3. CONSENTIMENTO INFORMADO
3.3. Elementos Constitutivos do Consentimento
3.3.5. Consentimento
A necessidade de obter consentimento informado assenta na protecção dos direitos à integridade física e moral da pessoa humana, e fundamenta-se no reconhecimento da autonomia de todo e qualquer Ser Humano, baseada no poder
76BEAUCHAMP, Tom L. e CHILDRESS, James F.(2002), pp. 155 e 156.
77 ELIZARI, F., J.(1996), p. 246.
de decisão livre sobre o que se lhe refere. Consequentemente, quer o acto médico se execute em serviços públicos, quer em clínicas privadas, há sempre uma necessidade de consentimento informado. O consentimento reveste a forma oral ou escrita de acordo com a importância e risco da decisão. No decorrer da prática clínica diária, a obtenção de consentimento explícito não é obrigatória em toda e qualquer circunstância. No decurso da relação terapêutica, intervenções comuns sem riscos para o doente, como a auscultação cardíaca no âmbito de uma consulta de cardiologia, estão tacitamente autorizadas.
Para MELO78 obter e dar consentimento é um fenómeno complexo, devendo mesmo ser tratado como um processo científico, e efectivamente por isso, este deve ser obtido de uma forma simples e adaptada à necessidade de informação de cada cidadão. Segundo este Autor, o consentimento não se obtem, vai-se obtendo à medida que se vai conhecendo a pessoa, a progressão da doença e do tratamento.
É importante o consentimento informado para estabelecer uma boa relação entre o profissional de saúde e a pessoa em situação de doença e não considerar o obter do consentimento informado como um fim em si próprio.
O consentimento informado pressupõe um espaço de liberdade e de aceitação do outro, em que este poderá contestar e recusar a ajuda dos profissionais, sem que isso quebre a relação profissional de saúde-pessoa doente. É nessa liberdade de escolha que reside o respeito e a aceitação do outro como pessoa única e exclusiva.
O consentimento informado pode ser expresso oralmente, por escrito, a rogo ou testemunhado, atendendo à gravidade e delicadeza das situações. Porém, e como sublinha SERRÃO “não pode considerar-se consentimento informado e válido, a simples assinatura do doente num formulário impresso de autorização, que é muitas vezes apresentado por um funcionário administrativo”79, prática esta que ainda hoje não foi completamente abandonada pelos nossos serviços de saúde, sendo em alguns casos, vastamente implantada.
Para se considerar que a decisão tomada pelo doente é válida, este tem que possuir capacidade para compreender a informação, julgá-la com base no seu
78 Cf. MELO, João Q. (1992), “Interferência do Consentimento Informado no Aspecto Técnico-Científico do Exercício da Medicina”, in O Consentimento Informado: Actas do I Seminário promovido pelo Conselho nacional de Ética para as Ciências da Vida, Colecção Bioética, Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, pp. 99-102.
79 SERRÃO, Daniel (1996), p. 80.
sistema de valores, elaborar mentalmente uma resposta e comunicar livre e espontaneamente a sua decisão. O consentimento informado é o culminar de um processo e não a simples assinatura do doente num impresso.
No plano ético, será relevante salientar que não existe nenhuma distinção entre a obtenção do consentimento oral ou escrito ratificado pela assinatura de um impresso, quer pela pessoa doente, quer pelo legítimo representante. As situações de consentimento testemunhado, escrito ou oral, por si só, carecem de suporte éticamente válido. Contudo, ao nível jurídico, um documento de consentimento informado funciona como documentação de prova, sendo por sua vez, uma imposição formal exigida com frequência no âmbito hospitalar.
A justificação ética do consentimento informado, livre e esclarecido tem por base o respeito pela dignidade da pessoa. Assim, todo este processo tem por função não só promover o respeito pela pessoa doente e a sua dignidade, mas também proteger a sua autonomia.
Situações há, em que a transmissão de verdade sobre a situação clínica pode ser prejudicial para o doente. Sempre que tal aconteça, o profissional, de acordo com o princípio de beneficência, pode omitir informações. Nestas situações o profissional de saúde recorre ao “privilégio terapêutico”. No entanto, essa ocultação deve ocorrer após ter sido ponderado o peso relativo das variáveis para a implementação do privilégio terapêutico que são o desconforto psicológico do doente, associado ao desvendar de pormenores relativos ao seu estado de saúde, e a omissão de toda ou parte da informação nos casos de doenças graves com prognósticos reservados. Se o doente optar por não ser informado, de acordo com o princípio da beneficência essa vontade deve ser respeitada. O doente apenas está a expressar o seu direito à autodeterminação. Tratando-se de doentes terminais, o direito à autodeterminação é cada vez mais reconhecido. O testamento vital foi sugerido nos anos setenta, como consequência da utilização de meios desproporcionados de tratamento neste tipo de doentes.
Numa primeira fase, o testamento vital previa apenas a recusa informada de intervenções médicas que apenas prolongariam de uma forma artificial a vida. Mais tarde, concedeu ao doente o poder de seleccionar os tratamentos pretendidos.
Porém, apesar da existência destes documentos, os mesmos não devem nunca substituir-se à relação afectiva profissional de saúde-doente. Esta deve ser a base para a construção de um clima de confiança e segurança, que permitirá ao doente
reduzir substancialmente as experiências traumatizantes que, naturalmente ocorrem devido ao seu estado físico.
A Convenção para a protecção dos Direitos do Homem e da Dignidade do Ser Humano relativamente às aplicações da Biologia e da Medicina, no capítulo II, artigo 5º, faz a seguinte alusão ao consentimento e que acaba por traduzir tudo o que para trás foi dito: “Uma intervenção no domínio da saúde não pode ser efectuada senão depois da pessoa em causa ter dado o seu consentimento, de forma livre e esclarecida, para o efeito. A esta pessoa deve ser dada previamente uma informação adequada quanto ao objectivo e à natureza da intervenção, assim como quanto às suas consequências e aos seus riscos. A pessoa em causa pode, a qualquer momento, revogar livremente o seu consentimento.”