Capítulo 2: A questão agrária na ditadura militar e o contexto para o surgimento do MST
2.3 Conflitos sociais no campo e o surgimento do MST
A política de privilegiamento do capital monopolista na agricultura nesses anos, ao acentuar a concentração fundiária conjuntamente à expropriação dos camponeses e à crescente exploração dos trabalhadores no campo, determinou uma elevação significativa dos conflitos, em especial a partir de 1973. Segundo Fernandes (1999, p. 37) “A Comissão Pastoral da Terra (CPT) cadastra, em 1979, 715 conflitos e 88,1% começaram a partir de 1973. Esses conflitos estão distribuídos por todo o país.” Um estudo realizado por José Gomes da Silva e Vera L. G. da Silva Rodrigues (1977) aponta que entre 1971 e 1976 houve mais de 450 conflitos no campo, com um número de 113 mortos55.
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Os autores na mesma linha da discussão travada neste artigo apontam as razões para o acirramento dos conflitos no campo: “De fato, ao fomentar a criação de grandes empresas de criação (a SUDAM chegou a publicar um anúncio
80 Apenas para ilustrar o aumento desses conflitos, é possível citar o caso de uma região que vivenciou essas lutas, a partir de um estudo realizado pela geógrafa Regina Sader (1986) sobre a região do Bico do Papagaio56, onde a partir da criação da SUDAM foram aguçadas as disputas por terra. O mecanismo da grilagem foi o principal caminho escolhido para a apropriação privada das terras devolutas, que já haviam sido incorporadas ao processo de produção pelo campesinato. As empresas madeireiras cumpriram papel importante nesse processo, responsáveis por abrir o caminho para outros empreendimentos, empurrando o campesinato para áreas mais longínquas onde as rodovias ainda não chegaram:
Desmatando e abrindo estradas, a atuação dessas empresas valorizou ainda mais as terras e propiciou a instalação de outras que vão se apropriar privadamente da área. No município de Imperatriz, por exemplo, as grilagens atingem primeiro as áreas cortadas pela Belém-Brasília e as bem próximas da mesma. O campesinato expropriado vai se somar aos posseiros já instalados ao longo do Tocantins e dos igarapés que nele desembocam, o que está bem claro na carta de ocupação do solo de 1973. A falta de estradas retarda o processo de privatização do solo, e permite por um tempo ainda a manutenção do campesinato no seu sistema de cultivo tradicional. A alta rentabilidade da extração de madeira – evidenciada entre outros indicadores pelo transporte aéreo das toras, praticado até hoje na Amazônia – justifica plenamente a abertura de estradas pelas próprias firmas, principalmente quando além da madeira têm projetos de exploração agro- pecuária com incentivos da SUDAM – como a maioria das madeireiras da área. Neste caso, além dos incentivos fiscais contam com financiamento do Banco do Brasil, pois sua atividade relativa à madeira é classificada como industrial.(SADER, 1986, p. 185)
O processo de ocupação das terras pelas madeireiras estava longe de ser pacífico. As estratégias utilizadas para a apropriação fundiárias incluíam: a contratação de pistoleiros, a expulsão violenta dos camponeses, a utilização de uma rede de instituições fraudulentas, como
oficial fazendo praça da Amazônia como o maior pasto do mundo...), o Governo está reduzindo o continente onde se abrigam os pequenos agricultores e aumentando o conteúdo de expulsandos. Esses grandes estabelecimentos empregam pouca mão-de-obra, querem tirar partido dos favores e da inolinação governamental, acumulando tanta terra quanto seja possível; e desenvolvem um tipo voraz de agricultura capitalista para a produção de carne para o mercado externo, onde o camponês é sempre um ilustre desconhecido.” (SILVA e RODRIGUES, 1977, p. 21)
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A autora descreve a área denominada como Bico do Papagaio: “Minha área de estudos situa-se no Extremo Norte de Goiás e Oeste do Maranhão, zona de confluência dos rios Araguaia e Tocantins, abrangendo do lado goiano os municípios de Itaguatins, Sítio Novo de Goiás, São Sebastião do Tocantins, Axixá de Goiás e Araguatins, e do lado maranhense, a porção oeste do município de Imperatriz.” (1986, p. 02)
81 cartórios, organismos oficiais, como INCRA e SUDAM, contando também com o apoio de juízes, advogados e força policial.
Os conflitos por terras não se restringiram à Amazônia, eles apareceram por todo o país, como foi o caso de São Paulo, cuja concentração fundiária e os conflitos dela decorrente foram estudados na tese de Larissa Bombardi (2005). A autora mapeou os conflitos ocorridos neste estado no período que vai de 1964 a 1981 destacando a existência de cerca de 127 conflitos relativos: à luta por terra, às mobilizações políticas e ao trabalho escravo/ escravidão por dívida57. A maior parte dos conflitos concentrou-se em duas áreas, a primeira corresponde ao Vale do Ribeira/ Litoral Paulista, com 42% dos conflitos e a segunda situou-se no Oeste Paulista, particularmente o Pontal do Paranapanema, onde ocorreram 19% dos conflitos. Estavam na origem desses conflitos fatores relativos à expansão capitalista, responsável por impedir a reprodução camponesa; pode-se também identificar a grilagem de terras na base da maior parte deles, tal como é comum em todo o país, sempre com a conivência do Estado, nas palavras da autora:
No primeiro caso, a instauração da propriedade privada, motivada também pela especulação imobiliária e, ao mesmo tempo, a “instalação dos parques”, passaram a limitar, coibir e impedir a reprodução camponesa. No segundo caso, também a instauração da propriedade privada sobre terras devolutas já ocupadas por posseiros fez com estes se deparassem com dificuldade de permanência e da continuidade da terra. Em ambos os casos a grilagem de terras através de títulos fraudulentos foi o expediente utilizado para a tentativa de expulsão dos camponeses. No Pontal do Paranapanema, esta grilagem tornou-se famosa, posto que foi efetivada sobre terras sabidamente públicas, em que, ao contrário do que está ocorrendo, os supostos fazendeiros deveriam ressarcir o Estado pelo uso indevido dessa terra ao longo de décadas. (p. 645)
A partir destes trabalhos, é possível afirmar que a política dos militares acirrou os problemas existentes no campo brasileiro ao se fazerem representantes dos interesses do grande capital monopolista, milhares de hectares de terras foram apropriados à medida que crescente número de camponeses e operários rurais sofriam as conseqüências mais violentas desse
57 Tal como explicado por Larrisa Bombardi (2005), a metodologia utilizada para definir estes conflitos tem por base
a da Comissão Pastoral da Terra (CPT), segundo a Comissão os conflitos por terra relacionam-se à resistência e enfrentamento pela posse, uso e propriedade da terra, já as Mobilizações Políticas, chamadas pela CPT apenas de “Manifestações”, correspondem a ações coletivas dos trabalhadores e trabalhadoras que reivindicam diferentes políticas públicas e ou repudiam políticas governamentais ou exigem o cumprimento de acordos.
82 processo. Mas, como afirma Octavio Ianni (1979), este não é o fim da história; na realidade a expansão do capitalismo de norte a sul do país ocasionou a aproximação das classes subalternas, colocando em condições semelhantes os camponeses do sul do país e os posseiros do Norte, situações estas não desconexas da realidade do bóia-fria na zona canavieira paulista, já que todos esses trabalhadores estavam inseridos no mesmo processo de acumulação do capital em terras brasileiras, revelando toda a miséria de nosso capitalismo, necessária à ânsia por lucros gigantescos por parte da burguesia local, fortemente submetida aos desígnios dos países centrais.
Os conflitos envolvendo trabalhadores e camponeses surgiam por todo o país e a formação do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra expressa as contradições vivenciadas por eles. A origem do Movimento está nas primeiras ocupações de terra organizadas no sul do país em 1979. A partir daí, surgem ocupações em Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul:
No Norte do Rio Grande do Sul, foram os colonos expulsos das terras indígenas que ocuparam as fazendas Macali e Brilhante, em setembro de 1979. No oeste do estado de São Paulo, a resistência dos posseiros à expansão da pecuária na fazenda Primavera impediu a expulsão de suas roças e logrou a recuperação da área grilada mediante um decreto presidencial assinado em 1980. No estado vizinho de Mato Grosso do Sul, arrendatários de diversas fazendas no município de Naviraí resistiram também à expansão da pecuária e, em maio de 1981, camponeses da região ocuparam a fazenda Baunilha. No sudoeste do Paraná, a construção da hidrelétrica de Itaipu deixou milhares de famílias camponesas desamparadas. No oeste de Santa Catarina, famílias camponesas com pouca terra ocuparam a fazenda Burro Branco, em maio de 1980, e resistiram na terra com o apoio da diocese de Chapecó. Uma luta que marcou esse período histórico foi o acampamento na Encruzilhada Natalino, montado em frente à fazenda Macali, em Ronda Alta (Rio Grande do Sul). A intervenção do governo militar nesse acampamento organizado em 1981 visou abortar o nascimento de um movimento de sem-terra. Mas no contexto de transição para um regime democrático, esse acampamento acabou dando um grande destaque à mobilização pela reforma agrária. (...) (FERNANDES, 2010, p. 165)
O geógrafo Bernardo Mançano (2010) aponta três fases na trajetória do movimento. Entre 1979 e 1984, teria sido o momento da gestação e nascimento do MST. Nesse período, a CPT teve papel chave para articular essas lutas, promover reuniões entre as lideranças das diversas ocupações. Como a ocorrida em 1982 em Goiânia, na qual foi formada uma comissão provisória para a criação de um movimento nacional, e, no ano seguinte, quando foram organizados mais dois encontros. Em janeiro de 1984, em Cascavel foi criado oficialmente o MST. A segunda fase
83 estaria entre 1985 e 1989, quando se deu a consolidação do movimento em âmbito nacional.58 E a terceira fase abarcaria de 1990 até o presente, chamada de institucionalização, ampliando sua estrutura organizativa, por meio da criação de uma rede de cooperativas (CONCRAB – Confederação das Cooperativas de Reforma Agrária do Brasil), escolas, centros de formação e pesquisa (ITERRA – Instituto Técnico de Capacitação e Pesquisa da Reforma Agrária e a ENEFF- Escola Nacional Florestan Fernandes).
2.4 Considerações Finais
A ditadura militar instituída em 1964 representou uma contrarrevolução, expressa no papel do Estado brasileiro em manter o status quo e criar as condições mais propícias à geração de altas taxas de lucro nos negócios realizados no país. A política agrária orientou-se por atender os interesses do grande capital monopolista, reforçando as vigas de sustentação do capitalismo dependente e subdesenvolvido: a grande propriedade de terra, a extrema exploração do trabalho no campo e atendimento de necessidades externas à população brasileira. Neste contexto, intensificaram-se os conflitos no campo e, como parte desse processo, houve a criação do MST, em resposta as lutas por terra que ocorriam no sul do país.
No próximo capítulo, analisamos a forma como este movimento lidou com a formação política de seus quadros a fim de dar rumos para a luta pela reforma agrária no país, na década de 1980.
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“Durante esse período, o MST se territorializou em todos os estados das regiões Sudeste e Nordeste do país, além de Centro- Oeste, Região Amazônica, e nos estados de Goiás e Rondônia, (...). No Sudeste, o MST estruturou-se formalmente em São Paulo, em 1984, e organizou suas primeiras ocupações no Espírito Santo, em 1985, e em Minas Gerais, no Vale do Jequitinhonha, a partir de 1987. O MST começou a atuar no Rio de Janeiro em 1985, mas teve de suspender suas atividades no estado em 1987 por problemas de organização interna. O movimento só voltaria a se reorganizar no Rio de Janeiro a partir de 1993.” (FERNANDES, 2010, p. 167)
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