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1 CAPÍTULO METODOLÓGICO

1.2 ESTRATÉGIA DE PESQUISA

1.2.1 Conjunto Documental Institucional

A primeira etapa da investigação foi realizada no Arquivo Geral da Instituição, localizado no terceiro andar da biblioteca. Esse setor é responsável por parte da documentação relacionada ao registro de vida escolar e acadêmica de alunos/as e ex-alunos/as. Também abriga parte da documentação referente ao registro de vida funcional dos/as trabalhadores/as e ex-trabalhadores/as da instituição, além de resguardar parte da documentação geral como atas e correspondências. Para ter acesso aos documentos deste setor, foi necessário formalizar a pesquisa por meio de uma declaração emitida pelo Programa de Pós-Graduação em Tecnologia (PPGTE) juntamente com um requerimento encaminhado à secretaria geral (DERAC) da Universidade, tendo em vista os objetivos e a justificativa para a realização da pesquisa neste setor.

Após o cumprimento de todos os trâmites necessários, dei início à pesquisa consultando a documentação disponível no Arquivo Geral. Os materiais referentes ao período

estudado encontravam-se organizados cronologicamente e microfilmados7. Cada aluno/a possuía, geralmente, a seguinte sequência de documentos (FIGURA 3): 1) ficha de identificação contendo o nome do curso, nome completo do/a aluno/a, filiação, nacionalidade dos pais, data e local de nascimento, endereço e data de matrícula; 2) certidão de nascimento do/a estudante; 3) boletim com a nota do exame de admissão e notas de disciplinas cursadas durante o curso; 4) boletins de promoção referentes à aprovação em cada ano; 5) boletim/s de penalidade com a data e a descrição da falta cometida pelo/a aluno/a, caso houvesse descumprimento de alguma norma da escola; 6) carta de solicitação de devolução de documentos, caso houvesse desistência do curso.

Figura 3 – Exemplos de documentos de ex-aluna (da esquerda para a direita): ficha de identificação, boletim

de notas, boletim de promoção e boletim de penalidade8.

Fonte: Arquivo Geral da Instituição.

Como forma de sistematizar as informações coletadas, optei por registrar os dados mais significativos de cada estudante, a saber: nome completo, data de nascimento e ano de

ingresso na instituição9. Esses dados foram organizados em tabelas (FIGURA 4) como forma

7 Foram analisados 29 microfilmes referentes aos anos de 1943 a 1969. Cada filme comportava cerca de 350 slides.

Os filmes ficavam armazenados em caixas dispostas num arquivo. Cada caixa apresentava a denominação “CEFET – Pastas de alunos” e continha as seguintes informações: número do filme e número da sequência de slides. Vale ressaltar que um único microfilme continha documentos de alunos/as de diferentes cursos. Dessa forma, verifiquei todos os slides de cada microfilme para que nenhum nome de ex-aluna passasse desapercebido.

8 Buscando preservar a identidade da ex-aluna e compreendendo que estes documentos podem ser entendidos

como pessoais, a identificação com o nome foi removida.

9 Torna-se relevante comentar que, mesmo tendo a aprovação para observar os microfilmes, não foi permitido que

o material fosse fotografado ou fotocopiado por se tratar de documentos considerados pessoais. Assim, as informações presentes nos microfilmes foram coletadas manualmente em um caderno. Posteriormente, os dados coletados foram digitalizados e organizados em tabelas, conforme mostra a Figura 4.

de facilitar a visualização e o seu acesso. Como, posteriormente, havia o objetivo de encontrar e entrevistar algumas ex-alunas, criei uma quarta coluna denominada “pesquisa atualmente”. À medida em que a busca pelas ex-alunas acontecia, padronizei essa coluna da seguinte forma: N = nenhuma informação disponível; F = faleceu; V = viva; VC = viva e entrei em contato; E = entrevistada. Essa classificação permitiu um maior controle dos dados investigados e do que ainda faltava ou poderia ser averiguado.

Figura 4 – Lista de ex-alunas do curso de Corte e Costura.

Fonte: Elaborado pela autora a partir da consulta em documentos do Arquivo Geral da Instituição (2016).

Entre os anos de 1943 e 1969, foram contabilizadas 1929 mulheres que estudaram

Corte e Costura10. Vale ressaltar que esse valor diz respeito ao número de alunas que

ingressaram na Escola Técnica de Curitiba a partir do ano de 1943 e não, necessariamente, ao número de mulheres que concluíram os cursos. É importante considerar essa questão porque,

10 Inicialmente, planejei investigar todos os cursos que abarcavam a formação de mulheres na Escola Técnica de

Curitiba entre as décadas de 1940 e 1960, o que também incluía o curso técnico de Decoração de Interiores a partir do ano de 1946. No entanto, conforme a pesquisa prosseguia e o levantamento de dados ganhava corpo, optei por delimitar o recorte de análise apenas no curso de Corte e Costura, principalmente, devido as seguintes questões: 1) o material coletado sobre o curso de Corte e Costura já era extenso o suficiente para viabilizar uma ampla e detalhada pesquisa; 2) o curso de Corte e Costura foi o primeiro curso direcionado especificamente para a formação de mulheres na Escola Técnica de Curitiba; 3) os aspectos relacionados à domesticidade estavam intrinsecamente relacionados ao curso de Corte e Costura; 4) o NUDHI possuía apenas algumas imagens fotográficas e poucos materiais relacionados ao curso de Decoração de Interiores. Vale ressaltar, no entanto, que essa decisão foi tomada após a averiguação dos dados coletados. Logo, durante todo o levantamento, busquei e juntei informações e materiais tanto sobre o curso de Corte e Costura quanto sobre o de Decoração de Interiores.

especialmente nos cursos industriais ginasiais, havia uma taxa considerável de evasão por parte de alunas e alunos. De acordo com Mario Lopes Amorim (2004), a evasão escolar verificada na Escola Técnica na década de 1940 era um ponto que chamava bastante a atenção: em relação ao curso feminino de Corte e Costura, das 56 alunas que iniciaram o curso em 1945, 11 haviam abandonado e 10 haviam trancado o curso até o final do primeiro ano. Este quadro pode ser justificado, segundo Amorim (2004), tanto no âmbito do cotidiano escolar, dado “o rigor utilizado nas avaliações escolares”, quanto em relação à situação social dos/as estudantes, visto que o problema, por vezes, “residia nas necessidades dos alunos em buscarem recursos para sua sobrevivência e a de seus familiares, o que os levava a abandonarem seus respectivos cursos pelo caminho” (AMORIM, 2004, p. 108).

Ao longo da pesquisa percebi também que muitas alunas que cursaram Corte e Costura deram continuidade aos seus estudos na instituição frequentando, posteriormente, o curso técnico de Decoração de Interiores. Dessa forma, entre 1943 e 1969, contabilizei o total de 97 estudantes que cursaram Decoração de Interiores, sendo 79 mulheres e 18 homens.

Com relação às alunas de Corte e Costura, chamou-me a atenção o número levantado de 1929 mulheres que frequentaram a instituição no intervalo de 26 anos, o que me fez refletir que já na década de 1940 havia uma quantidade significativa de meninas – ou famílias – interessadas na formação profissional de Corte e Costura em Curitiba. Dessa forma, minha pergunta de pesquisa vem novamente à tona: se havia uma procura considerável pelo ensino feminino de Corte e Costura, que tipos de práticas eram ensinadas e legitimadas no curso? Quais eram os espaços e os artefatos envolvidos nessa formação? No que eram pautados e onde, possivelmente, as alunas aplicariam os conteúdos e experiências vivenciadas na escola? Estes são alguns questionamentos que busquei problematizar ao longo deste estudo.

Voltando às pesquisas no Arquivo Geral da Instituição, além das informações de ex- alunas disponíveis em microfilmes, também encontrei diários de classe de professoras e professores da Escola Técnica (FIGURA 5). Esses registros encontravam-se disponibilizados

em caixas de arquivo organizadas, respectivamente, por ano e mês a partir de 196211. No

entanto, torna-se relevante mencionar que uma mesma caixa continha diários de classe de diferentes cursos e séries. Sendo assim, inicialmente, separei as fichas relacionadas ao curso de Corte e organizando-as por série. Cabe dizer também que, em muitos anos, a relação de diários de classe não estava completa.

11 Os diários de classe estavam armazenados em caixas de arquivo com a seguinte denominação: “Arquivo Geral.

Figura 5 – Diários de classe do curso de Corte e Costura. Acima: frente do diário de classe da disciplina de Corte e Costura da 1ª série de 1962. Abaixo: verso dos diários de classe com a descrição de conteúdos referentes às disciplinas de Economia Doméstica e Tecnologia de Costura.

Fonte: Arquivo Geral da Instituição.

Assim, a segunda etapa da pesquisa consistiu na verificação, organização e captação de imagens por meio de fotografias digitais dos diários de classe das disciplinas do curso industrial ginasial de Corte e Costura. Estes documentos apresentavam na parte da frente: 1) curso; 2) nome da disciplina; 3) nome do/a professor/a responsável; 4) mês, ano e turma correspondentes; 5) lista com os nomes e presença dos/as alunos/as; 6) notas de trabalhos e provas realizadas. O verso da folha era composto pela descrição do conteúdo ministrado em sala de aula com a indicação de aula prática ou teórica. Nem todos/as os/as professores/as descreviam detalhadamente suas aulas nesses documentos, sendo que muitos diários de classe, inclusive, possuíam apenas as informações relacionadas à presença e notas de alunas e alunos. A partir do contato com esse material, o próximo passo foi organizar e transcrever os conteúdos das disciplinas técnicas com o intuito de averiguar quais eram os conhecimentos ensinados às estudantes. Torna-se relevante enfatizar que meu propósito não era o de aprofundar o entendimento em questões relacionadas às práticas de ensino na educação escolar, mas, isto sim, perceber no que concernia a formação das estudantes na Escola Técnica. Examinar os

diários de classe também contribuiu para que o roteiro das entrevistas orais fosse elaborado tendo em vista os conteúdos ministrados nos cursos.

Concluídas as buscas e pesquisas no Arquivo Geral da Instituição, a próxima etapa da investigação foi realizada no Núcleo de Documentação Histórica – NUDHI. Organizado na década de 1990, o setor conta com um acervo que abrange o período desde a criação da Escola de Aprendizes Artífices até os dias vigentes. Encontra-se localizado, atualmente, no setor de Comunicação Social da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, situado no terceiro andar do prédio da Reitoria.

Como a pesquisa já estava formalizada por meio de um requerimento realizado junto à secretaria, o acesso ao material disponível no NUDHI foi possibilitado com maior facilidade. Entre os materiais documentados encontram-se imagens fotográficas, periódicos publicados pela instituição, publicações referentes ao ensino industrial, livros de atas e relatórios, materiais publicitários e de divulgação, arquivos audiovisuais, além de documentos diversos organizados cronologicamente em caixas de arquivo. Dessa forma, pude acessar, examinar e fotografar diferentes tipologias documentais que possibilitaram compreender aspectos das práticas sociais atreladas à domesticidade no curso de Corte e Costura entre as décadas de 1940 e 1960.

Sobre a diversidade de documentos criados e armazenados na instituição, Nádia Cuiabano Kunze (2013, p. 89) argumenta que “as instituições escolares produzem e, geralmente, acumulam uma variedade de registros que são essenciais ao conhecimento de seu passado, assim como do seu momento presente”. Logo, os elementos informativos das escolas resguardam indicadores de suas “particularidades, complexidades, competências, atribuições, finalidades, contradições, funcionamento, práticas, saberes, culturas, bem como das relações que são estabelecidas nos seus contextos interno e externo” (KUNZE, 2013, p. 89).

Ao acessar os documentos do Núcleo de Documentação Histórica, encontrei algumas dificuldades no levantamento de dados. Isto, porque apesar da instituição concentrar seu acervo histórico reunido em um único lugar, este não possuía uma catalogação sobre quais e quantos materiais estavam resguardados neste espaço ou como eu poderia encontrar documentos relevantes para a pesquisa.

Vale comentar que a sala do NUDHI é composta por alguns armários e arquivos, além de materiais dispostos em cantos ou espaços vagos. Dessa forma, mesmo sabendo que neste espaço existiam materiais ricos para análise, eu não sabia exatamente onde eles poderiam estar armazenados. Sendo assim, a seguir, procuro detalhar como aconteceu o delineamento da pesquisa neste ambiente e como fui encontrando materiais relevantes para este estudo.

A busca começou por dois armários que continham caixas de arquivos de documentos

diversos12. Estas caixas armazenam documentos formais como livros de atas de reuniões,

inventários de materiais comprados para uso nos cursos e nas demais dependências da escola, folhas de contratação e pagamento de funcionários/as, folhas avulsas de provas e alguns trabalhos de alunos/as, entre outros.

Torna-se pertinente enfatizar que o contato com esse material foi significativo porque encontrei algumas evidências como inventários de compra de materiais para as disciplinas de Corte e Costura, fichas de cadastro de professoras do curso, bem como alguns trabalhos de desenho ornamental de ex-alunas (FIGURA 6).

Figura 6 – Documentos diversos (da esquerda para a direita): trabalho escolar de ex-aluna, ficha de docente do Corte e Costura e folha de inventário de materiais adquiridos para a disciplina de Economia Doméstica.

Fonte: Núcleo de Documentação Histórica – NUDHI.

Prossegui o trabalho de campo com o levantamento dos demais documentos disponíveis no Núcleo de Documentação Histórica. Foram identificados três periódicos veiculados na Escola Técnica entre os anos de 1940 e 1960, a saber: a revista “Labor”, o jornal “O Técnico” e os “Boletins CBAI”.

12 Este material estava organizado cronologicamente em caixas de arquivo separadas por ano com a seguinte

A revista “Labor” (FIGURA 7) esteve em circulação na Escola Técnica de Curitiba entre abril de 1940 e novembro de 1947, num total de 19 números e sem uma periodicidade definida. Segundo Mário Lopes Amorim (2013), a revista era composta graficamente pelos próprios alunos e editada na Seção de Artes Gráficas da instituição, sendo distribuída gratuitamente tanto para o público interno quanto para outras escolas e órgãos governamentais, como o Departamento de Ensino Industrial e o Ministério da Educação e Saúde.

Figura 7 – Páginas da revista “Labor”.

Fonte: Núcleo de Documentação Histórica – NUDHI.

Conforme Amorim (2004) explica, a revista “Labor” pode ser caracterizada em duas fases: na primeira, que vai de 1940 a 1944, os artigos abordam questões relacionadas a civismo, amor à Pátria e valorização do trabalho como caminho para o desenvolvimento; já a segunda fase, de 1944 a 1947, engloba textos técnicos, relacionados às atividades desenvolvidas nas oficinas e nas salas de aula. Logo, segundo esse autor, “gradativamente a revista vai direcionando-se para o aspecto da habilitação profissional, em detrimento dos artigos ufanistas” (AMORIM, 2004, p. 74).

O NUDHI possui arquivadas todas as publicações da revista “Labor”. Entre os conteúdos divulgados, encontrei textos sobre domesticidade, artigos de professoras do curso de Corte e Costura, bem como anúncios publicitários direcionados para o público feminino.

Também foram encontradas algumas edições do jornal institucional “O Técnico”,

elaborado por alunos e alunas da Escola Técnica de Curitiba entre as décadas de 1950 e 196013.

Figura 8 – Páginas do jornal institucional “O Técnico”.

Fonte: Núcleo de Documentação Histórica – NUDHI.

O periódico abordava temas relacionados ao cotidiano dos/as estudantes na escola. Sendo assim, entre os assuntos apresentados estavam textos alusivos a datas comemorativas, descrição de visitas técnicas e passeios realizados pelos/as estudantes, homenagens a professoras e professores, divulgação de concursos internos, novidades sobre os cursos ginasiais industriais e cursos técnicos, poesias escritas por alunas e alunos, além de seções destinadas à recreação e humor. Entre os assuntos abordados, chamou-me a atenção a existência de uma seção direcionada especialmente para as meninas da escola e intitulada “Cantinho Feminino” (FIGURA 8). Ocupando uma página do jornal, a seção contemplava textos como poesias, receitas de culinária, receitas de limpeza, além de textos escritos pelas alunas com temas sobre o “amor”, “ilusão”, “felicidade”, “feminilidade”, entre outros.

13 No Núcleo de Documentação Histórica, tive acesso às seguintes edições do jornal “O Técnico”: n. 22, out. 1955;

n. 23, dez. 1955; n. 26, set. 1956; n. 27, nov. 1956; n. 33, maio 1962; n. 34, nov. 1962; n. 35, set. 1963; n. 37, out. 1964; n. 39, abril 1966.

Entre os materiais pesquisados14, havia também algumas publicações dos boletins da Comissão Brasileiro-Americana de Ensino – CBAI (FIGURA 9). Instituída em 1946, a CBAI era um órgão executor do programa de cooperação educacional estabelecido entre o Brasil e os Estados Unidos. Direcionado para o ensino industrial, objetivava uma maior aproximação interamericana, mediante intercâmbio intensivo de educadores, ideias e métodos pedagógicos. Esse acordo englobava as seguintes ações: 1) fornecimento de especialistas norte-americanos para a realização do programa; 2) estudos e pesquisas sobre as necessidades dos dois países na área do ensino industrial; 3) viagens de estudos aos Estados Unidos a administradores, educadores/as e técnicos/as brasileiros/as; 4) aquisição de equipamentos e preparação de material didático para o ensino industrial brasileiro (AMORIM, 2004).

Figura 9 – Páginas de Boletins da CBAI.

Fonte: Núcleo de Documentação Histórica – NUDHI.

De acordo com Amorim (2004), os Boletins da CBAI circularam pelas instituições de

ensino industrial no Brasil de 1947 a 196115 com o intuito de divulgar as atividades

14 O NUDHI possui cópias impressas dos Boletins CBAI referentes aos anos de 1951 e 1952. O acesso a outras

edições dos Boletins CBAI aconteceu por intermédio de Mariana Prohmann.

15 Os boletins da Comissão Brasileiro-Americana de Ensino foram elaborados e publicados a partir de 1947, na

sede do referido órgão, no Rio de Janeiro, de janeiro de 1947 a março de 1957. A partir de outubro de 1958 a novembro de 1961, os boletins passam a ser elaborados na Escola Técnica de Curitiba. Ver: AMORIM, Mário Lopes. Da Escola Técnica de Curitiba à Escola Técnica Federal do Paraná: projeto de formação de uma aristocracia do trabalho (1942-1963). 2004. Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, São Paulo.

desenvolvidas pela assistência estadunidense ao ensino industrial brasileiro. Entre os boletins da CBAI que tive acesso, chamou-me a atenção uma seção publicada a partir de novembro de

1948 e intitulada “Vocabulário Técnico Ilustrado de Corte e Costura”16. Durante cerca de quatro

anos, essa seção trouxe definições ilustradas de acessórios, ferramentais e atividades técnicas realizadas nas oficinas femininas das escolas técnicas. Outra questão importante verificada nos boletins da CBAI diz respeito a algumas notas e imagens fotográficas relacionadas ao curso de Corte e Costura e que contribuíram no entendimento de como aconteciam as práticas educacionais deste curso.

Além da publicação de boletins, a CBAI organizava também apostilas com o intuito de padronizar as oficinas e as atividades de ensino em todas as escolas técnicas brasileiras. Tive acesso à apostila “Corte e Costura, Bordado e Rendas: Sugestões para planejamento e

organização de Oficinas”, redigida por Nair Becker e publicada em 1953 pela CBAI17

(FIGURA 10).

Figura 10 – Páginas da apostila “Corte e Costura, Bordado e Rendas: Sugestões para planejamento e organização de Oficinas”.

Fonte: Núcleo de Documentação Histórica – NUDHI.

16 A seção do Vocabulário Técnico Ilustrado de Corte e Costura estava dividida em seis planos: I – Instrumental e

utensílios; II – Matéria prima; III – Aviamentos; IV – Atividade técnicas; V – Aplicações; VI – Indumentária.

17 O acesso a esse material aconteceu por intermédio da professora Maria Lúcia Büher Machado. Vale comentar

que a autora desse material, Nair Becker, foi diretora e docente da renomada Escola Técnica Ernesto Dorneles, em Porto Alegre – RS. Ver: LOURO, Guacira Lopes; MEYER, Dagmar. A escolarização do doméstico. A construção de uma Escola Técnica Feminina (1946-1970). Cadernos de Pesquisa. São Paulo, nov. 1993. n. 87, p. 45-57.

A apostila apresenta critérios e recomendações de organização das oficinas com o intuito de alcançar maior eficiência no ensino e na prática de Corte e Costura. Entre os conteúdos abordados estão: dimensão e disposição adequada dos móveis, parâmetros de iluminação, cores apropriadas das paredes para uma melhor produtividade, manuseio de ferramentas de trabalho durante as aulas, uso de equipamentos e máquinas, prevenção de acidentes, entre outros. O estudo desse material permitiu compreender os critérios sugeridos de organização e uso dos espaços em sala de aula, bem como todo o instrumental utilizado recomendado.

Por fim, tive acesso no NUDHI a dois arquivos que continham várias imagens fotográficas desde o surgimento da Escola de Aprendizes Artífices aos dias atuais. As fotografias estavam reunidas de acordo com temas em comum e guardadas em plásticos. O agrupamento por temas similares facilitou o entendimento dos principais assuntos retratados na instituição. No entanto, um mesmo plástico continha imagens fotográficas que não estavam organizadas cronologicamente (FIGURA 11). Por exemplo, o plástico intitulado “esporte” armazenava aleatoriamente fotografias da década de 1930 até o ano de 2016, período no qual foi realizado o levantamento de dados.

Figura 11 – Imagens fotográficas intituladas “Atividades solenes”.

Fonte: Núcleo de Documentação Histórica – NUDHI.

Vale ressaltar que muitas fotografias não apresentavam identificação com data,