O facto de a adolescência, enquanto período de intensa modificação, estar sobretudo associada, por razões que se prendem com as represen- tações ideológicas e normativas que as próprias ciências sociais também ajudaram a cimentar, a um processo biológico e psicológico de amadu- recimento sexual do corpo e da mente, constituiu o ponto de partida para a discussão levada a cabo neste texto. Procurámos aliás sustentar, criticando os preconceitos que a categoria evoca, a sua natureza eminen- temente social e cultural. O objectivo era o de resgatar a adolescência como objecto sociológico, alinhando alguns dos principais traços analí- ticos para a sua abordagem téorica e empírica. Da sua exposição ressal- tam, pois, duas notas que nos parece valer a pena voltar a sublinhar.
Uma primeira nota remete para a questão de a adolescência, enquanto processo de transformação individual, interpelar (desafiando equilíbrios) os grupos sociais onde o sujeito se insere. Tentámos argumentar, com efeito, que o processo de transformação do corpo, por muito relevante que seja para o desenvolvimento da psique do sujeito tomado individual- mente, se reflecte também na reformulação das relações sociais em que o jovem participa, com especial destaque para as familiares. Relações essas que, é preciso não esquecer, são influenciadas por modelos de relaciona- mento familiar, subsidiários de padrões éticos e normativos a que não são alheios os recursos simbólicos e materiais disponíveis, em combinações mistas de elementos culturais mais democráticos e orientados para a au- tonomia e/ou mais autoritários e virados para a conformação. Já do ponto de vista do processo de reformulação ele próprio, é importante reter a ideia de que o corpo (e o seu estado de maturação) despoleta representa- ções sociais nos outros com quem o sujeito interage, intervindo na forma como são geridas expectativas recíprocas, e na resposta que se dá ao outro na interacção: de criança (ser que, não obstante ser-lhe reconhecido um cada vez maior protagonismo, é visto como um ser eminentemente frágil e indefeso que cumpre cuidar e proteger), a adulto (de quem se espera um comportamento maduro e responsável), passando pelo adolescente ou jovem (sujeito em formação, vivendo um estádio transitório, ambíguo e potencialmente irreverente da existência). Por outro lado, reforçar a ideia de reformulação das relações desencadeada pelo processo, em família, de crescimento e amadurecimento de um dos seus membros, evoca igual- mente a potencial permeabilidade de todos os actores implicados num sistema de relações: à medida que as relações mudam, podem pois de forma mais ou menos extensa recompor-se identidades, representações e
práticas, integrando elementos da experiência do outro, assim reiterando a multilateralidade dos fluxos de transmissão cultural que modelos mais democráticos de relações intergeracionais permitem e fomentam.
Realçada importância da família é, todavia, necessário lembrar que a experiência dessa transformação biológica, involuntária nos seus calen- dários e ritmos, mas que não deixa de legitimar as negociações e reivin- dicações de liberdade, independência e autonomia da família (no que já participa a agência do sujeito) é, por seu turno, acompanhada por um processo de abertura ao mundo e aos outros. De facto, a desafiliação re- lativa da família, que parece ser necessária para que nela se possa assumir o estatuto de indivíduo, mitigando hierarquias estatutárias e transfor- mando representações da alteridade, implica muitas vezes que se bus- quem novas instâncias de validação e reconhecimento identitário, o que merece um segundo apontamento conclusivo. Com efeito, não raras vezes essas instâncias são os pares, outro eixo da rede de relações sociais juvenis que emerge assim como fundamental na análise e compreensão da experiência da adolescência e juventude. Na verdade, a abertura ao mundo, processo que, como argumenta Breviglieri (2007), implica uma multiplicidade de desafios e provas (institucionais e relacionais) – que aliás transformam os espaços e tempos onde se inserem os jovens pro- gressivamente em espaços e tempos probatórios – confere ao eu que se constrói e experimenta um carácter hesitante e vulnerável. Um eu espe- cialmente necessitado, por isso, de abrigos relacionais (onde se pode sen- tir integrado, num quadro de experiência partilhada), mas também par- ticularmente sensível às pressões para a filiação e uniformização grupal. Mesmo atendendo ao facto de a diversidade social (de contextos e de re- cursos) fazer variar as suas configurações empíricas, a adolescência parece ser, antes de mais, um processo social de transformação individual, que pode gerar com alguma frequência, e pelas razões que enunciámos, ten- sões e sofrimentos a diferentes níveis e escalas. Estes decorrem da inten- sidade e densidade da própria experiência e da efervescência existencial que resulta de um eu em teste constante. De qualquer maneira a adoles- cência não implica, necessariamente pelo menos, rupturas e descontinui- dades nos vários planos relacionais (que se vão ajustando processual- mente através das interacções, com mais ou menos tensões, aos novos perímetros da individualidade).
Em suma: ao abordar a adolescência está em jogo, sobretudo, um pro- cesso complexo, hesitante e relacional de individuação. E a individuação é, sem qualquer sombra de dúvida, um objecto de inegável nobreza e re- levância sociológica.
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