Fundação Calouste Gulbenkian
Vítor Ramalho – A UCCLA é a enti‑
dade promotora desta homenagem aos associados da CEI, para além da minha pessoa está aqui o senhor presidente da Comissão Executiva da UCCLA, o Dr. David Simango, presidente da Co‑ missão Municipal de Maputo. Tiveram , também, a gentileza de vir de propó‑ sito para esta cerimónia, o senhor Dr. Vítor Narciso, presidente da Câmara Municipal de Cazenga e o senhor pre‑ sidente da Câmara Municipal de Nam‑ pula. Chegará, também, hoje e estará entre nós na cerimónia que à tarde vai ter lugar, o Senhor General José Tava‑ res, presidente da Assembleia ‑Geral da UCCLA e da Comissão Administrativa da cidade de Luanda.
Mário Machungo – Interessei ‑me
pela CEI pelo seguinte: eu e outro co‑ lega, o Munguambe, fomos dos primei‑ ros estudantes de Moçambique a vir estudar para Portugal num avião Super‑ ‑Constellation, porque os que vieram antes de nós vieram de barco e levavam quase um mês a chegar. Nós viemos no Super ‑Constellation, um voo de cerca de vinte e quatro horas, mas apesar de tudo, viemos de avião. Chegados ao Aeroporto de Lourenço Marques, na al‑ tura, um dos agentes da Polícia Interna‑ cional de Defesa do Estado que estavam no aeroporto chama ‑nos para o gabi‑ nete e diz “Mário, tu vais para Portugal estudar” e eu respondi “Sim, tenho uma bolsa, vou estudar em Portugal”. Então ele disse ‑me “mas eu chamo a atenção para uma coisa, quando chegares lá vais ouvir falar de uma coisa chamada CEI,
foge deles, são uns comunistas, se vocês vão com eles, vão icar perdidos e não vão acabar os vossos estudos, de modo que, evita ‑os”.
Eu, que nem sabia o que era um comu‑ nista, cheguei a Lisboa cheio de curio‑ sidade, mas onde é que estão esses co‑ munistas tão terríveis? Depois, quando chegaram o Pascoal e o Chissano, ouvi‑ mos dizer que havia um movimento de contestação porque tinha sido imposta uma Comissão Administrativa à CEI e fomos lá assinar o abaixo ‑assinado. A partir daí, vimos que, ainal, a causa des‑ tes comunistas era uma causa justa, uma causa da nossa libertação.
Isto era só para fazer uma introdução e agradecer a oportunidade que nos deram para virmos aqui trocar expe‑ riências. Tudo o que vimos durante estes dias constitui um bom trabalho de testemunho, de educação das novas gerações e precisamos que isto seja feito não só em Portugal mas também nos nossos países, para que os mais novos iquem com um bom testemunho do que foi o passado e do que foi preciso para chegarmos onde estamos hoje. Muito obrigado.
Pascoal Mocumbi – Eu tinha sido
admitido como aluno de medicina, em Lisboa e já se sabia que em Angola havia alguma agitação, com uma manifesta‑ ção contra o Governo Português, em Luanda. Fiquei preocupado quando, dois dias depois de uma reunião na CEI, sou chamado [pela polícia] e me per‑
guntam “Mocumbi, você é estudante, acabado de chegar e está a entrar num barco que não conhece entrar?”. Res‑ pondi “bom, eu não sei por que estão a falar de barcos, estou no primeiro ano de medicina, quero é continuar e ter‑ minar os meus estudos”. Disse também que poderiam ir verificar as minhas notas, porque já tinha feito alguns exa‑ mes, e tinha icado satisfeito e os profes‑ sores também.
Logo nas primeiras semanas da minha estadia em Lisboa como estudante, procurei informar ‑me junto dos colegas que aqui estavam o que é que poderia aprender e como é que me devia com‑ portar em Lisboa. Portanto, quando soube que a CEI ia ser encerrada, perguntei ‑me como é que nós, que não eramos de cá, iríamos manter as rela‑ ções estabelecidas entre nós os cinco. Estou satisfeito de estar aqui convosco, é o que posso dizer em poucas palavras. Muito obrigado.
Fernando França Van ‑Dúnem
– Tendo feito o exame de aptidão à Universidade, inscrevi ‑me na Faculdade de Direito de Coimbra. Cheguei a Lis‑ boa por volta de 10/11 de novembro de 1957, passei aqui alguns dias e rumei a Coimbra. Eu já tinha tido ocasião de contactar elementos das antigas coló‑ nias, entre as quais o Vieira Lopes e o Videira, que estavam em Coimbra co‑ migo, mas em Lisboa tive oportunidade de me encontrar com muitos compa‑ nheiros das outras colónias portugue‑ sas.
A CEI, para nós, foi não só um lugar de convívio, mas também um local onde podíamos almoçar e jantar a preços módicos. Havia pessoas carismáticas mas, sobretudo, pudemos conhecer‑ ‑nos uns aos outros. Nós ouvíamos dizer que Portugal ia do Minho a Ti‑ mor, e encontrámos timorenses, são‑ ‑tomenses, toda uma plêiade de gente que acabou por fazer parte do nosso percurso.
Fiz parte do grupo de estudantes que chegaram a Portugal em 1957, mas houve um acontecimento que, de cer‑ to modo, reforçou a minha determina‑ ção de deixar o país. Estava eu no meu 4.º ano de Direito, já aqui em Lisboa, embora tenha começado em Coimbra, onde iz os primeiros três anos do cur‑ so e, no dia em que tinha acabado de fazer a prova oral de Direito da Família, uma cadeira do 4.º ano, foi ‑me dada uma ordem para apanhar o comboio e ir até ao Porto, onde alguém iria buscar‑ ‑me. Disseram ‑me que, se por acaso encontrasse alguém conhecido, izesse de conta que não conhecia. Apanhei um comboio rápido, um comboio que saía daqui por volta da 12 horas e ia até ao Porto. Por acaso, encontrei ‑me com alguns companheiros, mas iz de con‑ ta que não os conhecia. Quando che‑ gámos ao Porto, fomos recebidos por um grupo de pessoas, não vale a pena falar de nomes, mas eram americanos, alguns deles até estão cá e estão a feste‑ jar connosco essa nossa fuga.
Mas o que de facto determinou a mi‑ nha saída deste país, em 1961, foi o se‑ guinte: fomos informados de que Agos‑ tinho Neto iria passar por Lisboa, vinha num avião que o levaria a Cabo Verde, onde lhe tinha sido ixado o desterro. Eu estava em Coimbra e quando recebi a notícia vim até cá, juntei ‑me aos ou‑ tros companheiros de Lisboa, fomos ao Aeroporto da Portela de Sacavém, que
era como se chamava naquela altura e, do lado de fora, conseguimos ver o Agostinho Neto a sair de um avião para entrar noutro avião. Fizemos adeus, adeus, e isso preocupou um pouco a PIDE. Como eu ainda estava em Coimbra, depois daquela cerimó‑ nia voltei para Coimbra. Poucos dias depois, alguns de nós começaram a ser chamados.
Mas eu já tinha tido outro calafrio, porque, nas vésperas da Queima da Fitas de 1960, creio eu, apareceu lá por Coimbra um outro nacionalista, o Ilídio Machado, e como ele era tio dos meus primos direitos, passou todo o dia co‑ migo. Só sei dizer que depois de ter saí‑ do de Coimbra, ele passou por Lisboa de regresso a Luanda e foi preso. En‑ tão eu pensei “não há hipótese de nós continuarmos aqui”. Foi por isso que acatei aquela diretiva de que vos falei. Apanhámos o tal comboio até ao Por‑ to e lá veríamos o que se passava. Na realidade, fomos bem recebidos, mas o que determinou efetivamente a minha fuga foi, não só o facto da passagem de Agostinho Neto, mas também o facto de vivermos em Angola.
O meu pai sempre foi presidente ou Membro da Direção da Liga Nacional Africana. E nós, por arrasto, tínhamos o hábito de homenagear todos os africa‑ nos que, por uma razão ou outra, tives‑ sem saído daquela situação, se assim se pode dizer. Isso despertou em mim algo de nacionalista, até porque o meu pai sempre foi, como eu disse, dirigente da Liga Nacional Africana e eu cresci nesse ambiente. Eu pertenço a duas famílias, Vieira Dias e Van ‑Dúnem, sou primo direito do Rui Mingas. Portanto, esse bi‑ chinho do nacionalismo já vivia comigo. Depois de termos saído de Portugal, fomos presos em Espanha, eu e os meus companheiros. Por im, conseguimos
sair e fazer o trajeto que todos nós sa‑ bemos qual foi. Muito obrigado.
Pedro Pires – Aproveito para sau‑
dar a presença do Presidente Dr. Jorge Sampaio, que está aqui connosco, nesta data de celebração da memória da CEI, e para saudar os meus companheiros de mesa, o Fernando França Van ‑Dúnem, o Mário Machungo, o Pascoal Mo‑ cumbi, meus companheiros da saga de libertação dos nossos países.
Aproveito também para saudar os meus companheiros que estão aí à frente, que fazem parte do grupo de pessoas que se interessaram, que se envolveram, nas lutas de libertação nacional. E os mais jovens, claro, tam‑ bém os saúdo pela sua presença e pelo seu interesse por esse facto, que são as roturas que tiveram lugar com a CEI, e toda a luta e o nosso combate de liber‑ tação. Por im, saúdo os nossos amigos americanos, foram nossos companhei‑ ros na fuga de que falou o França Van‑ ‑Dúnem e que aconteceu há 54 anos. E manifesto aqui o meu reconhecimento, a minha satisfação, pela realização des‑ ta celebração da CEI.
Cada um de nós tem uma vivência, uma experiência. Eu vim de Cabo Ver‑ de, e os meus primeiros contatos foram com os membros da comunidade cabo‑ ‑verdiana, só posteriormente é que tive contacto com a CEI. Eu, na altura, fazia o serviço militar obrigatório, era aspirante a oicial miliciano, com outros compa‑ nheiros, e com eles decidi passar a fre‑ quentar a CEI. Para um cabo ‑verdiano, a CEI era o sítio onde estavam os re‑ presentantes de todas as ex ‑colónias, e foi a oportunidade de me relacionar com jovens, com estudantes das anti‑ gas colónias: Angola, Guiné, Moçambi‑ que e São Tomé e Príncipe. Com eles pude debater e tomar pulso à situação prevalecente nos nossos países. Esse
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50 anos | TEsTEmunhos, vIvênCIas, doCumEnTos
contacto e esse tempo foi também uma altura de aprendizagem, aprendi muito com os outros sobre a situação nos nossos respetivos países. A CEI foi, também, a possibilidade de reforçar a minha própria consciência anticolo‑ nialista. Foi um espaço de convívio, de consciencialização e, ao mesmo tem‑ po, de criação de relações políticas, de solidariedade, de cumplicidades, e do reforço dos nossos ideais. Por isso, digo aqui que a frequência da CEI, o convívio com os outros jovens, foram de grande importância para mim e, depois, para a decisão que tomei.
Devemos ter em conta que, em 1961, começou a luta armada de libertação de Angola, foi um grande choque para todos nós e um fator de consciencia‑ lização da necessidade da nossa inter‑ venção mais direta nesse processo de libertação.
A CEI desempenhou esse papel de agre‑ gação da juventude estudantil, especial‑ mente de Angola, Cabo Verde, Guiné, Moçambique, São Tomé. Juntou ‑nos e permitiu que, juntos, concebêssemos e sonhássemos futuros. A nossa pre‑ sença na CEI, o convívio com os nossos contemporâneos das diversas colónias permitiu, mais do que isso, que estabe‑ lecessemos entre nós relações de solida‑ riedade e de amizade que mantemos até hoje. Somos muito amigos uns dos ou‑ tros, precisamente por isso, porque cons‑ truímos essas relações na CEI. Mais tarde tivemos algumas aventuras em comum, izemos um percurso comum e hoje mantemos essas relações e espero que as próximas gerações façam o mesmo. Quero mencionar de novo a presença do Senhor Presidente Dr. Jorge Sam‑ paio, que nos honra muito e que é a prova de que a luta foi comum e solidá‑ ria e deu frutos de que todos nós bene‑ iciamos hoje. O Portugal democrático
e as nossas independências são alguns desses frutos.
Reitero novamente o meu reconheci‑ mento pela iniciativa da UCCLA e de outras instituições que a apoiaram. Que‑ ro agradecer ao Senhor Secretário ‑Geral da UCCLA pelo seu convite, pelo empe‑ nho e esforço que fez para que estes atos de comemoração, que se prolongaram por quase um ano, se realizassem. Por fim, hoje, 25 de maio, o Dia de África, devemos saudar e evocar esta data e convidar todos os africanos para que continuemos a luta, como dizem os angolanos. Sabemos que há situa‑ ções boas e outras menos boas e ou‑ tras ainda muito complicadas que têm que ser resolvidas e isso só se fará com a intervenção empenhada e consciente de todos, para que o Dia de África do próximo ano, 2017, seja melhor do que este. E assim saúdo o dia e os ganhos que este dia representa. Obrigado pela vossa atenção.
Jorge Sampaio – Em Portugal já não
se usa muito, ou mesmo nada, a desig‑ nação de Presidente Jorge Sampaio, sou o vosso amigo de longa data.
Começo por uma parte mais divertida que ninguém mencionou, as extraordi‑ nárias sessões musicais e bailes que se realizavam na CEI. Aqueles jovens, aque‑ les colegas, trouxeram a sua música e as suas sessões culturais que nós, alunos da Universidade, frequentávamos com interesse e curiosidade. E as jovens afri‑ canas, e eles também, dançavam muito bem. Eu, que sempre fui um desastre em termos de dança, icava a olhar e a pensar como se pode dançar assim e, portanto, aquelas manifestações cultu‑ rais foram também marcantes.
Mas passaram 50 anos desde que a CEI foi extinta. É interessante relembrar que
ela foi criada pelo regime anterior com o propósito de enquadrar aqueles es‑ tudantes, na verdade, para saber o que é que eles andavam a fazer. E como é que aquela instituição foi ganhando raízes. Fez intercâmbios vários, com os quais os portugueses interessados na descolonização, ou no que poderia ser a descolonização, também se interes‑ saram. Eu, que fui dirigente associativo, iz essa aprendizagem por cá, nos anos 60, 59, 61, 62. Tínhamos uma ligação muito profunda com aqueles estudan‑ tes, sobretudo até à grande fuga de 1961. Há uma fotograia minha, com 22 anos, hoje tenho 75, a jogar pingue‑ ‑pongue com o meu querido amigo Paulo Jorge, um político, um homem sério, profundamente enraizado na luta de libertação. Essa fotograia apareceu no Canadá, pela mão de um pediatra de origem angolana que ali estava e de‑ pois [de me chegar às mãos] iz circular a fotograia por todo o mundo. E, por consequência, a CEI fez parte da nossa vida, até à sua extinção, mais ou menos inevitável, em 1965. Durou algum tem‑ po, uma coisa surpreendente, depois desse desaparecimento massivo em 1961, lembro ‑me perfeitamente que as pessoas desapareceram. Tenho vários amigos que saíram nessa altura. Deixá‑ mos de saber onde é que eles estavam, e só mais tarde viemos a encontrá ‑los. E o que é interessante veriicar, já foi aqui apontado, é que, Portugal fez a mudança de regime ditatorial com o 25 de Abril de 1974, uma espécie de descolonização interna, de uma via autoritária para um princípio de um golpe militar que se transformou em Revolução e depois em Democracia, ao mesmo tempo que se fazia a descoloni‑ zação, com tudo o que isso signiicava. Em vários desses momentos, como Secretário de Estado da Cooperação, convivi com o Primeiro ‑Ministro no go‑
verno de transição de Moçambique, Dr. Joaquim Chissano, mais tarde estive com ele, ambos como Presidentes da Repú‑ blica. Estive com o Dr. Mário Machungo como Chefe da Delegação de Moçam‑ bique nas negociações de Cabora ‑Bassa com Portugal, na 4.ª fase, e foi uma ne‑ gociação difícil, porque nós não tínha‑ mos a coragem que teve mais tarde um Primeiro ‑Ministro, o Dr. Sá Carneiro, que disse “não há contencioso com Moçam‑ bique”. É preciso dizer estas coisas, por‑ que foi assim que aconteceu.
E estive com o Senhor Primeiro‑ ‑Ministro Mocumbi, como Ministro de Negócios Estrangeiros, bem como com o Dr. Van ‑Dúnem, e com vários Van ‑Duném, esta família está em toda a parte. Mas queria deixar uma palavra especial ao meu querido Presidente Pedro Pires, com quem tenho estado porque ele faz parte do júri do Prémio Gulbenkian, como eu. Estive em Cabo Verde, como Primeiro ‑Ministro e como Presidente da República. A minha pri‑ meira viagem, primeira mesmo, como Presidente da República, foi a Cabo Verde, com o antecessor do Coman‑ dante Pedro Pires e, mais tarde, com o Presidente Pedro Pires, que fez questão de me acompanhar na visita às ilhas de Cabo Verde, uma visita inesquecível. Há duas coisas que é preciso assinalar. Em primeiro lugar, a circunstância de o Eng.º Abecasis, a quem eu tive o gos‑ to de suceder na Câmara de Lisboa, ter tido a visão de que era preciso criar a UCCLA, e a verdade é que a UCCLA existe e resiste. E os primeiros não afri‑ canos a perceber que a UCCLA poderia ter interesse, curiosamente, foi a cidade de Macau. Esse assunto passou ‑se co‑ migo, izemos as diligências necessárias, a resposta foi positiva e Macau aderiu à UCCLA. Estivemos juntos em vários momentos, o Eng.º Abecasis e eu. E é verdade e muito importante dizer que,
mesmo quando estivemos em lados diferentes, cada um assumindo o seu ponto de vista, tínhamos alguma coisa em comum.
E essa alguma coisa em comum é difícil de se explicar, mas tem de ser explica‑ do, porque no fundo, convergíamos no que era essencial: é que nem a coloniza‑ ção, nem a guerra, poderiam continuar. Hoje, temos a CPLP, e eu tive a sorte de poder estar no seu ato fundador em 1996. Há muitas coisas que estão em curso que as pessoas não conhecem, mas a CPLP desempenha um papel que pode ser ainda mais importante. Sabemos, claro, que cada país tem a sua estratégia regional, senão mesmo a sua estratégia mundial. Mas há uma coisa que é de extrema importância, é que izemos percursos comuns e paralelos e temos um instrumento comum, a língua, com a sua forma maneira plural de se exprimir. Por isso, quando, nas Na‑ ções Unidas, os países da CPLP se reú‑ nem em posições comuns, isso faz ‑se sentir. E é importante que se faça sen‑ tir, independentemente das inserções regionais de cada país, sem complexos pelo facto de os caminhos serem dife‑ rentes. De alguma maneira, a CPLP é uma espécie de comissão de verdade e de reconciliação, que se congratula pela paz existir e pelas ações de coo‑ peração. E nós esperamos que exerça a sua inluência nesta vida internacional tão complexa, tão cheia de problemas. Eu nunca estive em África antes do 25 de Abril, mas não esqueço o sofrimento provocado por uma guerra, não deve‑ mos esquecer o que aconteceu, e não podemos esquecer que a paz foi feita. A CPLP tem uma função positiva e devo agradecer ao nosso grande amigo, o Secretário ‑Geral da UCCLA, a celebra‑ ção deste aniversário, destas coincidên‑ cias. Eu visitei a sede da União Africana, percebi que existe uma atenção nova
para estes problemas tão complicados e exigentes, que estão em toda a parte, na Europa também, para não falar no Médio Oriente e noutros locais. Fomos capazes de, por entre tantos caminhos, tantas vicissitudes, estar jun‑ tos nestas celebrações e mostrar que é possível suplantar os traumas do pas‑ sado, porque houve vítimas em todas as frentes, houve muito sofrimento, de uns e de outros mas, não esquecendo, soubemos superar isso para estarmos aqui hoje. Os dias de hoje e do futuro vão exigir, a nós e aos que cá icarem, que levantemos este sinal de esperança e, embora seguindo os nossos destinos próprios, muitas coisas podemos fazer em comum e esta celebração inscreve‑ ‑se nessa esperança. Felicito todos os que a tornaram possível, todos os que aqui vieram, alguns deles de bastante longe.
Estamos todos mais velhos, já vários i‑ caram pelo caminho, mas eu olho para vós e digo que estamos todos cheios de sorte. Recordo tantos momentos, como o acordo de Cabora Bassa, ou Canora Bassa, dias emocionantes e ter‑ ríveis. Eu estive na primeira reunião em que uma delegação da África do Sul veio ao Songo para discutir a questão. Vou ‑vos contar um pequeno segredo. Eu tive um amigo, grande historiador inglês, Keith Middlemas, que fez um extraordinário livro sobre Cabora Bassa. Tinha estado na Tanzânia a entrevistar a FRELIMO, em Portugal a entrevistar a administração Caetano, e todos aque‑ les que tiveram alguma coisa a ver com isso e também tinha falado com os sul‑ ‑africanos. Tive acesso ao livro porque