Subseção I: Dados de atributos do ego
Passo 9: Geração no software UCINET/NETDRAW dos grafos resultantes das análises realizadas.
4.1 Conectividade ou coesão da rede 1 Densidade
Os resultados demonstraram que os cuidadores de ambos os grupos tendem a apresentar
redes com altos índices de densidade, com médias e desvio padrão semelhantes (PC = 0,54 e
dp=0,22 e DT = 0,55 e dp=0,18). Entre as redes de cuidadores PC 50,0% apresentaram índices
igual ou maior a 0.500, já entre as de DT esse percentual foi de 60,0%, o que mostra que em
ambos os grupos se obtiveram índices compatíveis aqueles considerados índices de densidade
esperados em redes reais de acordo com Mayhew e Levinger (1976, como citado por Scott,
1991, 2000, p. 75). Redes densamente conectadas se apresentam favoráveis ao desenvolvimento
e disseminação do capital social (Aeby, Widmer & Carlo, 2014; Ávila-Toscano, Vega & Soto;
2011; Smith & Christakis, 2010). Redes com essas topologias são consideradas coesas e entre
as características positivas encontra-se a eficiência na troca de apoio social a seus membros e
sugerem que há uma forte interação entre os atores. Entretanto, podem, também, provocar uma
já que todos se conhecem e interagem mutuamente e podem apresentar pouca abertura ao
desenvolvimento de relações novas (Carvalho & Ribeiro, 2016).
Contudo, no que tange aos resultados apresentados sobre os baixos índices de densidade,
ressalta-se que, a maior frequência de redes com menor densidade foi encontrada no grupo de
cuidadores de crianças com paralisia cerebral, a saber, das 30 redes, 06 apresentaram densidade
inferior a 0.300, comparado ao outro grupo de cuidadores, onde somente 01 rede apresentou
índice menor a 0.300. As redes pessoais do grupo de cuidadores DT, por exemplo, são redes
compostas, predominantemente, por alters do grupo familiar (DT = 65,90 e dp=16,87 e PC =
56,4 e dp=16,41), o que pode explicar os elevados índices de densidade. Wellman (1979) ao
analisar a densidade das redes sociais, constatou que aquelas que apresentavam maior índice de
densidade eram as constituídas por relações de parentesco.
Em relação aos índices obtidos pelas redes de cuidadores PC, é possível que o número
maior de redes menos densas, tenha se dado pela “ecologia”criada pelos atendimentos, visto que os mesmos tendem a ter rotinas marcadas pela frequência em diferentes espaços de
atendimento institucional aos seus filhos, o que abre espaço para o desenvolvimento de novas
relações que extrapolam o ambiente e as relações familiares, em especial isto é fortemente
verificado pelo fato das pessoas que lhes prestam serviços de saúde acabem por se tornarem
significativas em suas redes pessoais.
Por outro lado, uma menor densidade pode não, necessariamente, indicar uma maior
diversidade de relações, mas a existência de relações menos estáveis e/ou superficiais
ocasionadas, sobretudo, pela sobrecarga de demandas acarretadas ao cuidador em decorrência
da deficiência de seus filhos, representar uma dificuldade de investimentos em relações mais
Esses dados mais gerais relativos às 60 redes, estão presentes nos participantes
selecionados como mais representativos de cada grupo, a partir da análise discriminante. Como
já descrito anteriormente, os dados serão aqui analisados em detalhes nos indivíduos Patrícia e
Claudia, ambas PCs, e, Maria e Lia, ambas DTs, como representativos dos perfis principais
encontrados em cada grupo.
Patrícia (PC) tem 27 anos, dois filhos, sendo um com paralisia cerebral com 05 anos,
sua situação conjugal configura-se em união estável, ao ser questionada sobre sua profissão
revelou ser do lar e estudante, já concluiu o Ensino Médio. Claudia tem 32 anos, dois filhos,
sendo uma com paralisia cerebral com 04 anos, casada, possui Superior Completo em Biologia,
mas, por não exercer a profissão, se considera estudante e do lar. Já Maria tem 32 anos, casada,
possui dois filhos, em termos ocupacionais se considera uma pessoa do lar e seu nível de
escolaridade é o Ensino Médio completo. Enquanto que Lia possui 28 anos, dois filhos, solteira,
do lar e concluiu o Ensino Fundamental. As figuras 41, 42, 43 e 44 consecutivas apresentam
as topologias das redes dos quatro cuidadores selecionados no que se refere à medida de densidade da rede.
Figura 41: Densidade (0.237) Rede Pessoal Patricia – PC Figura 42: Densidade (0.517) Rede Pessoal Claudia – PC
Como pôde ser verificado nas Figuras 41,42, 43 e 44, há diferença nos índices de densidade entre as redes dos dois grupos de cuidadores. Os índices obtidos nas redes PCs são inferiores aqueles alcançados pelas redes DTs. A densidade da rede pessoal da cuidadora Patrícia (PC) atingiu índice de 0.237 e da Cláudia (PC) foi de 0.517. Ao passo que das cuidadoras típicas Maria, foi: 0.763 e da Lia atingiu índice de 0.485. Nas redes das cuidadoras PCs, existem, respectivamente, 206 e 450 relações, o total possível de relações de uma rede de tamanho 30, como é o caso da pesquisa, é de 870 relações (29 x 30), desse modo, constata-se que se configuram em redes com baixos índices de densidade, já que, quanto menos relações desenvolvidas e mais próximo o índice se aproximar do valor 0.000, menos densa a rede é. Diferentemente das cuidadoras PCs, Maria e Lia (DTs), apresentaram nas topologias de suas redes (Figuras 43 e 44) altos índices de densidade, respectivamente,com 664 e 422 relações. Revela-se na rede de Maria, três alters que constituem uma tríade e que se relacionam com alguns membros externos à mesma. Além desta tríade, há um outro ator que se relaciona diretamente somente com mais três atores na rede, os demais membros (86,8%) mantém relações recíprocas entre si. E na rede de Lia, como 76,6% da rede é composta por relações do tipo familiar, esses dados acabam justificando, em parte, as densidades das mesmas.
Nas Figuras 41e 42 é possível verificar, ainda, a existência de subgrupos (clusters) onde os alters desenvolvem relações recíprocas, há também a presença de alguns alters que conectam esses clusters aos outros presentes na rede, demostrando, assim, que, um determinado número de membros da rede, não se conhece. Nota-se que os agrupamentos se dão, prioritariamente, pelos tipos de vínculos que a cuidadora desenvolve com seus membros de rede. Os membros que desenvolvem relações de parentesco, são os nós rosa, os que prestam serviços de saúde/educação ao cuidador e a seu filho PC (nós lilás), aqueles que fazem parte do seu grupo de amizade (nós verdes), entre os membros que são amigos, encontram-se, em uma das redes
PC, 16,7% de amigos que possuem filhos com paralisia cerebral (especificamente os nós verdes água) e os nós laranjas que são os vizinhos. Enquanto que nas Figuras 43 e 44 existem somente
dois tipos (família e amigos).
Observa-se, ainda, nas redes da Patrícia (PC) e da Claudia (PC) que os profissionais
passam a conviver não somente com o ego ou seu(sua) filho(a), mas com outros membros
também importantes nas redes pessoais, tanto é que eles não estão isolados, mas conectados a
outros atores importantes desse sistema. São atores que disseminam diversos tipos de apoio a
essas famílias e, acabam por incrementar a quantidade e qualidade do capital social difundido
na rede. Entre esses profissionais encontram-se, prioritariamente, da área da saúde e da
educação. Enfatiza-se que, ao serem apontados como membros da rede de um cuidador,
inclusive por ser um número relativamente pequeno com 30 alters, significa que esses
profissionais são atores muito significativos na vida dessas famílias. Neste sentido, sugere-se
pesquisas futuras na investigação das rotinas desses cuidadores para avaliação destas
suposições.
Outro dado extremamente significativo na rede de Patrícia é a presença de outras
cuidadoras de crianças com paralisia cerebral, o que pode demonstrar que a rede começa a se
estruturar, em parte, em torno da paralisia cerebral de seu filho, já que cinco dos seus doze
amigos citados também possuem filhos nessa condição. Esse comportamento da rede expressa
o princípio da Homofilia, que é o tipo de seleção social onde os membros de um sistema
escolhem ou mantém seus alters por compartilharem algumas características que são
importantes para eles, no caso aqui, ter sob seus cuidados uma criança com paralisia cerebral
(Lozares & Verd, 2011; McPherson, Smith-Lovin & Cook, 2001; Robins, 2015; Watts, 2009).
O que a Homoflia pode estar gerando de positivo a esses cuidadores? E o que ela traz
grupo, a possibilidade de troca de informações e conhecimento, a recepção ou a doação de apoio
social emocional, por exemplo, a alguém que vivencia experiências e demandas muito
semelhantes oriundas da condição dos seus filhos. A rede ganha em experiências, informações
e compreende que há diferenças e peculiaridades que se complementam (Meneses, 2007).
Destaca-se, ainda, que a variável “Tipo de vínculo prestador de serviços” foi uma das
principais variáveis que influenciou na diferenciação das topologias das redes pessoais dos dois
grupos de cuidadores, já que entre os cuidadores DT somente 0,2% dos alters foram citados
como atores significativos nas redes pessoais desse grupo, como se verifica na Figura 45.
Figura 45: Tipo de vínculo entre ego e alters por grupo de cuidador.
Fonte: Dados da pesquisa.
4.2 Subgrupos na rede