2.5 TEORIA DA SOCIEDADE DE RISCO
2.5.2 Consciência do risco ao meio ambiente
Na Sociedade de Risco, percebida por Beck, vive-se sob o risco constante de um colapso ambiental decorrente do fim dos recursos naturais, isto porque o modelo de produção que está em vigência privilegia o “consumo insustentável, baseado na maximização dos lucros e na falta de prudência ambiental” (BODNAR, 2014). Como analisado na teoria de Ulrich Beck, na modernidade tardia a sociedade vive subjugada por riscos de dimensões indefinidas (BECK, 2010). Ao interpretar a obra de Beck, Bodnar (2014) retrata a Sociedade de Risco com os seguintes contornos:
O novo cenário é movediço, inspira cautela, requer atuação estratégica e antecipada. Porém, não é compatível com o imobilismo, ou seja, com a omissão. A convivência com situações de risco será uma constante no futuro da humanidade, gera um ambiente notabilizado pela insegurança e pela imprevisibilidade e requer um esforço também sinérgico e cumulativo de todos na sua gestão e no controle em níveis de tolerabilidade. Deve ser entendido como alavanca propulsora ou chave que aciona a inteligência coletiva para atuar cooperativamente na definição dos destinos da humanidade (BODNAR, 2014).
Na Teoria da Sociedade de Risco, concebida por Beck, é proposta a criação da consciência da existência dos riscos na sociedade, para reduzir as suas probabilidades de ocorrência. A consciência do risco assume alto grau de importância porque está vinculada à noção de “reflexividade” das ações humanas na sociedade de risco, em outras palavras, os riscos são oriundos das ações adotadas no modelo industrial e de desenvolvimento econômico e tecnológico da própria sociedade. Negar o risco não geraria a sua eliminação – ao contrário: uma política de dissimulação do risco poderia ocasionar uma desestabilização generalizada (BECK, 2010, p. 332).
Beck esclarece que risco não é sinônimo de catástrofe, mas sim de “antecipação da catástrofe” com a encenação no presente de desastres de provável ocorrência (BECK, 2010, p. 362). Neste contexto, se a consciência do risco está cientificamente orientada e como se trata de atividade antecipatória, para o enfrentamento dos riscos, sugere o autor (BECK, 2010, p. 88):
Fórmulas e reações químicas, invisíveis concentrações de poluentes, ciclos biológicos e reações em cadeia precisam dominar a visão e o pensamento para engrossar as barricadas contra os riscos. Nesse sentido, a consciência do risco não consiste mais em “experiências de segunda mão”, e sim em “inexperiências de segunda mão”.
Em face dos riscos globais relacionados à escassez hídrica, as medidas e diretrizes orientadas à proteção da água adquiriram notável relevo nas últimas duas décadas do século XX. Como foi informado, a Teoria da Sociedade de Risco foi elaborada em 1986, ou seja, cinco anos após a instituição da Política Nacional do Meio Ambiente (PNMA) no Brasil (BRASIL, 1981). E com a promulgação da Constituição Federal em 1988, houve a expressa previsão do risco ambiental e da obrigação da preservação do meio ambiente para as gerações futuras (BRASIL, 1988, artigo 225). O disposto no artigo 225 da Constituição Federal encerra o Princípio da Equidade Transgeracional, que se traduz no dever da preservação do meio ambiente ecologicamente equilibrado “para as presentes e futuras gerações”. Desses fatos decorre a percepção de que há certa simultaneidade na estruturação do pensamento da proteção do meio ambiente dos riscos, que se projetam para além do momento presente, tanto na teoria formulada por Beck, como pela proteção construída pelo legislador constitucional.
Conforme anota Carvalho (2008, p. 14):
[…] o texto constitucional brasileiro prevê, a exemplo da constituição portuguesa, o direito ao meio ambiente como um direito fundamental capaz de refletir a institucionalização de uma dupla geração de direitos ambientais. Enquanto uma primeira geração encontra-se fundada na prevenção e controle das degradações ambientais, uma segunda geração de direitos ambientais surge mais preocupada com os aspectos globais (efeitos combinados) e de controle dos efeitos colaterais das ações presentes às futuras gerações.
Os conflitos e desafios que a Sociedade de Risco impõem, portanto, que as decisões políticas e jurídicas considerem os riscos antes mesmo que estes venham a causar danos, em consequência do que os riscos assumiriam a função de
“elementos comunicacionais capazes de formar vínculos jurídicos intergeracionais” (CARVALHO, 2008, p. 16). Pondera, Carvalho (2008, p. 22), que a função principal do Direito Ambiental, que vem a ser justamente a antecipação dos danos futuros, nem sempre pode valer-se de conhecimento científico ou de precedentes jurídicos para fundamento de decisões quanto aos riscos. Completa, em vista disto, que “a inserção do futuro nos processos de tomada de decisão jurídica, numa interação entre programação condicional e finalística, é fundamental nas reflexões jurídicas acerca dos novos direitos” (CARVALHO, 2008, p. 22). Para o autor em referência, o fundamento lógico do dever de preventividade do Direito Ambiental “decorre da constante irreversibilidade dos danos ambientais” (CARVALHO, 2008, p. 29).
Beck (2010, p. 8) entende que o risco, que surge da sociedade imersa nas incertezas fabricadas, não pode ser eliminado, mesmo porque não decorre de falhas e sim é resultado do regular funcionamento do sistema. A mudança de comportamento, porém, baseada na consciência coletiva dos riscos, pode ocasionar um desvio na rota, de modo que o planeta é conduzido a um outro destino. Tal proposição leva a concluir que retomados os comportamentos nocivos ao meio ambiente e à saúde dos seres vivos, o planeta retoma aquele destino vaticinado, submergindo nos riscos.
A perspectiva que considera os riscos de escassez global de água, tal como tratada na apresentação do tema e da motivação, tem sido correntemente abordada nos estudos dedicados aos dos recursos hídricos. Observa-se que os riscos decorrentes de escassez hídrica ficaram evidentes, por exemplo, no estado de São Paulo, entre 2013 e 2014, quando a estiagem prolongada deixou milhões de pessoas sem fornecimento de água e, em 2015, uma epidemia de dengue atingiu o país todo, com maior concentração de casos no estado de São Paulo (MARTIRANI; PERES, 2016).
Beck (2010) detecta que a reflexidade da modernidade tardia é o fenômeno que provoca a emersão dos movimentos da subpolítica, que vêm a ser grupos dotados de expressão política, que congregam atores dos mais diversos segmentos da sociedade, com a finalidade de integração de posições e interesses destoantes, de modo a tornar verdadeiramente democráticos os processos de decisão de tais plenários. Percebe-se similaridade entre a descrição dos movimentos de subpolítica, previsto por Beck, e os Comitê de Bacias Hidrográfica,
vistos em sua natureza de parlamento da água. Aceitando-se essa correspondência pode ser compreendido que os Comitês de Bacias Hidrográficas podem assumir a atribuição de levar à sociedade informações sobre os riscos que afetam os recursos hídricos.
É válido anotar que a teoria formulada por Beck (2010) não oferece resposta a todas os dilemas que tipicamente eclodem na sociedade contemporânea. As soluções propostas por Beck não servem, tampouco, como panaceia para as contingências da pós-modernidade, mesmo porque não aderem, indiscriminadamente, a qualquer sistema social e econômico. A despeito disso, a Teoria da Sociedade de Risco sinaliza algumas possibilidades de soluções que podem servir, por meio de analogia, para inspirar providências, inovações culturais e práticas aplicadas à gestão da água.