No ensino da Teoria da Evolução a falta de embasamento teórico no exercício docente contribui para a formação de concepções equivocadas acerca do tema. As dificuldades por parte dos docentes em compreender o assunto, ocasiona a abordagem do tema Evolução de forma obscura e errônea levando os estudantes a formarem concepções equivocadas.
Podemos afirmar que o desvio entre a formação inicial e a atuação docente, prejudica negativamente o processo de ensino e aprendizagem, como apontam Carvalho e Gil-Pérez (2011).
Concepções criacionistas sobre a origem da vida consistem em dificultar o ensino da teoria da Evolução, a religiosidade, sobretudo, limita ainda mais a abordagem do tema ao impedir as discussões sobre a origem
Revista Exitus, Santarém/PA, Vol. 7, N° 3, p. 172-196, Set/Dez 2017.
192
da vida a partir de diferentes perspectivas. A falta de compreensão acerca do sistema de teorias evolutivas favorece a sua não aceitação.
Percebemos que os conteúdos são passados para os estudantes superficialmente, apenas com o intuito de se trabalhar os assuntos determinados nos livros didáticos seguindo um limite de tempo. Dessa forma, a aprendizagem do estudante é comprometida, diante da abordagem inapropriada dos conteúdos de Evolução por parte dos professores que promovem um ensino abstrato e de difícil compreensão para os estudantes.
A falta de recursos na escola é um fator que contribui com a predominância das aulas expositivas, sendo esse um motivo bastante questionado pelos professores. Porém, aproveitando os recursos disponíveis ao seu redor, 10 dos professores entrevistados buscam melhorias no ensino de Evolução, através da utilização desses recursos, desde a preparação das aulas, até o momento em que são ministradas.
Indicamos baseado neste estudo que a teoria da Evolução é de fato pouco compreendida pelos docentes, e a fragmentação do ensino pode ser evitada ao trabalhar a Evolução como um tema unificador dos conteúdos de ciências.
Conforme os Parâmetros Curriculares Nacional, no ensino fundamental devem ser considerados pelos estudantes a existência dos fósseis e os processos de formação destes, e ainda o conhecimento sobre as formas de vida extintas e outras muito antigas ainda existentes (BRASIL, 1998).
É importante que o aluno perceba através de incentivos do professor, a existência de mudanças evolutivas em todo o planeta, conhecendo sobre a grande variabilidade das populações, e compreendendo como a seleção natural atua. Em alguns casos, a seleção natural pode ser estudada por meio de vantagens adaptativas, a exemplo da camuflagem de algumas espécies no ambiente, sendo uma característica bastante evidente (BRASIL, 1998).
Conforme Bizzo e El-Hani (2009) resultados de estudos nacionais e internacionais acerca do ensino da Teoria da Evolução apontaram que os
Revista Exitus, Santarém/PA, Vol. 7, N° 3, p. 172-196, Set/Dez 2017.
193
estudantes ao fim da educação básica, possuem um conhecimento sobre Evolução de forma bastante restrita. Para os autores, além do enfoque histórico necessário para que se desenvolva um verdadeiro entendimento sobre a Teoria da Evolução, o cuidado para que o tema não seja abordado apenas ao final da educação básica, evita a abordagem imprópria que deixa de cumprir o papel integrador efetivo no conhecimento biológico.
Para que sejam alcançados os objetivos do processo de ensino-aprendizagem é necessário que exista uma área para as discussões do pensamento científico que é solicitada pela Teoria da Evolução, e também do pensamento teológico, que resgata assuntos históricos da sociedade, por isso é imprescindível que o professor se prepare minuciosamente, estudando a fundo o tema Evolução (MARQUES, ANJOS e BRANDÃO, 2012).
Estas conclusões indicam a necessidade de intervenções no âmbito educacional, através da formação continuada de professores, para minimizar a problemática observada, contribuindo para a construção do conhecimento científico sobre a Teoria da Evolução e o maior diálogo entre as concepções dos estudantes e o conhecimento ensinado.
Novas estratégias de abordagem em sala de aula tem sido objeto de estudo para Bizzo, Sano e Monteiro (2016), com a finalidade de que sejam pensadas novas possibilidades para o ensino da Evolução no arranjo curricular da educação básica, apresentando contribuições para o posicionamento ativo dos estudantes frente a temas polêmicos como este.
Na abordagem dos autores, a partir de acontecimentos históricos são criadas condições para que ocorra discussão ativa dos estudantes sobre o estatuto do conhecimento científico, o desenvolvimento de habilidades investigativas, a compreensão do método científico e a capacidade de posicionamento crítico diante de temas controversos.
Além das dificuldades para o ensino de evolução, expressas nos relatos dos docentes como, o engessamento do currículo, ou seja, a obrigatoriedade no cumprimento dos temas previamente estabelecidos, os problemas relativos à complementação de carga horária que coloca
Revista Exitus, Santarém/PA, Vol. 7, N° 3, p. 172-196, Set/Dez 2017.
194
docentes para lecionar disciplinas distintas da sua área de formação, a falta de compreensão das teorias evolutivas, os dados representam uma espécie de fotografia do ensino de Evolução sob o olhar dos professores da rede pública do ensino fundamental II de Senhor do Bonfim, BA. No entanto, esse retrato pode ser observado também em outras realidades do interior do país, especialmente no estado da Bahia. Ao observar os dados da avaliação do PISA (2015) sobre a proficiência em ciências, observa-se que a Bahia é o penúltimo entre os estados da federação (BRASIL, 2016). Isso revela a importância de estudos dessa natureza para produzir diagnósticos situacionais, orientar propostas de formação continuada e estimular o desenvolvimento de políticas educacionais, entre outras ações.
REFERÊNCIAS
ANDRADE, R. M. História das Concepções sobre a Origem do Universo. São Paulo: Moderna, 1994.
BIZZO, N. M.V. Ciências: Fácil ou Difícil? 2. ed. São Paulo: Ática. 2002.
BIZZO, N. M. V. Ensino de Evolução e História do Darwinismo. Tese (Doutorado). Universidade de São Paulo - Faculdade de Educação - São Paulo: 1991.
BIZZO, N.; EL HANI, C. O arranjo curricular do ensino de evolução e as relações entre os trabalhos de Charles Darwin e Gregor Mendel. Filosofia e História da Biologia, v. 4, p. 235-257, 2009.
BIZZO, N. M. V.; SANO, P. T.; MONTEIRO, P. H. N. Registros escritos do conhecimento mútuo entre Gregor Mendel e Charles Darwin: uma proposta para trabalho em sala de aula com história contrafactual da ciência e didática invisível. Genética na Escola, v. 11, p. 294-309, 2016.
BRANCO, S. L. Evolução das espécies: o pensamento científico, religioso e filosófico. 2. ed. São Paulo: Moderna, 2004.
BRASIL, Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Ciências Naturais. Brasília: MEC /SEF, 1998.
BRASIL no PISA 2015: Análises e Reflexões sobre o desempenho dos estudantes brasileiros/OCDE Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico. Fundação Santillana, São Paulo. 2016.
Disponível em
http://download.inep.gov.br/acoes_internacionais/pisa/resultados/2015/pisa 2015_completo_final_baixa.pdf. Acessado em: 17/04/2016
Revista Exitus, Santarém/PA, Vol. 7, N° 3, p. 172-196, Set/Dez 2017.
195
CAMPOS, L. M. L.; BORTOLOTO, T. M.; FELÍCIO, A. K. C. A produção de jogos didáticos para o ensino de ciências e biologia: uma proposta para favorecer a aprendizagem. Caderno dos núcleos de Ensino, v. 3548, 2003.
CARNEIRO, A. P. N. A evolução biológica aos olhos de professores não-licenciados. 2004. 119 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Centro de Ciências da Educação, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2004.
CARVALHO, A. M. P. GIL-PÉREZ, D. Formação de professores de ciências:
tendências e inovações. 10. ed. São Paulo: Cortez, 2011.
DAMACENO FILHO, A. R.; GÓES, L. M.; ROCHA, L. B. Distorção entre a formação e atuação do licenciado em Geografia nas escolas públicas de Itabuna (BA). Geografia (Londrina), Londrina, v. 20, n. 1, p. 129-145, jan./abr.
2011.
FUTUYMA, D. J. Evolução, ciência e sociedade. In: Congresso Nacional de Genética. Ed. Exclusiva. São Paulo: SBG. 2002.
GATTI, M.; ANDRÉ, M. Pesquisa A relevância dos métodos de pesquisa qualitativa em Educação no Brasil. In: WELLER, W.; PFAFF, N. Metodologia da Pesquisa Qualitativa em Educação: Teoria e Prática. 2ª ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 336p. 2011
KRASILCHIK, M. O professor e o currículo das ciências. São Paulo: Editora Pedagógica e Universitária, 1987.
KRASILCHIK, M. Prática de ensino de biologia. 4 ed. São Paulo: EdUSP, 2008.
MARCONI, M. de A.; LAKATOS, E. M. Técnicas de pesquisa: planejamento e execução de pesquisas, amostragens e técnicas de pesquisa, elaboração, análise e interpretação de dados. 7 ed. São Paulo: Atlas, 2010.
MARQUES, C. S.; ANJOS, M. B.; BRANDÃO, M. I. O. Criacionismo ou evolucionismo? A teoria da evolução das espécies em debate no ensino de ciências. Ensino, Saúde e Ambiente, v. 5, n. 2, 2012.
MARTINS, R. P.; SANTOS, F. R.; COUTINHO, F. A. As dificuldades na compreensão do sistema de teorias evolutivas. Ciência em Tela. Vol. 5, número 1, 2012.
MAYR, E. Biologia, ciência única. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
MEYER, D.; EL-HANI, C. N. Evolução: o sentido da biologia. Unesp, 2005.
MONOD, J. L. A Propósito da Teoria Molecular da Evolução. In: HARRÉ, R.
(Org). Problemas da revolução científica: incentivos e obstáculos ao progresso das ciências. Itatiaia - SP: EDUSP, p. 27-40. 1976.
RIBEIRO, R. A.; SANTOS, R. S. O processo de formação de professores de Biologia e a interferência das tecnologias e mídias no ensino de Genética e Biologia Molecular. ScireSalutis, Aquidabã, v.3, n.1, p.49-61,2013.
SANTOS, K. A.; CICILLINI, G. A. Concepções de Professoras sobre o Ensino de
Revista Exitus, Santarém/PA, Vol. 7, N° 3, p. 172-196, Set/Dez 2017.
196
Ciências nas Séries Iniciais do Ensino Fundamental. Ensino em Re-Vista, v.11, n.1, jul.2002/jul.2003. 43-67. 2004.
SILVA, P. R.; ANDRADE, M. A. B. S.; CALDEIRA, A. M. A. Concepções de professores de Biologia a respeito da diversidade dos seres vivos: uma análise, considerando o desenvolvimento histórico das ideias evolucionistas.
In: BASTOS, F. org. Ensino de ciências e matemática III: contribuições da pesquisa acadêmica a partir de múltiplas perspectivas [online]. São Paulo:
Editora UNESP; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2010. p. 147-167. Disponível em: <http://books.scielo.org/id/3nwyv/pdf/bastos-9788579830860-08.pdf>.
Acesso em: 15 jan. 2015.
WELLER, W.; PFAFF, N. Pesquisa Qualitativa em Educação: origens e desenvolvimento. In: WELLER, W.; PFAFF, N. Metodologia da Pesquisa Qualitativa em Educação: Teoria e Prática. 2ª ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 336p.
2011.
Recebido em: Março de 2017 Aceito em: Junho de 2017