2. ACESSO À JUSTIÇA: DELIMITAÇÃO DO TEMA

3.1 Considerações históricas

Em França, as instituições judiciárias carregam herança histórica de desconfiança, por parte da população e do próprio governo. Durante o Antigo Regime, o título de magistrado dos parlamentos era vendido pelos reis a senhores feudais, privilégio que atribuía diversos poderes, dentre eles o de distribuir a justiça com completa autonomia, originando comportamentos arbitrários. Os reis teriam encontrado grande dificuldade em resgatar a autoridade de julgar, diante do forte movimento dos magistrados em busca de independência política e de manutenção dos privilégios. Caenegem (1965, p. 141) esclarece que a crise do antigo sistema judiciário foi uma crise europeia que se manifestou em diversos países e na igreja latina. 18A própria dualidade de jurisdição, tão típica do sistema jurisdicional francês, encontra raízes nessa intrincada relação, como esclarecem GUINCHARD et al (2009, p. 106- 107):

A dualidade de ordens jurisdicionais se vê classicamente ligada, como fundamento jurídico, a dois textos do período revolucionário: - a lei de 16 e de 24 de agosto de 1790, cujo artigo 13 do título primeiro dispõe: as funções judiciais são distintas e serão sempre separadas das funções administrativas. Os juízes não poderão de nenhuma maneira, sob pena de multa, perturbar as operações do corpo administrativo nem citar os administradores em razão de suas funções ;

- o decreto de 16 frutidor ano III (02 de setembro de 1795), segundo o qual proibições terminantes são feitas aos tribunais de conhecer dos atos da administração, qualquer que seja sua espécie, sob as penas da lei . Constata-se que este texto, cuja intenção é renovar a proibição do texto do início de 1790 – não perturbar o funcionamento da Administração, não chamar ao pretórios dos tribunais judiciários as autoridades administrativas – vai em realidade além de uma fórmula

18 No original La crise de l ancien système judiciaire a été une crise européenne qui s est manifestée dans de

muito mais extensiva, proibindo os tribunais judiciários de conhecerem os atos da administração (tradução nossa). 19

A persistência do desgaste das relações entre o governo, a população e o Poder Judiciário na França pode ser ilustrada, por exemplo, por notícia divulgada pelo jornal Le Monde em 08 de fevereiro de 2011. Noticiou-se ali a deflagração de um movimento de greve pelos magistrados de Nantes em razão do descontentamento quanto ao pronunciamento do Presidente Sarkozy, que pontuou a necessidade de o Poder Judiciário assumir parte da culpa pela morte da jovem Laetitia Perrais, assassinada por um reincidente. Juízes de outros departamentos aderiram à greve mesmo diante de proibição legal, tendo a própria Corte de Cassação considerado aderir ao movimento.20Em 19 de maio de 2011, foi aprovado pelo Senado um projeto de lei, a despeito de grande resistência do Poder Judiciário, que tem por objetivo a aproximação entre justiça e população, a partir da modificação de regras processuais penais para ampliação do rol de delitos a serem julgados por júri popular.21

Identifica-se, desse modo, certa tensão entre governo e justiça, não correspondente a um sinal de crise, mas sobretudo da vivacidade dos debates

19 No original La dualité des ordres de juridictions se voit classiquement assigner comme fondement juridique

un couple de textes de la période révolutionnaire: - la loi des et aôut , dont l article du titre er dispose les fonctions judiciaires sont distinctes et demeureront toujours séparées des fonctions administratives. Les juges ne pourront, à peine de forfaiture, troubler, de quelque manière que ce soit, les opérations des corps admnistratifs, ni citer devant eux les administrateurs pour raison de leurs fonctions - le décret du fructidor na III, septembre , selon lequel Défenses itératives sont faites aux tribunaux de connaître des actes d administration, de quelque espèce qu ils soient, aux peines de droit . On constate que ce texte, qui ne prétend que renouveler l interdiction du texte de principe de – ne pas perturber le fonctionnement de l Administration, ne pas appeler au prétoire des tribunaux judiciaires les autorités administratives – va en réalité au-delá par une formule beaucoup plus extensive, en interdisant aux tribunaux judiciaires de connaître des actes d administration .

20 LE MONDE. Les magistrats, en colère contre Nicolas Sarkozy, se mobilisent . fev. . Disponível em <http://www.lemonde.fr/societe/article/2011/02/07/revolte-des-magistrats-marc-trevidic-s-en-prend- a-nicolas-sarkozy_1476077_3224.html>. Acesso em: 21 jun. 2011.

21 LE MONDE. Le Sénat adopte le projet de loi sur les jurés populaires en correctionnelle . mai. . Disponível em <http://www.lemonde.fr/politique/article/2011/05/19/le-senat-adopte-le-projet-de-loi- sur-les-jures-populaires-en-correctionnelle_1524571_823448.html>. Acesso em: 22 jun. 2011.

políticos que são igualmente um traço cultural do país. A construção jurídica francesa encontra-se diretamente ligada ao poder criativo dos juízes bem como, paradoxalmente, à sua repressão e às superações que o sistema judiciário tem engendrado. A clássica divisão das famílias do direito ocidental em países de common law e países de civil law permite se proceda à sistematização muito geral das linhas de pensamento jurídico adotadas. A França, com suas bases jurídicas fincadas no sistema romano-germânico, posteriormente influenciada pelo direito canônico, é considerada um país de civil law, ou melhor, de droit civil.

A origem dessa construção pode ser encontrada nas escolas francesas as quais, influenciadas pelo humanismo, promoveram, a partir do século XVI, o resgate das bases do direito romano. Buscavam, assim, identificar o sentido original do Corpus Iuris Civili, propugnando a compreensão histórica e contextualizada dos textos normativos da época. Esse movimento seria determinante para a introdução dos estudos do direito romano na universidade, como parte integrante da formação do jurista. Essa proposta, porém, que exigia do jurista ampla formação humanística, da filosofia à literatura, criou uma cultura jurídica fincada na histórica e no contexto romano, ao passo que o ensino nas universidades se dissociava da prática.

Legeais pontua, porém, que também outro elemento, novo, surgiu no cenário jurídico francês a partir do século XVI. Os mais notáveis magistrados dos parlamentos, com todo o poder e independência que receberam, passaram a elaborar tratados e leis civis, com base nos costumes das regiões por onde estendiam suas jurisdições. De acordo com Legeais (2005, p. 27), eles reconheciam uma grande liberdade de elaborar suas decisões, e sua jurisprudência contribuirá muito para a formação do que

pareceria ser, para as veias da Revolução, o direito comum da França (tradução nossa).22 Foi justamente tal elemento criativo, tão próprio do common law, que conduziu a França, dois séculos depois, à definição jurídica que lhe atribuiu a condição de verdadeiro sistema jurídico, dotado de princípios próprios e peculiaridades que influenciaram vários outros países.

A Revolução Francesa, a despeito de todo o derramamento de sangue quelhemarcou, exerceu o papel da ruptura, da abolição dos privilégios (em especial os dos magistrados), da instauração de uma nova ordem com a proclamação de princípios reitores do novo Direito. O Império se apropriou dessa ruptura para criar sua própria marca. A codificação representava o fim do poder dos juízes, que se limitariam a aplicar o texto da lei, a previsibilidade do futuro após um período traumático de incertezas inaugurado pela Revolução, também a grandiosidade do país, capaz de tudo regrar e de tudo controlar,e, por fim, a vitória da racionalidade e do pensamento dedutivo. Em síntese, a unidade do direito na França deve-se à Revolução e ao Império, os dois regimes concorrendo indivisivelmente para esta unidade, a Revolução trazendo novos princípios, Napoleão Bonaparte realizando uma notável codificação (LEGEAIS, 2005, p. 29, em tradução nossa). 23

Ao célebre Código Civil de Napoleão seguiu-se, em 1806, o Código de Processo Civil que, embora não representasse grande inovação na ordem jurídica interna, influenciaria diversos outros países na Europa continental. A tradição privatista do período pós-Revolução levaria o Processo Civil francês a ser classificado como ramo do direito privado. Longe de atingir a magnitude do Código Civil, era

22 No original Ils se reconaissaient une grande liberté pour élaborer leurs décisions et leur jurisprudence

contribuera beaucoup à la formation de ce qui pouvait apparaître à la veille de la Révolutions comme le droit commun de la France .

23 No original L unité du droit en France est due à la Révolution et à l Empire, les deux regimes ayant

concouru indivisiblement à cette unite, la Révolution apportant des príncipes neufs, Bonaparte-Napoléon réalisant une remarquable codification.

considerado um diploma legislativo confuso, em grande parte baseado no código anterior (Code Luis). Segundo Rhee, a decisão de adotar códigos semelhantes ao francês era muito antes política, de modo a serem abandonados pouco após a queda de Napoleão, a exemplo da Itália, ou aperfeiçoados, como ocorreu na Bélgica (2006, p. 129 e seg.).

Também Rhee verifica, ao realizar um estudo comparativo entre Bélgica e França, que a celeridade não era um ponto forte do código de processo napoleônico, o que levaria a Bélgica a reduzir as oportunidades de uso da oralidade e a extinguir o recurso de apelação contra decisões interlocutórias (RHEE, 2006, p. 164).24 O código napoleônico sofreu diversas alterações a partir de 1935 até que, em 1973, uma sucessão de decretos o reformulou substancialmente, levando ao abandono da concepção do processo enquanto um combate judiciário perante um juiz neutro (LEGEAIS, 2005, p. 350, em tradução nossa). O novo Código de Processo Civil foi promulgado pelo decreto 75-1123 de 1975, embora continuasse em vigor parte do antigo código napoleônico. Foi somente em 2007 que ocorreu a derrogação, consagrando-se o código de 1975 como o novo Código de Processo Civil da França, único em vigor no país. A morosidade e os demais problemas ligados ao acesso à justiça são uma realidade que, em geral, também acomete a Justiça francesa, conforme atestarão as reclamações ajuizadas no Tribunal Europeu (em especial, Satonnet contra a França e S.M. contra a França), tanto que conduziu ao aperfeiçoamento da sistematização das normas processuais civis, consolidadas em um único diploma a partir de 2007.

24A solução da justiça belga, óbvia em relação à irrecorribilidade imediata das decisões interlocutórias, parece bastante surpreendente no que tange ao processo oral, uma das fórmulas da celeridade da Justiça do Trabalho no Brasil. Indício, talvez, de que não tanto a oralidade, mas a informalidade, contribua para o desenvolvimento de um processo em tempo razoável.

No documento Acesso à justiça na França e no Reino Unido: perspectiva comparada no Tribunal Europeu de Direitos do Homem (páginas 58-64)