3. Comércio e consumo na cidade de Almada
3.2. Condicionantes ao desenvolvimento dos eixos comerciais
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3.2.1. Implantação do Metro Transportes do Sul
O metro de superfície em Almada foi um projeto ambicioso e necessário para melhorar os serviços de transportes na margem sul do Tejo. “Desde 1985 que se tornou clara a necessidade de existir, na margem sul, um meio de transporte acessível à população e que fosse rápido, eficaz e amigo do ambiente, unindo, entre si, os concelhos de Almada, Seixal, Barreiro e Moita” (CMA, 2007b). A ideia de ligar vários pontos de Almada por caminho de ferro data na realidade da década de 30 do século XX, “(…) para transporte de passageiros e mercadorias, que, partindo da povoação de Cacilhas, se dirija à Costa da Caparica, servindo Almada, Pragal, S. Lourenço, Banática, Porto Brandão, Lazareto e Trafaria (…)” (Hemeroteca Digital, 2022:588).
Após a tomada de decisão para avançar com o projeto, a burocracia envolvida na construção e adjudicação da obra, levou a que apenas em 1995 fosse estabelecido o
‘Protocolo para o desenvolvimento do metropolitano ligeiro na margem sul do Tejo’, sendo que as obras foram sendo adiadas, e apenas se iniciaram em 2002, “após novo protocolo assinado em 1999” (Diário do Distrito, 2019).
A construção do metro foi alvo de alguns problemas, porque para além dos atrasos na implantação da linha, gerou o caos na circulação automóvel e pedonal no centro de Almada, com inevitáveis consequências para o comércio.
Figura 10 – Fases de construção do MTS na Avenida 25 de Abril de 1974 em Almada Fonte: CMA (2007a).
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Várias ruas foram alvo de alterações no sentido de trânsito, com algumas ruas a passarem a ter dois sentidos e outras na qual se inverteu o sentido de trânsito. Durante determinadas fases da obra em alguns troços a circulação chegou a estar cortada durante meses, condicionando a vida da população e as atividades económicas (comércio, restauração e serviços).
No caso das avenidas que constituem o principal eixo de Almada, a circulação rodoviária e pedonal foi alterada por fases. A Avenida 25 de Abril, por exemplo, foi alvo de três fases distintas (Figura 10), o que culminou na circulação por apenas uma faixa de rodagem para cada sentido de trânsito com o metro ao centro da Avenida, alguns lugares de estacionamento e amplos passeios.
Contudo, o processo foi demorado e impactou os residentes e as atividades económicas nesta avenida, pelo pó e ruído provocado pelas obras. Esta situação verificou-se igualmente nas Avenidas Dom Afonso Henriques e Dom Nuno Álvares Pereira, o que levou ao encerramento de alguns estabelecimentos comerciais aí localizados. Quando em 2007 entrou em funcionamento o primeiro troço planeado para o metro, rapidamente os problemas começaram a surgir, desde o ruído excessivo provocado pelas composições, que se mantém até à atualidade, às alterações de trânsito e às dificuldades de circulação e estacionamento automóvel.
Em entrevista ao Almadense (2021b), vários moradores manifestaram-se contra o ruído gerado pela passagem das composições, com a agravante das vibrações que afirmam estar a provocar fendas no interior e exterior dos edifícios. Entretanto, numa declaração ao mesmo jornal, a presidente da Comissão Executiva do MTS, Ana Cristina Dourado, informou que se iniciou a 31 de maio de 2022, “uma intervenção destinada a minimizar os níveis de ruído emitidos à passagem do metro” (Almadense, 2021a) entre Cacilhas e o Laranjeiro.
Com a inauguração do metro em 2007 e a crise de 2008, que se veio a sentir de forma acentuada sobretudo por volta de 2009/2010, o comércio de Almada, que já se tinha ressentido pelas obras prolongadas do metro e pelos espaços recentemente pedonizados, enfrentou um novo desafio para se conseguir manter de portas abertas e dinâmico.
Não obstante, o centro de Almada ganhou um novo modo de transporte com o metro de superfície, que tem ligação à Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e facilita a ligação intermodal entre o terminal fluvial de
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Cacilhas e as estações de comboio da Fertagus de Pragal e Corroios. Ainda que com vários problemas associados, a circulação do metro contribuiu para a requalificação urbana de Almada, sobretudo em Cacilhas e na Praça São João Baptista, havendo lugar inclusive a algumas reconversões de uso habitacional para comércio ou serviços, como já acontecia desde o início do século XXI (Lopes, 2004), mas que aumentou em número após a implantação do metro de superfície.
3.2.2. Inauguração do Almada Fórum em 2002
O Almada Fórum está localizado junto do nó da Autoestrada do Sul com a via rápida da Caparica, a cerca de 5 minutos de automóvel do centro de Almada; foi inaugurado em setembro de 2002, e à data era o 2º maior centro comercial do país, sendo apenas ultrapassado pelo Colombo, inaugurado em 1997. Com quase 80 000 m2 de ABL, 230 lojas, mais de 5000 lugares de estacionamento gratuito (Quadro 12) e com uma localização que faz com que qualquer ponto da cidade de Almada fique dentro da isócrona dos 10 minutos, este centro comercial emerge como a grande concentração de comércio da cidade.
Quadro 12 – Ficha técnica do Almada Fórum
Localização Almada
Abertura 18 de setembro de 2002 Área Bruta Locável 78 815 m2
Nº de Lojas 230
Pisos comerciais 3
Pisos de estacionamento 2 Lugares de estacionamento 5 050
Fonte: Almada Fórum (2022b).
Tornou-se um grande polo de atração comercial para a população da margem sul (sobretudo Almada e Seixal), dado que dispunha de muitas das comodidades apresentadas cinco anos antes pelo centro comercial Colombo, com a vantagem de o estacionamento ser gratuito. A atenção ao pormenor e a decoração pretendem invocar dois temas distintos:
a natureza e a ciência, representados nas duas praças opostas.
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“Duas praças temáticas com decoração inovadora são outras propostas originais do Centro. A Praça da Natureza tem plantas naturais e uma queda de água sob uma grandiosa cúpula de vidro. Na Praça da Tecnologia, como o próprio nome indica, o tema é a tecnologia e a ciência. Com menos luz natural e mais orientada para o público jovem e urbano. A zona da Restauração foi inspirada numa antiga vila piscatória relembrando os antigos tempos de uma Almada Ribeirinha e das praias da vizinha Costa de Caparica.” (Almada Fórum, 2022b)
Este centro comercial organiza eventos no seu interior, como exposições e concertos, por exemplo. Atualmente estes realizam-se em menor número, mas ainda assim complementam a experiência do consumidor ao visitar este espaço.
Em 2016, o Almada Fórum muda de imagem, e o objetivo desta renovação encaixa no perfil de um centro comercial moderno e atento às mudanças registadas ao nível do comércio e dos padrões de consumo da população, transmitindo a ideia de que um centro é mais de que um espaço apenas de comércio, mas também um espaço de lazer, evidenciado nos centros comerciais que inauguraram em Portugal, sobretudo a partir de 1985, com o Amoreiras Shopping Center.
“O objetivo desta renovação é transmitir que o Almada Fórum é muito mais do que apenas polo de compras, mas sim um espaço onde desejos e tendências se misturam, numa experiência de lazer única. Com mais cor, dinamismo e energia, esta nova imagem, onde os padrões se misturam em forma de mandalas, representam o que cada visitante procura no centro, seja moda, presentes de última hora ou momentos de lazer e diversão. É o espelho do universo de cada um, do seu perfil de consumo e do que mais procura quando visita o centro comercial.” (Almada Fórum, 2022)
Como resultado da pandemia de Covid-19 o sistema Click & Collect evidenciado por muitas insígnias, alastra-se agora para o que parece vir a ser uma alteração permanente na forma como o comércio se pratica nos centros comerciais. No caso do Almada Fórum surge o Pick & Go, que funciona essencialmente da mesma forma ao fazer uma
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encomenda a uma loja aderente e agendar a data para recolha no estacionamento do centro (Almada Fórum, 2022a).
Com uma oferta de estacionamento gratuito superior a 5 mil lugares, torna-se imediatamente uma área comercial atrativa, dado que o centro de Almada apresenta graves problemas de estacionamento. Segundo dados obtidos através da Parkopedia (2022), na proximidade da área alvo de estudo localizam-se oito parques de estacionamento, com 561 lugares a descoberto e 1537 lugares cobertos e/ou subterrâneos, perfazendo um total de 2098 lugares com um preço médio por 2 horas de 1,98€, sendo que o parque mais barato custa 1€/2h e o mais caro 5€/2h. O contraste com o Almada Fórum é grande, em benefício deste centro comercial.
3.2.3. Crise económica de 2008
A crise financeira de 2008, que se veio a sentir em Portugal sobretudo a partir de 2010, contribuiu para um aumento do desemprego e a emigração de muitos portugueses para o estrangeiro, à procura de melhores condições de vida. A “desregulação financeira, derivados financeiros sobrevalorizados (apoiados pelas agências de 'rating'), créditos hipotecários de alto risco ('subprime') foram os ingredientes de uma crise que, segundo muitos economistas, tem as origens na crise de 2001 com o rebentar da bolha da Internet, que levou a FED (o banco central dos Estados Unidos) a adotar juros baixos e a incentivar investimentos no setor imobiliário” (Madremedia, 2018).
Quadro 13 – Desempregados inscritos nos centros de emprego e de formação profissional (2001-2011-2021)
2001 2011 Variação
2001-2011 2021 Variação 2011-2021 Portugal 324 300 605 134 +86,6% 347 959 -42,5%
AML 90 983 141 448 +55,5% 94 289 -33,3%
Almada 5 321 8 842 +66,2% 6 040 -31,7%
Fonte: Pordata (2022).
As atividades comerciais sentiram o impacto, sobretudo na compra de produtos considerados supérfluos, na medida em que a gestão financeira de muitas famílias se passou a restringir ao mínimo indispensável das necessidades. “Almada não ficou imune
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à crise económica que o país atravessou. O aumento do desemprego, com forte incidência na população jovem, o trabalho precário (1/4 dos trabalhadores estavam nesta situação), as deslocações de população para trabalhar em Lisboa e os salários abaixo da média nacional, marcam um concelho onde se acentuou o declínio do setor secundário e se assistiu ao reforço do setor terciário.” (SCMA, 2022:1-2). Foram anos complicados para a população em geral, o que contribuiu para o encerramento de estabelecimentos no centro de Almada, e a um “apagar” de praticamente toda a animação na cidade. Desde o impacto da crise, a Câmara Municipal de Almada (CMA) tem empreendido esforços para dinamizar o centro de Almada, através de iniciativas como o “Almada Centro” em 2010, em parceria com a Associação do Comércio, Indústria, Serviços e Turismo do Distrito de Setúbal (ACISTDS), que pretendia transformar o centro de Almada num centro comercial ao ar livre, mas o seu sucesso foi reduzido.
3.2.4. Pandemia de Covid-19
A pandemia de Covid-19, como já foi referido anteriormente, levou ao encerramento temporário ou permanente (no caso dos estabelecimentos que não conseguiram sobreviver ao longo período de quebra de vendas), de muitos espaços comerciais.
Em Almada, à semelhança do que se registou no país, as ruas ficaram desertas e silenciosas, e só alguns estabelecimentos se puderam manter abertos ao público, ou apenas com opção take-away. As filas encontradas às portas dos super e hipermercados marcavam as ruas e os centros comerciais encontravam-se vazios e de luzes apagadas, salvo exceções. “O número de veículos nas ruas e de aviões caiu a pique e, com isso, o ruído do trânsito, das buzinadelas, das sirenes das ambulâncias, e o stress. O silêncio ganhou espaço sobre o ruído. Cada dia pareceu domingo. As pessoas assomavam às janelas e varandas para contemplar a rua quase deserta.” (Barata-Salgueiro, 2020:114).
Com a pandemia veio também uma sensação de abrandamento, ainda que forçado, da vida. De repente as pequenas coisas ganharam importância, e foi possível assistir a uma valorização da proximidade. Inicialmente encarada como uma questão de segurança, para evitar grandes aglomerados nos super e hipermercados, e depois com “o aumento da apropriação do espaço público pelos residentes, para caminhadas, para estar com os filhos, para usar a bicicleta.” (Barata-Salgueiro, 2020:118). Após os confinamentos foi
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tempo de repensar a proximidade, e compreender que afinal existe algo de belo na mudança repentina. O que inicialmente causou preocupação pode trazer benefícios no longo prazo, como o tempo que se ganha, por comprar nas proximidades do lar, ou através do e-commerce, optando sempre que possível pelo comércio local, em qualquer lugar à distância de um clique.
Contudo, para que isto aconteça é preciso garantir que o comércio de proximidade se encontra aberto e que se mantém dinâmico e moderno, para atrair a população. Esta pode ser uma realidade complicada para alguns estabelecimentos em Almada, sobretudo aqueles cujos empresários, com idade mais avançada, sentem dificuldade em abraçar a modernidade, dado que não se sentem com capacidade para proceder a alterações, por vezes quase totais na sua forma de negócio. Isto faz com que “em muitos casos, estes empresários apenas (…)” consigam “(…) manter o cliente habitual (um segmento da população, a maioria idosa), que tem hábitos de compra arreigados. Estes empresários, esperam que seja a autarquia, sozinha, a (re)qualificar o espaço público e a revitalizar o centro.” (Lopes, 2004:78).
A Câmara Municipal de Almada (CMA) tem durante a última década estabelecido alguns apoios ao comércio local, para tentar manter vivo o centro de Almada, e ajudar os pequenos empresários a manterem os seus estabelecimentos de portas abertas. Isto tornou-se mais evidente a partir de 2020, com o impacto da pandemia de Covid-19, em que o município de Almada implementou o programa Dinamizar Almada, e em 2021 o programa Dinamizar Mais Almada, que serão abordados mais adiante aquando da estratégia de revitalização para o centro da cidade de Almada.