Estes quadros foram considerados como marcos da memória do bairro, no sentido que estabelecem uma linha divisória convergente ao passado de luta dos habitantes. Em decorrência, revela-se a noção de pertencimento ao lugar e o sentimento identitário dos “terráqueos”, como se autodenominam os moradores da Terra Firme.

Outro aspecto importante de ressaltar nestes quadros de memória são as divergências de interpretações e as versões individuais sobre o passado. Vale ressaltar, que tais lacunas são consideradas, visto que as fontes relatoras de qualquer pesquisa oral são passíveis de lapsos e omissões. A fonte relatora é quem seleciona as lembranças a serem expostas, assim como define como estas estão relacionadas com o contexto social onde ela vive (HALBWACHS, 1994;

CANDAU, 2012; POLAK, 1989).

Isto fica claro quando se ouve relatos de dois grupos de moradores: os que participaram diretamente das lutas pela moradia – aqui denominados de moradores engajados – e aqueles que chegaram ao bairro antes destes movimentos e adquiriram seus terrenos por compra.

Percebe-se nas falas do primeiro grupo – moradores engajados – uma visão crítica da realidade.

Já no segundo grupo, a maioria não compartilha dessa percepção analítica ou interpreta esta realidade (as lutas pela moradia) de forma superficial e, por vezes, recriminatória, ao denominar os moradores do primeiro grupo de invasores.

De acordo com Candau (2012, p. 33), a lembrança verbalizada, que é a evocação da memória, não reflete a totalidade da lembrança. Isto significa que nem sempre tudo o que a pessoa relata sobre a sua história apresenta o total da sua experiência vivenciada no passado. Segundo Bloch (1995, p. 59), isso acontece em função da multiplicidade de lembranças possíveis de um mesmo acontecimento, estimulada por contextos que mudam. A lembrança verbalizada tem um escopo antropológico considerável: ela mostra que a presença do passado no presente é bem mais complexa e bem menos explícita do que meras reminiscências.

Os marcos sociais da memória coletiva do bairro da Terra Firme foram caracterizados a partir das formas de interação, estratégias e táticas de resistência e configuração de identidades dos atores sociais (feirantes e antigos moradores) que participaram da pesquisa, tendo como perspectiva o fortalecimento do sentimento de resistência e pertencimento ao lugar percebido nas suas trajetórias e experiências de vida, o que ficou claro pelas narrativas dos interlocutores.

Neste contexto, podemos verificar que dois lugares são destaques nas narrativas de memórias dos atores da pesquisa, sendo estes: as ruas e o Hortomercado. Estes espaços do bairro trazem marcas das lembranças dos moradores, nas adversidades do cotidiano vivenciadas por eles ao longo do tempo, portanto, consideramos que “a paisagem do passado de florestas e águas; o presente da rua e da lama; os movimentos sociais: as lutas pela sobrevivência; e a Feira e Hortomercado como espaços de trocas e conflitos” são os marcos de memória social identificados a partir das narrativas de seus atores sociais.

As narrativas dos moradores da Terra Firme expressam o seu apego pelo bairro, o que foi percebido quando questionados sobre o desejo de sair daquele local, todos os entrevistados foram categóricos ao afirmar que não sairiam da Terra Firme, mesmo com todas as dificuldades que ainda enfrentam. Ao acessarem e expressarem suas memórias, estes moradores trazem à tona um panorama de acontecimentos vividos e sua relação com o modo que seus atores se constituem por meio de seus percursos biográficos (BERTEUAX, 2010).

Estes acontecimentos focam na vinda destes sujeitos para o bairro, na infância vivida naquele lugar, para os que vieram crianças; na construção da moradia e a luta pela melhoria da qualidade de vida para os que vieram construir sua família no Bairro e na vida de trabalho para aqueles que passaram a atuar em vários serviços no bairro, inclusive na Feira. Para os que nasceram naquele lugar, as referências de memória pautam-se em narrativas relacionadas à infância e às vivências de brincadeiras e de trabalhos, para quem o trabalho na infância foi uma forma de crescimento pessoal, para eles, naquele tempo o espaço do bairro era propício para o brincar, pois a natureza chamava a isso no ambiente de floresta e rio.

Em suas narrativas de memória estes atores mostram o bairro da Terra Firme como “o melhor lugar para morar”. Para eles, o bairro é um lugar de vivência, experiências e aprendizado. Na tensão entre o lugar vivido e o lugar sonhado, coexistem as dificuldades do cotidiano e a resistência destes moradores, que é o principal fator de convivência e coesão, mas também de sociabilidade.

Ao identificar as paisagens de memória do bairro ou seus marcos sociais, identifica-se a representação das várias fases por que passaram seus os moradores com suas práticas cotidianas: O passado de floresta e águas; o presente da ruas e lama; os movimentos e as lutas para a sobrevivência e o Mercado e feira como espaço de trocas e conflitos. Estes marcos foram

narrados pelos moradores, quando cada um deles trouxe as suas versões acordadas de seu passado. Os lugares recebem a marca de um grupo, ou seja, presença deixa marca no lugar. Isto significa que todas as ações do grupo podem ser traduzidas em termos espaciais e o lugar ocupado pelo grupo é uma reunião de todos os elementos da vida social.

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No documento Configuração da Memória do bairro da Terra Firme: Memórias, histórias de vidas e representações do cotidiano (páginas 25-32)

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