• Nenhum resultado encontrado

4 Antropóides

4.6 Hierarquia e disputa de poder

4.6.1 Conflitos entre comunidades

Por muito tempo se pensou que os humanos, além de alguns insetos sociais, fossem os únicos animais a fazerem guerra. Infelizmente, esta crença estava equivocada. Este é mais um traço de “humanidade” que pode ser encontrado nos chimpanzés.

Há diversos relatos de ataques rápidos realizado por grupos de chimpanzés. Tipicamente, um grupo de 3 ou mais chimpanzés caminham silenciosamente rumo a uma comunidade vizinha — adentrando em torno de 1 km no território da outra comunidade — e atacam e matam um macho adulto ou os filhos pequenos de alguma fêmea que encontrem. O canibalismo é freqüente durante os infanticídios. Aparentemente, os chimpanzés também “patrulham” as fronteiras de seu território regularmente, atacando indivíduos de outras comunidades que estejam sozinhos (WILSON; WALLAUER; PUSEY, 2004, p. 526; BASABOSE, 2005, p. 50; MITANI, 2006, p. 9). Durante o patrulhamento das fronteiras, os chimpanzés tornam-se silenciosos e vigilantes quando próximos dos limites da comunidade, como na descrição de um desses eventos feita por Watts:

[. . . ] the males traveled quickly and silently | to the eastern periphery of their range; entered areas where observers had previously known them to hear or to meet members of another community; continued to travel east, then south, for several hours and, alternately, to sit and listen intently; and maintained high vigilance. They did not encounter extra-community chimpanzees, and they scattered after returning to the west and re-entering the central part of their territory. (2004, p. 511).

Na comunidade de Ngogo, o patrulhamento das fronteiras é feito cerca de uma vez a cada 10 dias; em comunidades menores, a freqüência é mais baixa (MITANI, 2006, p. 9).

Em Gombe, uma comunidade de chimpanzés começou a se dividir em duas por volta de 1970 e, em 1973, os dois grandes grupos já eram praticamente duas comunidades distintas. Os machos de uma das comunidades começaram, então, a matar os machos da outra e a aumentar o seu próprio território. Em 1976, o último macho da comunidade mais fraca foi morto (PUSEY et al., 2005, p. 25). Um detalhe importante a ser notado é que os grupos exterminado e exterminador

eram, originalmente, um só. Ou seja, os animais dos dois grupos possuíam laços de parentesco. Vale também ressaltar que os chimpanzés de Gombe estão entre os menores dentre os que vivem livres, e a redução na estatura ocorreu em décadas recentes, como atestam ossadas de animais mortos (PUSEY et al., 2005, p. 24). Os autores consideram que não há dados suficientes para explicar porque os chimpanzés de Gombe são menores, mas uma possibilidade a ser considerada é que eles estivessem passando por um período de superpovoamento, o que resultava em subnutrição e aumento da violência (disputa intra-comunidade por comida e entre comunidades por território).

Em dois ataques testemunhados e detalhadamente descritos por Wilson, Wallauer e Pusey (2004), fica claro que os chimpanzés não estavam fazendo uma excursão de caça ou em busca de alimentos vegetais, pois eles praticamente não se alimentaram durante os ataques e, numa das ocasiões, não caçaram um grupo de macacos que encontraram no caminho. Além disso, o comportamento silencioso, a atenção aos sons do ambiente, a observação cuidadosa das copas das árvores e os pelos eretos indicavam que eles procuravam algo e que estavam conscientes do risco envolvido no empreendimento. Em um dos ataques, os chimpanzés encontraram um jovem macho de cerca de 10 anos de idade e o espancaram por cerca de 20 minutos, abandonando-o ainda com vida mas provavelmente mortalmente ferido. No outro ataque, eles atacaram duas fêmeas e arrancaram seus filhotes de seus braços, lançando um deles a sete metros de distância e matando e comendo parte do corpo do outro. Durante os ataques, os machos foram acompanhados por algumas fêmeas da própria comunidade, que também tiveram alguma participação na violência. Os chimpanzés machos são mais violentos do que as fêmeas, mas são também as vítimas mais freqüentes dos ataques. Wilson, Wallauer e Pusey (2004, p. 544–5) contabilizaram os casos de filhotes já desmamados que foram mortos em ataques entre comunidades e constataram que de 11 vítimas, 10 eram machos. Os dados coletados ao longo de décadas em Gombe permitem perceber uma correlação positiva entre o sucesso reprodutivo das fêmeas e o tamanho do território ocupado (WATTS, 2004, p. 508). Ao atacar machos de outras comunidades, preservando, entretanto, as fêmeas, os chimpanzés aumentam o território da própria comunidade e a proporção relativa de fêmeas na região.

É interessante observar que o comportamento claramente direcionado a um fim e o nível de coordenação das ações demonstrado nos ataques indicam a existência de uma capacidade de planejamento e de comunicação de intenções por muito tempo insuspeitadas.

Como nas descrição de guerras dos índios yanomamis (CHAGNON, 1968) e dos parakanãs (FAUSTO, 2001), não se trata de um empreendimento organizado, com grandes exércitos entrincheirados. A guerra de exércitos parece ser uma invenção humana recente. Sociedades

de chimpanzés e sociedades humanas com tecnologia primitiva fazem guerra de um modo semelhante. Os indivíduos são mortos aos poucos:

“[. . . ] healthy males of one community disappeared one by one over the years until their territory was eventually taken over by two other communities. In view of their extreme territoriality, male chimpanzees may almost be regarded as captives in their own group; they cannot leave their home range without running into great trouble” (de WAAL, 1989, p. 72).

Os encontros pacíficos entre comunidades de bonobos contrastam com a aparente impos- sibilidade dos chimpanzés de formarem alianças entre comunidades. Mas num certo sentido, também é possível fazer uma analogia entre a fundamentação da paz entre bonobos e as alianças entre tribos de povos tecnologicamente primitivos. Para os yanomamis, o grau máximo de aliança entre duas tribos é alcançado quando há troca de mulheres. Ao fazerem isso, ambas passam a ter parentes na outra tribo e a confiança mútua aumenta. Com os bonobos ocorre algo semelhante. O grau de parentesco entre animais de comunidades diferentes é maior do que entre os chimpanzés:3

It is probably always in the interest of males to prevent group females from copulating with extragroup males. This restriction is not in the females’ interest, however, as it limits mate choice. Once females achieved the upper hand, males may have lost control over this critical issue. Once copulations between males and females of different communities occur on a regular basis, this may reduce male competition over territories and the females contained therein. First, some of their competitors—the ‘enemy’ males in neighboring territories—might well be their brothers, fathers, and sons. Second, males do not need risky fights to gain access to neighboring females if there are opportunities to fertilize them during intercommunity mingling. In short, sexual relations between groups may have removed some of the evolutionary advantages that males gain from intergroup warfare. (de WAAL, 1997, p. 189).

Uma diferença fundamental entre humanos e bonobos é que as tribos humanas trocam mulheres de modo consciente, como resultado de um cálculo racional, visando reduzir o risco de serem atacados e facilitar a formação de alianças, enquanto os bonobos simplesmente são pacíficos o suficiente para tolerar a presença de indivíduos de outras comunidades. Nessas ocasiões eles agem guiados pelas emoções, sem nenhum cálculo consciente das conseqüências de longo prazo de suas ações.

3O leitor deve observar, entretanto, que a existência de parentesco não impediu a guerra entre os chimpanzés. E