo com Caroline Diógenes (2014), entre 2008 e 2009 foram entregues pela Secretaria de Habitação, Regularização Fundiária e Projetos Estruturantes (SEHARPE) dois conjuntos Habitacionais de Interesse Social (HIS), os quais faziam parte do projeto Planalto II, desenvolvido a partir das premissas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e com o intuito de reduzir o déficit habitacional da capital. Foram eles: o conjunto Santa Clara e o Leningrado, localizados próximos entre si no extremo leste do bairro (Figura 04).

Em seu trabalho a autora avalia a qualidade destas habitações, sobretudo por terem sido inseridas em uma região pouco abastecida por equipamentos públicos e infraestrutura urbana que pudessem amparar as novas famílias que chegavam:

As famílias foram para os citados conjuntos habitacionais em junho de 2009, evidenciando problemas relativos à inserção urbana, principalmente, quanto ao acesso a transporte público e aos equipamentos de saúde, educação, entre outros. (DIÓGENES, 2014, p. 23)

Somente após a posse das famílias que foram ocorrendo melhoras na infraestrutura urbana. Entre 2010 e 2012 foi promovido o calçamento em algumas ruas do Leningrado e seu entorno, e também, foram criadas as primeiras linhas de ônibus (linha 599 e linha 41) com terminal dentro do bairro. Esse aprimoramento ocorreu devido reivindicação popular, e foi promovido pela Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana (SEMOB), beneficiando em média 1.500 habitantes. Mas, a longa espera e atrasos das linhas faz com que muitos moradores prefiram ir a pé ao terminal do Planalto, onde existem mais opções de linhas de ônibus (DIÓGENES, 2014).

Em 2014, outro reassentamento foi realizado ao lado dos conjuntos habitacionais citados a cima. Conforme a Prefeitura Municipal do Natal, para a entrega do condomínio vertical Vivendas do Planalto (Figura 04), com 896 unidades habitacionais, a SEHARPE cedeu o benefício financeiro a 448 famílias cadastradas no programa Minha Casa Minha Vida (MCMV), advindas de assentamentos existentes no Guarapes e no Planalto: Anatália, Oito de Outubro e Monte Celeste. O condomínio conta com praça, playground e uma pequena quadra poliesportiva descoberta.

Em 2018 foram entregues mais de 1792 unidades de apartamento, no Condomínio Residencial Village de Prata, localizado na extremidade do bairro com o Planalto e Macaíba. Parte das famílias beneficiadas são inscritas no programa MCMV, e a outra parte é oriunda de assentamentos e ocupações informais, dentre eles, a Favela do Fio, do Alemão e o assentamento 8 de março (SEHARPE, 2019).

A localização do condomínio pode ser verificada na Figura 04.

Se não bastasse a distância entre as “ilhas” habitacionais do bairro, a má distribuição dos equipamentos públicos dificulta o acesso dos moradores da região do Leningrado e do Village de Prata. Ao todo, tem-se: dois Centros Municipais de Educação Infantil (CMEI), duas escolas municipais, uma Unidade Básica de Saúde, uma praça, um minicampo e uma quadra (Figura 04). Destes, apenas um CMEI está inserido dentro do Leningrado. Embora, o Residencial Vivendas do Planalto possua praça e campinho próprios, estes não são suficientes para ofertar lazer a todos os moradores da redondeza.

Figura 04 – Zoneamento do bairro.

Fonte – Google Maps (2021), modificado pela autora.

Como podemos observar no mapa acima, os equipamentos se concentram na parte central do bairro; quanto aos equipamentos destinados ao lazer, a praça pública se encontra atualmente em relativo estado de abandono (Figuras 05 e 06);

já o minicampo possui alguma estrutura, como iluminação interna e cercamento, além de ser bastante utilizado (Figura 07):

Figura 05 – Praça pública do bairro.

Fonte – Acervo da autora (2021).

Figura 06 – Mobiliário da praça pública do bairro.

Fonte – Acervo da autora (2021).

Figura 07 – Minicampo do bairro.

Fonte – Acervo da autora (2021).

A quadra foi recentemente aprimorada pelos moradores, com a troca da tela de cercamento e a constante manutenção do terreno, como se pode ver nas Figuras 08 e 09.

Figura 08 – Quadra do bairro em 2019.

Fonte – Acervo da autora (2019).

Figura 09 – Quadra do bairro em 2021.

Fonte – Acervo da autora (2021).

A questão da distância geográfica entre as partes, e o próprio isolamento do bairro dentro de Natal, foi amenizada devido à criação da linha de ônibus 587, que conecta o centro do Guarapes ao Village de Prata, e a linha 41B, que sai do Leningrado com destino final para o Alecrim. Ao todo, o bairro conta com cinco linhas, das quais três saem do terminal do centro e as outras duas do terminal do Leningrado (Figura 10).

Figura 10 – Terminais de ônibus dentro do bairro.

Fonte – Google Maps (2021), modificado pela autora.

Apesar das dificuldades o bairro se vê em constante luta pela reivindicação de seus direitos, organizadas pelas suas lideranças, que mesmo com adversidades para estabelecer o diálogo entre partes, se esforçam para manter o engajamento político.

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE TECNOLOGIA CURSO DE ARQUITETURA E URBANISMO TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO (páginas 33-40)