Traçamos, até aqui, um importante percurso metodológico e teórico, visando a situar a nossa pesquisa na perspectiva acadêmica do discurso, em que se concentra o nosso objeto de análise. Logo, essas são algumas das orientações teóricas que definirão a costura das discussões que fazemos na nossa tese.

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Para mí el productor del enunciado es el sujeto empírico SE, y que por otra parte llamo locutor L a la persona

presentada como responsable del enunciado (DUCROT, 1990, p. 66).

9 Observamos que “língua”, na nossa pesquisa, tem quase sempre sentido de língua escrita = texto acadêmico,

4 O TEXTO: A MANUFATURA, OS CONTEXTOS

Quando da elaboração da nossa dissertação de mestrado, foi investigada a construção do sentido, bem como aspectos identitários e ideológicos, a partir da análise de instrumentos da língua, palavras com força argumentativa, tomando como objeto de pesquisa o discurso do Partido dos Trabalhadores. Recorremos, para tanto, à quantificação e à qualificação de algumas palavras levantadas na produção textual do Partido dos Trabalhadores (PT), por meio de jornais, folhetos, volantes e folders, produtos das campanhas relativas à primeira e à última disputas à presidência da República, anos 1989 e 2006, antes de iniciada aquela pesquisa de mestrado.

A partir dessa pesquisa e do trabalho que desenvolvemos, de 2008 a 2013, com graduandos de uma Universidade privada de Minas Gerais, fui instigada a saber se é possível apontar características ideológicas, mas principalmente, identitárias e vocacionais do sujeito acadêmico, graduandos e pesquisadores, tomando como objeto de análise as produções textuais deles, isto é, Resenhas Acadêmicas Temáticas. Nessa empreitada, para analisarmos as produções, recorremos também a métodos quantitativos e qualificativos.

Em se tratando do discurso do mundo acadêmico, se consideramos que a academia é o lugar privilegiado da manufatura textual, somos levados a concluir que, principalmente lá, o texto, enquanto recurso instrumental, isto é, estrutural, também é determinante, motivo pelo qual, para nós, a teoria de Ducrot também o é. Na academia, e principalmente lá, o texto passa por importante processo de criação, de revisão estrutural, de retextualização, para, só então, chegar à condição de discurso oficial, ideológico, que equivale à consolidação das ideias do sujeito acadêmico. Podemos pontuar outras instituições que seguem etapas de criação textual relacionadas com a indústria do texto, entre elas, editoras de livros, de jornais, porém, tais instituições tendem a sofrer influência da academia, exigindo textos manufaturados.

Pensando a frase como instrumento estrutural, fundamental para as etapas de consolidação do discurso acadêmico, vemos a importância, para o nosso trabalho, de algumas teorias que nascem sob a influência da Linguística do sistema, de Saussure. Destacamos aqui Ducrot e Carel e a relevância pedagógica dos trabalhos que eles vêm desenvolvendo sobre encadeamentos argumentativos (Ducrot) e entrelaçamentos argumentativos (Carel), os quais

marcam, principalmente em Carel, uma firme postura sobre a pertinência de conceitos estruturais da língua para a construção dos sentidos.

Além disso, insistimos que nossa tese diz respeito às frases, e não aos enunciados, e que a frase é para nós uma entidade teórica – construído, logo – sem a realidade empírica, mas suscetível, através de suas ocorrências, de dar lugar a uma infinidade de enunciados. E é particularmente bem possível que a transformação em enunciado anule ou ignore certos valores argumentativos da frase. (DUCROT, 1997, p. 116, tradução nossa)10.

Visando a trabalhar suas teorias descritivas, Ducrot, Anscombre11 e Carel não negam outras teorias e/ou caminhos possíveis para estudar a língua, mas apenas escolhem e tentam se manter em um caminho: o da frase, que se localiza, claro, dentro do texto escrito. E, mesmo escolhendo a frase, sob importante influência da lógica sistemática de Saussure, Ducrot nos trouxe, outrora, uma semântica um tanto quanto pragmática, pois recorreu também a recursos relacionados aos atos de fala, a partir da Filosofia da Linguagem, em Austin, e da enunciação e do discurso, em Benveniste. “No momento da enunciação, as leis do discurso vão modificar as significações fundamentais” (DUCROT, 1988, p. 53, tradução nossa)12. Mesmo assim, Ducrot defende que há uma semântica independente da pragmática. E é no interior dessa semântica que ele e Carel se instalam, para desenvolver suas relevantes discussões sobre argumentação na língua.

Do interior dessa semântica, em que se acham os recursos argumentativos propostos por Ducrot e Carel, destacamos, para a nossa pesquisa, alguns instrumentos da microestrutura, que podem ser usados no processo de criação, de revisão estrutural e de retextualização, como: os conectores/operadores argumentativos e todas as suas formas encadeantes possíveis; a predicação; o sujeito; algumas formas verbais; instrumentos de negação etc. São esses os primeiros recursos do nosso processo de análise, pois, como já destacamos, a nossa pesquisa passa por três etapas fundamentais, e a primeira é o texto escrito, pensado a partir de uma Linguística estrutural. Só depois partimos para um viés mais discursivo e social, isto é, ideológico, até porque, conforme Carel, ir à Pragmática é sair da Linguística. A partir daqui,

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D'autre parte, nous insistons sur le fait que notre thèse concerne les phrases, et non pas les énoncés, et que la

phrase est pour nous une entité théorique – construite donc – sans réalité empirique mais susceptible, au travers de ses occurrences, de donner lieu à une infinité d'énoncés. Il est notamment tout à fait possible que la transformation en énoncé annule ou ignore certaines valeurs argumentatives de la phrase. (DUCROT, 1997, p.

116).

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Como Ducrot sempre esteve à frente dessa teoria, que depois foi abandonada por Anscombre, a maior parte do tempo utilizaremos apenas o nome de Ducrot.

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Au moment de l’énonciation, les lois de discours vont modifier les significations fondamentales (DUCROT, 1988, p. 53).

entramos, conforme bem dizemos, numa etapa de análise ideológica e, consequentemente, identitária dos sujeitos, tendo em vista especificidades levantadas nas suas produções.

Para o nosso percurso de análises, pensamos, então, em pelo menos duas entidades para discutir as produções acadêmicas: a forma da língua, isto é, a estrutura textual, enquanto recurso que se localiza no âmbito acadêmico; e o funcionamento da língua, isto é, o discurso, no sentido de uso da língua. Consoante já sustentado, para nós, o texto acadêmico só pode ganhar dimensão social depois de passar por importantes etapas de revisão e de retextualização. Logo, não há como negar que o discurso científico tem não só estreita relação com a estrutura como depende dela.

Essa dependência funciona em escala, e as escalas variam não só de universos para universos, mas de usuário para usuário. Não prestamos muita atenção nisso, mas cada palavra que escolhemos para escrever ou revisar um texto e, não só as palavras, mas a forma pela qual as empregamos, principalmente, no texto acadêmico, vêm marcadas e/ou motivadas, o que significa que a estrutura é também ideológica, conforme propõe Saussure, – apesar de a Escola, e até mesmo a academia, nem sempre levarem isso em conta. Por isso, a importância de darmos início às nossas análises a partir de aspectos estruturais, tomando por base principalmente a Teoria da Argumentação na Língua (TAL), de Ducrot e a Teoria dos Blocos Semânticos (TBS), de Carel, que, a partir principalmente de Saussure, dão relevante atenção ao sentido das palavras no texto.

Assim, para tratarmos do que vamos chamar de aspectos argumentativos do discurso acadêmico e tentarmos chegar às intenções que podem estar por detrás dos recursos linguísticos dos quais os alunos se apropriam, objetivando mostrar suas habilidades discursivas ao professor, pretendemos abranger importantes aspectos relacionados não só à estrutura do texto escrito, mas também ao sentido do enunciado, pensando e destacando, claro, recursos argumentativos.

Pode-se dizer que comunicamos por intermédio de encadeamento de enunciados, chamados de textos, que tomam a forma de instrumentos discursivos, e que, para os compreendermos melhor, precisamos fazer inferências, e, ainda, que, as principais funções dos textos podem ser: informar, discutir e, principalmente, convencer, agir sobre o outro.

Todas essas funções estão relacionadas a processos de comunicação, e são exploradas por vários teóricos, começando com Aristóteles, até chegar à contemporaneidade. Porém, duas funções das quais esses teóricos não tratam, e que, de certa forma, estão relacionadas a processos de comunicação, são aqui fundamentais: o ensino-aprendizagem e a avaliação. Grande parte dos textos que circulam socialmente é derivada de práticas associadas a instituições ou domínios sociais particulares. No caso do texto acadêmico, com as suas funções relacionadas ao ensino-aprendizagem e à avaliação, fica evidenciada a condição de instrumento da manufatura. Os sujeitos ali colocados são marcados a partir, principalmente, desses dois aspectos: o ensino-aprendizagem e a avaliação.

Pensando, portanto, a academia como a indústria do texto, para tratarmos de noções relacionadas a identidade, podemos começar nos valendo dos conflitos que Eagleton (2011) propõe referentes a sentidos para “civilização” e “cultura”. Ele traz uma reflexão histórica, na qual discute sobre a crise da civilização, reflexão esta que tem importante relação com o conceito de ideologia e, principalmente, de identidade. Contudo, para fechar o nosso referencial teórico numa perspectiva identitária, destacamos as ideias de Hall (2002), sobretudo quando ele propõe cinco “descentramentos” da identidade do sujeito na pós- modernidade.

4.1 Considerações

Nessa parte introdutória do Capítulo I, trouxemos um rápido comentário sobre importantes direções teóricas que pretendemos dar ao nosso trabalho, que se dará, sobretudo, recorrendo à argumentação na língua. Abaixo, tomamos outras perspectivas teóricas, objetivando aprofundar as discussões relativas a padrões de conhecimento, bem como sobre conceitos de formações discursivas.

No documento Academia: A indústria do texto controle de qualidade da manufatura e choques ideológicos (páginas 35-39)