3 A (DES)CONSTRUÇÃO DA SEXUALIDADE, O DISCURSO DA BELEZA E AS
3.1 SEXUALIDADE E COSTUMES
3.1.2 Conflitos e relações de poder
No século XIX, estudos e discursos sobre o sexo levaram ao desenvolvimento de vários contextos de poder e de conhecimento. A sexualidade feminina foi reconhecida e imediatamente reprimida – tratada como a origem patológica da histeria (GIDDENS, 1992). Do ponto de vista clínico, chama a atenção a associação da frigidez feminina com uma série de manifestações psíquicas. A “histeria” é quase equiparada com a frigidez por alguns autores, entre os quais estão Freud e Reich (SONENREICH e BASSIT, 1980).
Durante toda a infância foi a menina reprimida e mutilada. A adolescência era marcada pela espera do “príncipe encantado”; ela sempre esteve convencida da superioridade viril. Esse prestígio dos homens não é uma miragem pueril, tem bases econômicas e sociais; eles são indiscutivelmente os senhores do mundo, e tudo persuade a adolescente de que é de seu interesse tornar-se vassala. (BEAUVOIR, 1980).
Já a sexualidade masculina é pouco referenciada em toda a volumosa literatura sobre sexo e sexualidade existente. Um dos motivos é que ela era considerada “sem problemas” no contexto das circunstâncias sociais “separadas e desiguais”, até bem pouco tempo. Sua natureza e complexidades eram ocultadas por uma variedade de indulgências sociais que atualmente já foram ou estão sendo destruídas: o domínio do homem na esfera pública; o padrão de moral duplo; a divisão das mulheres em puras e impuras; a compreensão da diferença sexual proporcionada pelos costumes e pela biologia; a transformação das mulheres em problemas (obtusas ou irracionais); a divisão sexual do trabalho. A natureza frágil da sexualidade masculina nas circunstâncias sociais modernas está bem documentada nos estudos de casos (GIDDENS, 1992).
Monteiro (2000) chama a atenção para o deslocamento nas representações masculinas provocado pelas lutas políticas e culturais da segunda metade do século XX, quando os movimentos feministas e gays passaram a reivindicar maior equanimidade nas relações de gênero. Esses fatos impuseram sucessivas rupturas dos tradicionais perfis sexuais como os
únicos aceitáveis, acarretando a discussão de temas como a crise da masculinidade, novo homem, novos papéis para o homem na família e mudanças nos relacionamentos entre homem e mulher.
Ainda assim, as relações de poder que se estabelecem no contexto sexual evidenciam a desvantagem feminina dentro e fora do casamento. No matrimônio, o sexo devia ser responsável e autocontrolado, mas ordenado de modos distintos e específicos para o homem e a mulher. Citado por Giddens (1992), Foucault demonstra que a tentativa de manter sob controle a atividade sexual feminina é claramente demonstrada na literatura da época moderna. Era uma fonte de preocupação, necessitando de soluções; as mulheres que almejavam prazer sexual eram definitivamente anormais. Segundo as palavras de um especialista médico, o que é a condição habitual do homem (excitação sexual) é a exceção nas mulheres.
Os ideais do amor romântico afetaram mais as aspirações das mulheres que as dos homens, embora eles também fossem influenciados. O ethos do amor romântico teve um impacto duplo sobre a situação das mulheres; por um lado, ajudou a colocá-las “em seu lugar” – o lar; e, por outro, pode ser encarado como um compromisso radical com o machismo da sociedade moderna. Os sonhos do amor romântico conduziram as mulheres a uma severa sujeição doméstica. Mas são ideias que tendem cada vez mais a fragmentar-se, sob a pressão da emancipação e da autonomia sexual feminina (IBID, 1992).
As transformações atuais são dramáticas e perturbadoras, sobretudo para as mulheres, na opinião de Giddens (1992). É difícil para elas enfrentar as mudanças que ajudaram a produzir, pois há todo um sistema de regulação sexual preexistente. Até algumas décadas atrás, o sexo não era amplamente representado, analisado e discutido. E tal confinamento do tema as afetava muito mais. Muitas casavam sem qualquer conhecimento sobre o assunto, exceto o de que ele estava relacionado aos impulsos indesejáveis dos homens e tinha de ser
suportado. Esse autor considera que não só os grupos feministas, mas as mulheres comuns, que tratam das suas vidas cotidianas, foram pioneiras em mudanças de grande amplitude.
O filósofo italiano Norberto Bobbio compartilha dessa opinião, para quem a revolução das mulheres foi a mais importante revolução do século XX. Citado por Lygia Fagundes Telles (2011), a autora explica que o comentário de Bobbio não diz respeito à chamada revolução feminista, “com seus acertos e desacertos, agressões e digressões demagógicas”. A referência é a uma revolução mais paciente e profunda, deflagrada de forma mais visível no final do século XIX, para desenvolver-se plenamente durante a segunda grande guerra, quando as mulheres, com desenvoltura, se espraiaram nas mais diversas atividades, antes dominadas quase exclusivamente pelos homens; um caminho que não teve volta.
As sociedades modernas têm uma história emocional secreta, mas prestes a ser revelada. É uma história das buscas sexuais dos homens, mantidas separadas de suas identidades públicas. Um fato chama a atenção: à medida que começa a falhar o controle sexual dos homens sobre as mulheres, cresce o fluxo de violência masculina contra elas. No momento, abriu-se um abismo emocional entre os sexos, e não se pode dizer com certeza quanto tempo ele levará a ser transposto (GIDDENS, 1992). Priore (DUARTE, R., 2011) reforça esse entendimento, ao comentar que a autoestima masculina está tão baixa que eles passaram a usar o artifício da dor de cabeça para não ter relações sexuais.
Discussões sobre relações mais igualitárias começam a aparecer quando a mulher passa a ganhar o próprio dinheiro e tem mais controle da sua sexualidade. É consenso entre autores que hoje se espera muito mais sexualmente do casamento, tanto da parte das mulheres quanto dos homens, do que nas gerações anteriores. A maioria das mulheres não tolera mais o padrão duplo de moralidade, na maior parte das sociedades ocidentais.
Priore (IBID, 2011) considera que o casamento ainda é uma instituição muito valorizada entre os brasileiros Os divórcios aumentaram, mas ainda casa-se muito, embora o
modelo familiar tenha mudado bastante. As mulheres passaram a casar e a ter filhos mais tarde; e o número de filhos por família cai para uma média de dois atualmente, e não mais de seis, como nos anos 1960. A grande questão que se interpõe é em relação às expectativas de homens e mulheres sobre o casamento. Ela cita dados do IBGE, segundo os quais, para o homem brasileiro o casamento é o momento de constituir família; portanto, brigas e infidelidades não atrapalham esse projeto. Já para a brasileira é uma questão de amor e, sobretudo, de viver uma paixão. Quando elas não vêm cumprida essa agenda, querem mudar de parceiro. Daí o grande número de divórcios.
Para ambos os cônjuges, o casamento é, a um tempo, um encargo e um benefício, mas não há simetria nas situações de homens e mulheres. Para as jovens, o casamento era, até meados do século XX, o único meio de se integrarem socialmente; se ficassem solteiras tornavam-se socialmente em resíduos. Para elas, nunca houve paridade nos contratos e permutas com a casta masculina.
Mas um paradoxo digno de nota é que, mesmo depois que as mulheres “foram à luta”, o casamento continuou a ser usado por muitas como um meio para alcançar certa autonomia. Giddens (1992) cita pesquisas conduzidas por Rubim que demonstram essa situação. Beauvoir (1980) argumenta que a passagem do amor ideal ao amor sexual não é simples. Muitas mulheres podem passar toda a vida procurando um ideal inacessível.
A palavra “liberação” aparece nos anos 1970, em consonância com os movimentos mundiais de afirmação das minorias, quando os tabus começam a ser questionados, e entram nas discussões os temas como o orgasmo, casais mais igualitários, divórcio. Mas a sociedade machista respondeu rapidamente a esses avanços. Foram períodos de grande violência contra as mulheres no Brasil, dando origem ao primeiro movimento feminista de massa intitulado “Quem ama não mata”. Mulheres eram mortas por usar biquíni, por fumar. Tudo era motivo para os homens mostrarem seu machismo frente às mudanças em curso, diz Priore (DUARTE,
R., 2011). A exigência do teste de gravidez para admissão no trabalho só foi abolida no Brasil em 1995, com a Lei nº 9.029. Antes disso, essa prática discriminatória era amplamente adotada em qualquer atividade profissional.
O século XX trouxe como grande mudança a descoberta do corpo, na avaliação de Priore (IBID, 2011). E muitos fatores contribuíram para isso. A indumentária feminina torna- se mais leve e reduzida – até mesmo impulsionada pela economia de guerra, nas primeiras décadas do período. As mulheres foram drenadas para o mercado de trabalho, associando trabalho com liberdade financeira, pílula, prazer. Surge a lingerie. Certamente, essas questões impactam no casamento, comenta a historiadora, para quem a sexualidade no Brasil é marcada por muita repressão e, ao mesmo tempo, por muito espaço.
Mas o advento da internet, junto com a parafernália eletrônica, trouxe sérias rupturas na construção da privacidade. Qualquer pessoa pode se dar a ver, mostrar sua nudez, se prostituir via „rede‟. O mundo da telinha, seja do computador ou do celular, abriu uma possibilidade enorme para a pessoa mostrar o que ela tem de mais privado. E as transformações foram muito rápidas; falta consciência às pessoas sobre seu próprio corpo e sexualidade. A autora acredita que o erotismo consistia em imaginar a nudez; ver uma mulher coberta e considerar a possibilidade de despi-la. Mas na internet o sexo é ginecológico e mecânico; e é assim que muitos jovens o veem pela primeira vez. Como historiadora, diz que só consegue olhar pelo “retrovisor”, e não pode antever os impactos dessas mudanças sobre a sexualidade (IBID, 2011).
Giddens (1992) considera que quanto mais o tempo de vida se converte em um referencial interno, e quanto mais a autoidentidade é assumida como um esforço reflexivamente organizado, mais a sexualidade se converte em uma propriedade do indivíduo. Esse estágio apontaria para a superação dos ideais do amor romântico e a inclinação ao relacionamento puro, no qual se entra em uma relação apenas pela própria relação. E cita
alguns autores para falar da equação “sexo e poder”. Para Marcuse, a permissividade sexual não é absolutamente a mesma coisa que liberação; a transformação da sexualidade em mercadoria é universal, mas o erotismo fica quase completamente eliminado. No entendimento de Foucault, também citado, a permissividade da época atual é um fenômeno do poder, e não um caminho para a emancipação. E para Reich, a sexualidade, expressa de modo adequado, é a principal fonte de felicidade; e quem é feliz está livre da sede de poder.
Priore (DUARTE, R., 2011) chama a atenção para algumas características do passado ainda presentes na sociedade brasileira; posições antiquadas em relação ao sexo, herança de um passado hipócrita, nas quais se destaca o comportamento “duas caras”. Na vida pública, o brasileiro é descolado, gosta de piada suja, paquera a mulher do outro e topa todas. Mas na vida privada e na intimidade ele continua racista, machista e homofóbico.
A definição do dicionário Aurélio para hipocrisia traz as expressões “impostura, fingimento, dissimulação”. Esse é o perfil sugerido pela historiadora e por outros autores já citados para caracterizar certas atitudes identificadas no padrão de comportamento burguês e na sociedade brasileira. Em um passado recente, era comum homens de posses manterem uma garçonière para encontrar suas amantes; estas, em geral, oriundas dos seus círculos de amizade e familiar. A dupla personalidade no que diz respeito à sexualidade se verifica também nos meios de representação. No cinema, Priore (IBID, 2011) recorda a pornochanchada, com a clássica figura do garanhão, que pegava todas, mas queria casar com a virgem. Os anos 1980, em que as mulheres obtiveram muitos avanços, registraram grande violência contra elas.
Mas as mulheres também não são poupadas nas críticas da historiadora quanto ao padrão duplo. Fora de casa são independentes, mas no lar querem ser “princesas”. Elas casam para entrar em um conto de fadas. Mas a ocorrência de comportamentos extremos na mesma sociedade é evidenciada; de um lado está o que a ela chama de “cachorrice”, meninas que se
relacionam com todos e engravidam sem medir as consequências, contrapondo-se ao movimento das “princesas”, presente em igrejas protestantes e católicas, de jovens que valorizam o casamento e a virgindade. Em sua opinião, haverá o momento em que iremos ver mulheres se organizando para serem identificadas como algo além de um pedaço de carne.
Para definir o comportamento ambíguo dos brasileiros, verificado em diversos contextos, Priore (DUARTE, R., 2011) usa a expressão “cidadania partida”; atitudes conservadoras contrapondo-se à posição que o país ocupa entre as dez principais economias do mundo. No seu entendimento, isso compromete o nosso desenvolvimento e uma discussão precisará se impor se quisermos avançar socialmente. “Quando vamos, na intimidade, ser inteiros?”, pergunta (ROCHA, P., 2011).