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Difícil fazer considerações finais sobre algo que está em constante transformação, aberto, como estão a sociedade, a economia, a política, a cultura, a educação e a escola. Mas, sem dúvida, o mais importante desse percurso foi, exatamente, o distanciar da realidade, do cotidiano escolar, contudo, sem perdê-lo e lançar um olhar sobre ele. Olhar o mundo contemporâneo e pensar um possível projeto para ele, para a educação e a escola foi, em última instância, a intenção deste trabalho monográfico, acrescentando a ele a preocupação de pensar possíveis indicativos à formação dos novos sujeitos que chegam à sociedade.

A percepção de que a sociedade está profundamente diferente de outros momentos históricos nos ajuda a entender que as instituições sociais necessitam repensar seus objetivos e fins. O entendimento de que nas sociedades pré-modernas ou tradicionais o processo educativo, de certa forma, está fundado em e para princípios transcendentais, de caráter religioso, com o predomínio de um grande sujeito (Deus) como fundamento e, de que na modernidade, esses fundamentos são questionados e, igualmente na modernidade tardia, nos permite entender o caráter historial dos fenômenos humanos.

A modernidade iluminista vê também na educação/escola uma instituição importante na construção e consolidação de seu projeto. Os princípios de liberdade, emancipação e progresso assegurados pela racionalidade pressupõem a escola como um de seus grandes fundamentos. Este novo homem precisa ser formado. O indivíduo passa a ser objeto de investimento da escola. O caráter positivo do Iluminismo era ter um projeto de sociedade e de homem, consolidado por meio da educação do homem. Este não é mais um ser predestinado, mas alguém que assume seu destino que passa a ser sujeito do próprio destino.

A colonização dessa racionalidade voltada à maioridade humana pela racionalidade instrumental, afinada com a lógica produtiva, aponta também para outro projeto de educação. Esta nova configuração da sociedade industrial capitalista impõe à educação/escola a tarefa de reprodução da vida social articulada ao mundo produtivo. Evidencia-se que, tanto a racionalidade iluminista quanto à racionalidade instrumental, necessitam da educação/escola para perseguirem seus fins na formação da sociedade/homem/indivíduo afinados com o contexto historial. Assim, se reiteram e se justificam os questionamentos de se pensar uma educação/escola simplesmente afinada com a sociedade contemporânea ou pensar um projeto para uma outra sociedade. O grande desafio deste texto foi pensar sobre os fins da educação/escola, uma vez que está sob responsabilidade dos educadores e educadoras a

formação dessas novas gerações. Contudo, pensar os princípios que fundam este novo projeto de sociedade e de educação implica que, antes mesmo de pensar um projeto, uma referência, é preciso compreender como este mundo se manifesta como fenômeno humano. E Este é o grande desafio.

Entre outros fundamentos para a educação/escola, impõe-se o estreitamento das relações humanas no âmbito planetário articulando as questões de gênero, raça, etnia e religião. Esta nova referência se apresenta à educação escolar na atualidade da necessidade da ampliação da tolerância com a diversidade humana. Manifesta-se, a partir desse entendimento, a construção de um conceito de cidadania cosmopolita. Não se negam as identidades nacionais, contudo, estas devem estar articuladas de forma coerente com a abertura e o respeito aos outros, aos diferentes, e promover uma identidade ligada positivamente aos valores da paz, da tolerância e do respeito à natureza.

Dentro do contexto da modernidade tardia, impõe-se, como uma de suas prerrogativas da educação escolar do século XXI, a necessidade do constante aprender e de estar em formação. Neste sentido, os conhecimentos tradicionais, rígidos, monoculturais, característicos da modernidade, se tornam rapidamente obsoletos em contextos de rápidas e profundas transformações na sociedade. Contudo, esta nova realidade não torna inválida a perspectiva de um projeto, mesmo em tempos fluidos. Descolonizar o mundo da vida e restaurar a sociabilidade, a espontaneidade, a solidariedade das relações humanas, é dimensão da educação escolar fundada no diálogo intersubjetivo como possibilidade de entendimento humano, sempre provisório, acerca do mundo da vida.

A capacidade de conviver em grupo, de se comunicar, de abertura mental, de curiosidade, de aprender coletivamente, entre outras características comunicativas, são pertinentes no contexto da modernidade-tardia, aspectos pouco explorados pela escola fundada ainda em princípios modernos. Pensar essa educação escolar para o contexto contemporâneo, não significa liberá-las de seus fundamentos teleológicos, ou seja, é imperativo que caminhemos para algum lugar, para além do caos, da incerteza. Portanto, o sentido humano, um projeto para o ser humano, um ser humano mais humano, mais feliz, deve fazer parte de qualquer projeto de sociedade, de educação e de escola.

Um projeto que contemple a dimensão ética da educação é uma prioridade, e a formação desse sujeito ético deve ser contemplada em duplo sentido. O ambiente escolar necessita constituir-se em ambiente ético, isto é, democrático, justo, respeitoso e solidário

como um todo. Imperativo é, também, a construção de um ambiente social ético, uma vez que a escola não educa fora do contexto social. Assim, a marginalização, a violência, a corrupção e a destruição da natureza entram em choque com uma proposta de formação de cidadãos honestos, democráticos, solidários, que respeitam a natureza. Neste sentido, as identidades individuais devem estar fundadas em uma identidade coletiva num projeto, como fundamento da sociedade.

Pensar a educação e a escola, trata-se, acima de tudo, pensar a construção de uma sociedade, de um homem, de um indivíduo e, para tal, é prerrogativa um quadro referencial básico, onde ele possa se situar ao agir no mundo. É uma visão básica a respeito da natureza, do homem, da sociedade, da vida humana. E é, neste sentido, que a presente reflexão se orienta. Necessitamos de um projeto coerente, de uma referência, de uma perspectiva, sempre em construção, que possibilite ao homem e à humanidade se constituírem sempre como mais humanos, com mais humanidade, com mais solidariedade.

A compreensão da centralidade das utopias é inerente a um possível projeto para a sociedade. De certa forma, esta é a resposta que necessita ser referenciada para a construção de esperança de dias melhores para a humanidade. Se a modernidade tardia se manifesta crísica, como constatado ao longo desta reflexão, necessita, então, ser pensada. Assim, um projeto, ou seja, uma referência para a formação das identidades se justifica como possibilidade de pensar um mundo melhor, de romper com as irracionalidades, as intolerâncias, a destruição da natureza. Sem dúvida, está entre os desafios da pedagogia atual: pensar e tornar possível um projeto de educação e de escola que forme identidades para além da lógica do mercado.

REFERÊNCIAS BILBIOGRÁFICAS

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