3. Concentração livreira inicia alterações profundas no mercado do livro
3.4. Congressos de Editores abordam desafios do sector (2001 e 2006)
Colocados perante os desafios decorrentes da concentração livreira e de outras significativas transformações no mundo do livro, os editores reuniram-se em dois Congressos dinamizados pela União dos Editores Portugueses (UEP), associação resultante da cisão ocorrida na APEL, em 1999.
O programa e ordem de trabalhos do I Congresso dos Editores Portugueses, que teve lugar em 18 e 19 de Abril de 2001, era ambicioso e sintomático quanto à caracterização dos principais desafios então definidos como prioritários:
Secção I: A Dimensão Cultural e Social da Edição – (1) A edição e os índices de leitura em Portugal; (2) O livro no ensino e na formação profissional, técnica e científica; (3) O livro como base de formação e desenvolvimento culturais; (4) A edição no futuro. Edição electrónica, multimedia, e-books.
Secção II: A Dimensão Económica da Edição – (1) As estatísticas; (2) Apoio e incentivos às empresas e formação profissional; (3) As questões fiscais. A depreciação de stocks: (4) Fusões, aquisições, parcerias, internacionalização e grupos.
Secção III: A Edição, os Direitos de Autor e Direitos Conexos: (1) A revisão do Código de Direitos de Autor e os Direitos do Editor; (2) Direitos Conexos (empréstimos, novos suportes, fotocópias, etc.); (3) Relações dos editores com a APE, a SPA, a UEP, a APEL e outras associações; (4) A negociação internacional dos direitos.
Secção IV: A Comercialização do Livro – (1) Situação actual da legislação sobre a comercialização do livro; (2) O papel das livrarias, cadeias de livrarias e grandes superfícies de vendas; (3) Situação e tendências do mercado livreiro; (4) Problemas da distribuição e comercialização: descontos, devoluções, transportes, correios, exportação.
Secção V: A Edição e o Estado – (1) Os programas de apoio ao livro, à leitura e à edição; (2) Bibliotecas nacionais, municipais e escolares. Depósito Legal. Actividade Editorial do Estado: (3) O mercado externo. As especificidades do Brasil e dos países africanos de língua portuguesa. Questões da exportação; (4) A contribuição da edição nacional para uma estratégia de salvaguarda da língua portuguesa.54
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Compilado a partir do Anexo I à convocatória emitida em 6 de Fevereiro de 2001 pela comissão organizadora do I Congresso dos Editores Portugueses, constituída pelos editores Manuel de Brito, Mário Moura e Nelson de Matos.
59 Passados dez anos, a análise das comunicações efectuadas e da repercussão do evento na comunicação social revela que, independentemente da importância dos temas e do optimismo mostrado por organizadores e participantes, esta reunião magna dos editores foi condicionada por aspectos conjunturais que inviabilizaram a obtenção de conclusões e recomendações efectivas – remetidas para grupos de trabalho a constituir no âmbito da UEP – perante os desafios identificados.
Reporto-me, especificamente, aos seguintes “entraves”: (1) A inquietação com a ruptura financeira da Diglivro/Transdig monopolizou grande parte das atenções, sem que fosse possível definir princípios de actuação eficazes, face às diferentes perspectivas e graus de afectação de cada participante; (2) A notória utilização do Congresso como rampa de lançamento para a promoção e consolidação da novel UEP como «a» associação profissional dos editores; (3) As incontidas e nem sempre justas acusações à actuação do ministério da Educação e de instituições públicas responsáveis pela promoção do livro e da leitura; (4) A, em muitos casos, utópica reivindicação de apoio estatal à actividade editorial e livreira; e (5) O excessivo culpar de grupos, nacionais e internacionais, pelas dificuldades vividas por casas editoriais de menor dimensão, sem se aprofundarem devidamente os porquês de haver editores independentes com excelente performance e outros em crise acentuada.
O II Congresso dos Editores Portugueses, ocorrido em Novembro de 2006, também por iniciativa da UEP, sob o lema «O Livro e o Futuro», teve como objectivo, de acordo com o seu presidente, Mário Moura: debater a revitalização da actividade editorial perante a crise; avaliar a dimensão cultural e socioeconómica da edição; e debater o que já em 2001 eram urgências, bem como os novos desafios de 2006. Em síntese, ficou registado, no relatório de conclusões:
O peso cada vez maior de alguns grandes clientes leva a que as margens das empresas editoras e distribuidoras sejam esmagadas e dá azo a que os grandes grupos de distribuição tenham, neste sector, margens brutas da ordem dos 80%; isto demonstra a ineficácia da «Lei do Preço Fixo», pelo que se torna da maior importância fixar margens brutas máximas no retalho e limitar o total de descontos suplementares por quantidade ou volume.
60 Face ao crescente poder das estruturas de distribuição, é importante criar um conjunto de iniciativas que possam tornar mais salutares as relações entre os editores e os seus clientes mais poderosos, nomeadamente: um código de boas práticas comerciais; uma estrutura arbitral de conflitos; uma mesa de negociação comum que vise a celebração de protocolos; e a promoção de empresas de prestação de serviços comuns.
A edição de um cada vez maior número de títulos publicados por organismos do Estado deveria ser produzida e comercializada em parceria com editoras e distribuidoras existentes.
Portugal está praticamente excluído das representações internacionais, à excepção da Feira de Frankfurt, pelo que o Estado português, à semelhança do que fazem os demais países europeus, tem de definir uma estratégia que vise apoiar a divulgação da cultura portuguesa no estrangeiro, particularmente dos editores e dos livros portugueses.
O ministério da Cultura deverá encontrar formas de organização e de comunicação com as estruturas dos autores e editores portugueses, de modo que os direitos de autor sejam rigorosamente defendidos, quer promovendo acções de fiscalização rigorosa contra a pirataria, quer defendendo autores e editores no ordenamento jurídico, fazendo face à pressão de sectores ligados ao comércio online que começam a pôr em causa a legitimidade dos direitos de autor.
Ao Estado competem responsabilidades na gestão do interesse nacional, que não têm sido assumidas no que respeita ao sector editorial, o qual reclama o seu devido cumprimento, nomeadamente no que se refere à produção de estatísticas do livro por parte do INE e à existência de um sistema de ISBN moderno, isento e online.
Considera-se lamentável que os canais de difusão de rádio e televisão, especialmente os canais públicos, dêem tão pouca visibilidade ao livro, remetendo os programas que deles tratam para horas tardias ou para canais de menor audiência; mais do que programas sobre livros, os editores precisam que haja livros nos programas.
Os editores saúdam o anúncio do Plano Nacional de Leitura, uma reivindicação de sempre da UEP, mas estão preocupados com a pouca visibilidade desta iniciativa e consideram necessário: rever a lista de livros recomendados nos programas de ensino; definir responsabilidades ao nível das estruturas escolares; e consignar verbas para que o PNL possa ter sucesso.
61 Apesar de as conclusões prefigurarem características de caderno reivindicativo, mais do que um plano de acções a desenvolver pelo sector, as comunicações registam um evidente progresso na diversidade dos temas e no aprofundamento que os oradores puseram nas suas apresentações. Aliás, para além dos aspectos referidos nas conclusões do Congresso, foram aflorados outros temas de actualidade e relevância: a prática insustentável para os editores de devoluções em grande escala por todo o tipo de canais de retalho; a deterioração das feiras do livro de Lisboa e Porto; a delapidação de dinheiro, tempo e esforços, nas lutas judiciais entre APEL e UEP; a compra de editoras nacionais por editoras estrangeiras e a entrada de editoras europeias no mercado português; o boom de novas editoras – mais de uma centena de editoras criadas entre 2001 e 2006 – e aumento de novidades editadas pelos editores tradicionais (duplicando os cerca de sete mil títulos novos por ano que eram lançados uma década atrás), o que, conjugado com a prioridade dispensada aos best-sellers e a quase inexistência de distribuidores eficazes, estrangula a venda de fundos de catálogo; os prós e contras da explosão da internet; o surgimento de livrarias online; as implicações dos novos canais de venda emergentes (jornais e revistas, quiosques, CTT, lojas de conveniência, empresas).
Em termos concretos, no entanto, os resultados práticos foram pouco visíveis. Nalguns casos, porque era impossível alterar o rumo dos acontecimentos, noutros, porque o antagonismo de interesses e visões se impôs às boas intenções, e noutros, ainda, porque as reivindicações contemplavam aspectos impossíveis de optimizar por inexistência de meios e/ou por limitações técnico-económicas.