• Nenhum resultado encontrado

Conflito pelas flautas sagradas e empoderamento das Iamaricumãs

No documento mito, imaginário e mito-poética amazônica (páginas 168-171)

O mito das Iamaricumãs e a história de Yurupari estão ligados entre si e inte-gram importantes narrativas do Rio Negro do Xingu. Em torno dessa mitologia, as flautas sagradas são o principal símbolo de disputa pelo poder entre homens e mulheres xinguanas. Isso não era apenas um objeto de disputa, mas um símbolo que representava o poder dentro da aldeia, poder de transmissão da cultura para

as futuras gerações.

A paxiúba é o corpo de Yurupari, é para o Sol fazer flautas especiais. A paxiúba sobe até a casa do Universo. Sol corta o tronco da paxiúba. Sol fabrica flautas de vários tamanhos. Sol guarda as flautas dentro d’Água e volta para casa.

Sol manda seu filho ao porto, bem cedo, banhar-se e pegar as flautas. As mu-lheres ouvem as orientações de Sol. O filho de Sol não consegue acordar-se cedo. As mulheres vão antes dele ao porto. As mulheres encontram as Flau-tas. As mulheres aprendem a tocar as flauFlau-tas. As mulheres tomam as flautas para elas. (MELLO, 2013, p. 219)

As mulheres tomam, então, as flautas para elas corajosamente e aprendem a tocá-las, e, por um tempo, ficam com o domínio das flautas, até que os homens, inconformados por esse poder estar com elas, perseguem-nas até que elas per-cam as flautas sagradas, para eles tomarem de volta o poder que acreditam que sempre esteve destinado a eles, e que deles é de direito.

Os homens se revoltam contra as mulheres: eles querem as Flautas. As mu-lheres começam a andar pelo mundo. As mumu-lheres vão encontrando tudo o que precisam para as cerimonias. As mulheres aprendem os benzimentos e as rezas. As mulheres fazem uma casa de Iniciação para elas e passam a pre-sidir as cerimonias. Os homens passam a perseguir as mulheres para tomar as flautas de volta. Os homens descobrem a casa das mulheres e planejam um ataque. Os homens vencem, conseguem tomar de volta as flautas e re-conquistam o conhecimento tradicional. Os homens dispersam/banem as mulheres para o mundo. (MELLO, 2013, p. 219)

Quando nos deparamos com mitos como o das Iamaricumãs, podemos enten-der a importância dessa narrativa, que retrata a luta dessas guerreiras em busca do direito ao poder de transmitir o conhecimento cultural do seu povo, uma forma de resistência que desafiava a ordem natural, já que as flautas sagradas foram destinadas por Yurupari para os homens. Duas narrativas apresentadas por Mello (2013) e, em ambas, as mulheres xinguanas se tornam protagonistas da sua his-tória, quando elas não aceitam a ordem natural das coisas em que vivem, e

desa-fiam os homens, lutam, resistem e mudam o rumo das suas histórias. Mesmo as Iamaricumãs tendo perdido a batalha, a disputa pelas flautas sagradas tem um papel fundamental para as mulheres nas aldeias indígenas, onde quase sempre se tem uma liderança masculina. Essas guerreiras lutam pela independência e pelo direito de poder decidir, e ser o que quiserem, não se conformando com a opressão masculina. Independente dos detalhes entre as várias versões que são contadas do mesmo mito das Iamaricumãs, o que se destaca é o empoderamento feminino presente nessa narrativa.

A constância do dualismo natureza/cultura e seus efeitos na concepção do corpo feminino são dissociados de interpretações das relações mulher/natu-reza, as quais ocupam um lugar central na imaginação da cultura ocidental.

Na mitologia, nas artes visuais, nas doutrinas religiosas, nos tratados filosó-ficos, nas ciências médicas e sociais, na psicanálise, na literatura e nos meios midiáticos, o corpo feminino é sacralizado pela sua capacidade gerativa, exal-tado pela beleza, repudiado pela impureza, erotizado pelo olhar masculino, controlado pelo aparato estatal, e explorado e aviltado pela violência de dis-cursos e práticas que se disseminam no campo social. Tudo o que sabemos sobre o corpo feminino, no passado e presente, existe na forma de represen-tações e discursos, que são efeitos de mediações, nunca inocentes e nunca isentos de interpretações. Isso quer dizer que o significado cultural do corpo feminino não se reduz à referencialidade de um ser empírico de carne e osso, mas constitui um constructo simbólico, produzido e reproduzido na cultura e na sociedade ocidental ao longo dos tempos. (SCHMIDT, 2012, p. 234)

A história das mulheres que vem sendo construída socialmente retrata, por séculos, que às mulheres, independentemente de etnias ou cultura em que es-tão inseridas, por vezes, tem sido destinada a servidão em diversas civilizações, em que estão sujeitas à submissão de alguém; em que elas não têm voz ou vez;

em que elas não podem ser protagonistas, não podem liderar; em que sua única função é tomar conta do lar, dos filhos, do marido; uma servidão sem fim, em que seus corpos têm uma função na imaginação da cultura ocidental.

As diversas correntes do pensamento feminista afirmam a existência da bordinação feminina, mas questionam o suposto caráter natural dessa su-bordinação. Elas sustentam, ao contrário, que essa subordinação é decorren-te das maneiras como a mulher é construída socialmendecorren-te. Isto é fundamental, pois a ideia subjacente é a de que o que é construído pode ser modificado.

Portanto, alterando as maneiras como as mulheres são percebidas seria pos-sível mudar o espaço social por elas ocupado. (PISCISTELLI, 2001, p. 2)

Uma mulher no poder assusta o domínio dos homens; talvez isso explique o fato de que estes quase sempre tentam inferiorizar, de alguma forma, as mulhe-res na história, em busca de reafirmar sua masculinidade, como se esta fosse possível apenas com a submissão feminina.

No documento mito, imaginário e mito-poética amazônica (páginas 168-171)