CAPÍTULO 2 FÉ, FAMÍLIA, TRABALHO E MÍDIA
2.1 O desembarque da internet
2.1.1 Conflito tecnológico
O programa jornalístico dominical da televisão brasileira Globo, “Fantástico”, em sua edição de 2 de maio de 2010, ao visitar a capital japonesa Tóquio, deu uma boa dimensão do que representa essa conexão entre internet e circulação de informação. E convém sublinhar que essa modernidade recai fundamentalmente sobre os jovens do país.
Hoje, no Japão, é extremamente comum se deparar com a cena - um jovem nipônico lançar mão de seu celular e parar defronte a alguma loja de jogos eletrônicos, (http://www.youtube.com/watch?v=BzwcUK-bnyY), e, normalmente, ficar ali por horas. A ideia nesse comportamento é estar sempre próximo das novidades, algo sensível ao cidadão do país, e ter a possibilidade de comprar rapidamente jogos, aplicativos e tudo mais pelo telefone celular (http://www.youtube.com/
watch?v=BzwcUK-bnyY).
A entrada do celular no jogo da informação e do entretenimento funciona
mimeticamente (CAILLOIS, 1990) como se fosse uma extensão da televisão no imaginário do japonês, seduzido que é pela imagem. Mas notadamente há novamente aqui o movimento pró-ativo de apropriação, deglutição e minimização, cf.
tópicos “Masukomi” e “Terebi”, que dialoga inclusive com o próprio formato do celular, infinitamente menor que o televisor. Outro ponto que vale estabelecer diálogo nesse aspecto é com o comportamento social nipônico da década de 50 do século passado, quando o trabalho era uma extensão de sua casa (CLARK, 1979).
Fica evidenciado, quão enraizado é esse diálogo entre o período Tokugawa13
e o desenvolvimento do país após o fim do conflito mundial. São fontes de valores, alguns inconscientes, de toda estruturação social, política, econômica, midiática e legal da nação, conforme pontua essa dissertação.
Muito embora seja praticamente inquestionável a penetração dos celulares e suas imbricações para com o conteúdo de informação e entretenimento, é bom notar que as publicações editoriais, livros, por exemplo, ainda não morreram no país (cf.
http://web-japan.org e http://www.br.emb-japan.go.jp/cultura/comunicacao.htm). Apesar de ser bem verdade que com o advento tecnológico, uma boa parcela
principalmente dos jovens já não os adquirem no formato impresso (cf. reportagem
do Fantástico no http://www.youtube.com/watch?v=BzwcUK-bnyY).
Para ler um dos romances mais comentados em Tóquio recentemente, tudo que você precisava era de um telefone celular. [...] As pessoas passam tempo demais no transporte. E muita gente usa o telefone para surfar na internet e como hoje no Japão os jovens quase já não compram livros, os autores tiveram que se adaptar. E assim surgiu essa moda de publicar e ler romances pelo celular (http://www.youtube.com/watch?v=BzwcUK-bnyY : 6 minutos e 11 segundos).
O jovem do país (cf. http://web-japan.org e http://www.br.emb-japan.go.jp/
cultura/comunicacao.htm) lê cada vez menos livros no seu formato impresso. E muito em função das inovações tecnológicas.
É estimado que os usuários de internet no Japão totalizassem 90,91 milhões e a penetração do serviço alcançasse índice de 75,3%, segundo números de 200834 (http://web-japan.org).
e
Ainda que seja muito pequeno em termos absolutos, o mercado de livro eletrônico está crescendo rapidamente. Um número de serviços oferece livros eletrônicos formatados para computadores pessoais [...], e em 2003 um novo serviço foi introduzido e passou a distribuir o gênero de ficção e outros para leitura em celulares35 (http://web-japan.org).
Apesar dessa constatação de penetração da internet e das novas ferramentas disponíveis, como do livro digital, no país, também é verdadeiro afirmar que uma montanha de publicações ainda é editada todos os anos no Japão. As editoras japonesas publicam anualmente em torno de 77 mil títulos de livros, totalizando mais de um bilhão de exemplares (cf. http://web-japan.org).
Afirma-se com frequência, e não apenas no Japão, que os jovens de hoje não lêem livros. É certo que atualmente os jovens lêem menos livros do que nos dias em que não existia a televisão, nem fones estéreos de ouvido, nem incontáveis histórias em quadrinhos. O fato é que há hoje tantas coisas que disputam o interesse do jovem. Mesmo assim, uma verdadeira montanha de publicações é editada todos os anos no Japão. As editoras japonesas publicam anualmente em torno de 40.000 títulos de livros, num total de cerca de 1,3 bilhões de exemplares. [...] Uma característica interessante dessas revistas é que cerca de uma centena de novas publicações é lançada a cada ano, em sua maioria destinada ao público feminino (http://www.br.emb- japan.go.jp/cultura/comunicacao.htm).
34 It is estimated that internet users numbered 90.91 million and the internet penetration rate was
75,3% in 2008. (http://web-japan.org)
35 Although still very small in absolute terms, the electronic book market is growing rapidly. A number
of services offer electronic books formatted for reading on personal computers […], and in 2003 a new service was introduced that distributes fiction and other electronic books for reading on cellular telephones. (http://web-japan.org)
O curioso é notar que a diversificação é enorme nesse arsenal de publicações e, no que diz respeito ao conteúdo, os títulos de maior tiragem pertencem à área de Ciências Sociais, sendo algo próximo dos 25%. Já os de literatura ficam em segundo lugar, com 20%. E nessa conta, cabe sublinhar, não se inclui a gigantesca tiragem de jornais e revistas, que além de reunirem mais de três mil títulos, somam entre quatro e seis bilhões de exemplares (cf. http://web-japan.org e http://www.br.emb-
japan.go.jp/cultura/comunicacao.htm).
A compra, quando se dava majoritariamente no formato impresso, tinha como veículo de aquisição principalmente dois formatos, a saber: os de tamanho tradicional e os de bolso. Juntos, no fim dos anos 90 do século passado e no início desse século, perfaziam aproximadamente 20% do total de títulos publicados e cerca de metade das tiragens (cf. http://www.br.emb-japan.go.jp/cultura/
comunicacao.htm).
A despeito do conteúdo, os livros de bolso tinham ampla variedade de estilos e, normalmente, era possível encontrar, nesse formato, desde os clássicos japoneses e estrangeiros às obras comuns de ficção (cf. http://web-japan.org e
http://www.br.emb-japan.go.jp/cultura/comunicacao.htm). Sendo essas últimas, destinadas principalmente ao público feminino adolescente, ao passo que os livros comuns em brochura tendiam a tratar de uma variedade de assuntos cotidianos (cf.
http://web-japan.org e http://www.br.emb-japan.go.jp/cultura/comunicacao.htm). No entanto, foi com a chegada das primeiras inovações tecnológicas, como essa dissertação já pontuou neste tópico, que a indústria editorial acusou o golpe e, vale ressaltar, que neste momento não havia internet em jogo. De posse de um cenário nada favorável, a indústria editorial tratou de se atualizar de alguma forma e passou a incorporar, de algum modo, a tecnologia, num movimento combinatório, próprio às mesclas, cf. tópico “Produto de mídia mesclado”. Foi assim, então, que a indústria decidiu lançar fitas cassetes com as gravações de romances clássicos e as adaptações de livros ao vídeo, conhecidos também como “videobooks” ou
“videomagazines” (cf. http://www.br.emb-japan.go.jp/cultura/comunicacao.htm). Na
prática, esses produtos representavam parte da reação estratégica da indústria editorial diante do crescente número de integrantes de uma geração inteiramente familiarizada com equipamentos audiovisuais. Mas essa ofensiva duraria pouco, uma vez que já nascia no país uma tecnologia superior, que permitia estabelecer
conexão entre compact discs (CDs) e memória externa de computador. Sistema, inclusive, também capaz de emitir som (cf. http://www.br.emb-japan.go.jp/cultura/
comunicacao.htm).