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Considerações sobre o interno e o externo

2 A ÓTICA DA GUERRA

3.2 DESENVOLVIMENTO

5.2.1 Considerações sobre o interno e o externo

Quando nos voltamos para a contraposição ao terrorismo, a origem do fenômeno – tomado no sentido de “onde” ele veio (origem dos perpetradores) e “contra quem” ele estaria voltado (vítimas das ações e local do ato em si) – tem sido um elemento de destaque constante nas considerações desenvolvidas. No esforço empreendido pelos diversos órgãos envolvidos no combate ao terrorismo, este parâmetro possui elevada importância, pois determinaria como as ações se desenvolveriam, os limites de sua esfera de competência, a legislação que seria a considerada como válida, a jurisdição de atuação, etc. As expressões terrorismo doméstico e terrorismo transnacional ou internacional seriam as comumente empregadas para estabelecer a distinção do “onde” e do “contra quem” a que nos referimos.

Os conceitos utilizados por Enders, Sandler e Gaibulloev sintetizariam a forma como estas duas expressões têm sido empregadas:

Terrorismo doméstico é oriundo do local onde se encontra quando o local, o alvo e os perpetradores são todos do mesmo país92.

[...] Se a nacionalidade dos perpetradores difere de uma ou mais vítimas, então o ataque terrorista é transnacional. Além disso, um ataque é transnacional quando a nacionalidade das vítimas difere do país local. Se terroristas atravessam uma fronteira internacional para perpetrar seu ataque, então o incidente é transnacional. Ataques terroristas contra diplomatas estrangeiros constituem terrorismo transnacional. Além do mais, eventos terroristas que comecem em um país, mas terminam em outro (e.g. sequestros de voos internacionais) são incidentes terroristas transnacionais. Se um ataque terrorista visa uma organização internacional ou peace keepers internacionais, isto é um incidente terrorista transnacional (ENDERS; SANDLER; GAIBULLOEV, 2011, p. 321, tradução nossa).

Quando aplicamos estes conceitos a situações práticas, toda a complexidade do terrorismo emerge. Por exemplo, de 11 de setembro de 2001 até setembro de 2010 foram identificados 40 planos ou ataques violentos de origem “jihadista”93 dentro dos Estados Unidos, que foram conduzidos ou planejados por cidadãos estadunidenses, residentes legais permanentes ou visitantes amplamente radicados no país (BJELOPERA; RANDOL, 2010). Todos estes eventos seriam considerados como terrorismo doméstico, caso não houvesse vítimas estrangeiras. Como compreender, confrontar e prevenir estas ações sem levar em consideração as diversas e complexas componentes externas que envolvem a proposta de

92 O termo homegrown foi traduzido como “oriundo do local onde se encontra”. O texto original é: “Domestic

terrorism is homegrown in which the venue, target, and perpetrators are all from the same country”.

93 Mantivemos o mesmo termo usado pelos autores do documento: jihadist. “O termo jihadista descreve

indivíduos radicalizados que usam o Islã como justificativa ideológica e/ou religiosa para sua crença de estabelecer um califado global, ou jurisdição governada por líder muçulmano civil e religioso, conhecido como califa” (BJELOPERA; RANDOL, 2010, p. 1, tradução nossa).

criação de um califado que unificaria a Península Arábica, por exemplo? Embora haja uma terminologia que distinga o terrorismo doméstico do internacional, como dissociar tais componentes?

Enders, Sandler e Gaibulloev defendem que o terrorismo internacional não poderia ser entendido de forma isolada e que haveria uma correlação entre o terrorismo doméstico e o transnacional:

[...] Esta correlação cruzada [entre terrorismo doméstico e internacional] indica que os eventos terroristas são inter-relacionados não apenas contemporaneamente, mas também em termos de eventos passados. A influência em alguns casos desaparece lentamente. Assim, o terrorismo doméstico não pode ser tratado como um problema isolado (ENDERS; SANDLER; GAIBULLOEV, 2011, p. 335, tradução nossa).

Dada a intensa interconexão entre estas duas categorias – essencialmente regidas por critérios de nacionalidade –, consideramos que a mera distinção entre terrorismo doméstico e internacional ofereceria uma dimensão limitada para os efeitos de contraposição ao terrorismo. Na verdade, o uso de critérios assentados no Estado de origem do perpetrador e das vítimas (nacionalidades) tenderia a separar os movimentos em eminentemente internos ou externos, o que limitaria a abordagem do fenômeno – a construção de uma problemática torcida. As causas94 adotadas pelos empreendedores do terrorismo cada vez mais incorporam elementos antissistêmicos – a Al Qaeda e suas diversas ramificações do tipo franchising seriam os mais notórios exemplos desta prática – e a ênfase no parâmetro da nacionalidade ofereceria uma visão distorcida ou incompleta, que sugeriria afirmar, por exemplo, que o terrorismo internacional é um fenômeno religioso, especificamente muçulmano.

Como destacado por Peter R. Demant, duas percepções ideológicas seriam necessárias (mas não suficientes) para que o limite de violência exigido na prática de uma estratégia terrorista fosse rompido, aquilo que ele considera como push factor95:

(1) A percepção do próprio grupo identitário – seja ele religioso, étnico ou de classe – como sendo vítima de injustiça e correndo risco iminente - ou seja, o complexo de vítima; e (2) a percepção da presença de um grupo de

94 O termo “causa” foi aqui empregado no sentido de argumento, aspiração ou proposta que o terrorista

apresenta para influenciar, controlar e mobilizar a população em que busca apoio. Para um maior detalhamento das necessidades de uma causa para uma rebelião, observar GALULA, 1966, p. 28-52.

95 Para Peter R. Demant haveria dois tipos de fatores que seriam necessários aos grupos que optam pelo

terrorismo: os fatores de pull e de push. Os fatores de pull seriam os elementos conjunturais necessários, mas não suficientes, para estimular a opção. Este fator seria oferecido, atualmente, pela globalização: “Onde quer que se encontre o cocktail globalizado de precondições, qualquer grupo pequeno, mas decidido, pode causar estragos desproporcionais. A globalização providencia um quadro de fatores pull (estimulantes), condições necessárias, mas não suficientes” (DEMANT, 2010, p. 351). Os fatores push seriam aqueles que ofereceriam a “justificativa” para o rompimento do limiar violento. No caso específico dos movimentos religiosos radicais, eles seriam dotados daquilo que ele considera como “superavit ideológico”, que ofereceria o impulso necessário a esta transição.

opressores que podem e devem ser punidos e cuja culpabilidade os tira da

humanidade comum – ou seja, a desumanização do alvo (DEMANT, 2010, p. 354).

Embora hodiernamente estas percepções sejam preenchidas pelos grupos radicais islâmicos com uma maior frequência, ao longo da história estes mesmos elementos estiveram presentes em realidades locais de diversos outros grupos não religiosos, como: nacionalistas, radicais seculares, racistas, etc. Estas percepções ideológicas não seriam uma exclusividade dos muçulmanos radicais. Ao contrário, este seria apenas o segmento que primeiro teria atingido um fictício “ponto de fervura” na opção pelo uso da violência, em uma conjuntura que hoje possuiria amplitude global.

De volta à questão do doméstico versus internacional, nossa proposta seria de uma abordagem segundo outra problemática, que não descarta, mas minimizaria a questão das nacionalidades individuais. Colocamos o Estado como a referência das ações empreendidas pelos praticantes do terrorismo. Este ponto de vista levaria em conta o caráter insurrecional do terrorismo como conflito irregular – desenvolvido no primeiro Capítulo deste estudo. Sob este ângulo, apresentar-se-iam duas situações ao Estado. A primeira seria quando determinado Estado representa o propósito direto da ação terrorista. Nesta situação, o grupo terrorista buscaria assumir o controle deste Estado e todas as suas ações encontrar-se-iam voltadas para este fim. A angariação de adeptos ocorreria primordialmente dentro dos limites nacionais. A sua população seria o alvo que a onda de terror buscaria influenciar e acumular massa crítica para viabilizar a assunção do poder. O tipo ideal desta modalidade ocorreria em processos separatistas ou revolucionários em que os grupos confrontadores do Estado encontrar-se-iam no interior de suas fronteiras. Seria aquilo que David Galula considerou como Rebelião:

[...] uma rebelião é uma luta prolongada, levada a efeito metodicamente, paulatinamente, a fim de se alcançar objetivos intermediários específicos que levem finalmente à derrubada da ordem vigente [...].

Há uma assimetria entre os lados opostos em uma guerra revolucionária. Resulta esse fenômeno da própria natureza da guerra, da desproporção entre os oponentes no início, e da diferença em essência entre seu ativo e seu passivo (GALULA, 1966, p. 16-17).

Nestes casos, o Estado aplicaria toda a sua capacidade mobilizadora com o propósito de uma estabilização interna – uma verdadeira disputa pela “fé” da população – e a força militar seria demandada a transcender sua mera aplicação como elemento repressor ou de violência. O emprego dos corpos militares se daria mais como representação, presença e vontade do Estado do que mero elemento de combate. Embora seja um conflito, a vontade se apresentaria como fator preponderante à violência:

Na guerra revolucionária, a situação é outra. Sendo o objetivo a própria população, as operações destinadas a conquistá-la (para o rebelde) ou mantê- la ao menos passiva (para o contra-rebelde) (sic) são de natureza essencialmente política. Nesse caso, por conseguinte, a ação política conserva a preponderância durante todo o transcurso da guerra. Não basta ao govêrno (sic) estabelecer metas políticas, determinar a extensão da fôrça (sic) militar a ser aplicada, firmar ou romper alianças; a política torna-se um

instrumento ativo de operação. E tão complexa é a interação entre as ações políticas e militares que elas não podem ser claramente separadas entre si; pelo contrário, todo lance militar tem de ser considerado com relação aos seus efeitos políticos, e vice-versa (GALULA, 1966, p. 20).

Friedrich Heydte possui entendimento semelhante, ao afirmar que “É na guerra irregular que a conexão entre guerra e política aparece mais nítida; a guerra irregular é, num certo sentido, a guerra do político não a guerra do soldado” (HEYDTE, 1990, p. 39), da mesma forma que Warren Chin, ao considerar que “a vitória em guerras irregulares96 dependem mais da ação política e psicológica do que da aplicação do poder militar” (CHIN, 2003, p. 69, tradução nossa). Ou seja, em uma situação limite em que as Forças Armadas se vissem como responsáveis pela coordenação nacional das forças de segurança, as expertises exigidas dos chefes militares não estariam circunscritas aos conhecimentos técnicos necessários ao enfrentamento militar clássico. Pelo contrário, exigiriam profunda sincronia e entendimento com o exercício político – a lógica de eliminar o inimigo, vigente em um combate clássico, teria muito pouca valia no campo de disputa da guerra irregular. Acomodações de conduta equivalentes seriam necessárias às tropas, que seriam confrontadas com a necessidade de exercer estreita interação com a população, sob uma ótica não repressiva ou violenta.

Nesse sentido, as considerações de Robert Thompson feitas em seu estudo de caso sobre a insurgência do Vietnã, na década de 60, ainda permanecem como um alerta quanto aos resultados negativos que podem advir da aplicação inadequada de determinada lógica militar para um problema essencialmente político:

O que realmente estava acontecendo [Vietnã do Sul] era que o exército, organizado em linhas convencionais para derrotar um invasor estrangeiro e para ocupar e administrar em um país estrangeiro, estava tentando fazer quase o mesmo em seu próprio país. Isto criou uma atitude completamente equivocada e conduziu a operações e ações que só poderiam ser desculpáveis como atos de guerra, se realizadas em território inimigo.

96 O autor emprega a expressão original “unconventional wars”. Sua tradução literal seria “guerras não

convencionais”. Entretanto, em nosso trabalho, esta expressão possui um sentido distinto ao utilizado pelo autor. As “unconventional wars” do autor seriam “[...] caracterizadas pela decisão consciente, tomada por um Estado ou grupo subestatal, em contar com uma gama de meios heterodoxos para alcançar seus objetivos. Tais ações incluem guerra urbana e de guerrilha, e terrorismo” (CHIN, 2003, p. 60, tradução nossa). Consideramos que a expressão “guerras irregulares” estaria mais próxima ao sentido empregado pelo autor.

[...] A organização convencional do exército conduziu naturalmente a operações de tipo convencional. Isto também não foi favorecido pelas constantes trocas dos comandantes dos corpos e divisões, todos eles desejosos de fazer seu nome com uma rápida e espetacular vitória militar (THOMPSON, 1966, p. 60, tradução nossa).

No caso citado, o exército do Vietnã do Sul, quando instado a atuar frente ao grave comprometimento da estabilidade do Estado, fez a única coisa para a qual estava treinado para fazer: atuou como força militar de enfrentamento clássico.

A segunda situação a ser considerada, do ponto de vista do Estado, seria quando este não representasse o propósito direto da ação terrorista; quando o processo insurrecional não estivesse voltado para aquele Estado específico. Neste caso, o alvo de influência – grupo de onde sairiam os adeptos para alcançar-se a massa crítica necessária para uma mudança de poder – não se encontraria dentro dos limites nacionais daquele Estado. Assim, as ações terroristas que eventualmente viessem a ocorrer no território ou voltadas para atingir os nacionais de determinado Estado estariam correlacionadas ao alvo do terror – conforme desenvolvido no primeiro capítulo desta pesquisa – e não ao alvo de influência. Esta perspectiva seria substancialmente diferente da anteriormente apresentada, pois o grau de desestabilização estatal imposto pela violência seria significativamente menor. Por outro lado, o envolvimento estatal seria inexorável, uma vez o Estado lutaria pela primazia do monopólio do uso da força no interior de suas fronteiras ou na garantia do bem estar de seus nacionais. Diferentemente da situação levantada anteriormente, onde a violência sistemática para a disseminação do pânico e terror estava voltada para a desestabilização do Estado a ser derrubado, substituído ou alterado, a presente situação colocaria o Estado em condição comparável a um alvo indireto ou secundário da campanha terrorista. Cabe destacar, que há casos onde esta posição “coadjuvante” não seria tampouco confortável ou menos crítica – na busca por notoriedade internacional, não é incomum que atores terroristas direcionem suas ações contra nacionais de outros Estados97. No que se aplica ao emprego da força militar, espera-se uma atuação muito mais restrita que no caso anterior; como não seria a estabilidade

97 Seria o caso dos atentados ocorridos na Indonésia, em 2002, onde duas bombas explodiram na ilha de Bali. A

primeira explosão ocorreu em uma região famosa por concentrar, em suas casas noturnas, turistas da Austrália, Estados Unidos e Europa, deixando um saldo de 182 mortos e 132 feridos. A segunda bomba explodiu segundos após a primeira, próximo a um edifício consular dos Estados Unidos na ilha, sem deixar mortos ou feridos. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u46367.shtml>. Acesso em: 17 jun. 2011. Outro exemplo seriam os atentados ocorridos em Londres, em 2005, onde 56 pessoas morreram e centenas ficaram feridas. Os quatro suicidas envolvidos neste atentado eram britânicos e teriam recebido treinamento no Afeganistão ou Paquistão. Sua ação estaria correlacionada aos interesses da Al

Qaeda e ao conflito no Afeganistão. Disponível em: <http://g1.globo.com/videos/globo-news/globo-news- documento/v/globo-news-documento-mostra-o-mundo-depois-da-morte-de-bin-laden/1499340/#/Todos %20os%20v%C3%ADdeos/page /1>. Acesso em: 10 jun. 2011.

do Estado o propósito das ações terroristas, haveria uma condição de normalidade no funcionamento das instituições, que implicaria na participação militar ostensiva de forma meramente eventual e pontual.

Quando transportamos as duas situações desenvolvidas acima para a realidade brasileira, especificamente no que se refere à participação das Forças Armadas, podemos identificar duas situações distintas, mas inter-relacionadas. No primeiro caso, a atuação das Forças Armadas ocorreria quando a capacidade dos órgãos responsáveis pela segurança pública fosse insuficiente ou, para usarmos a terminologia proposta na FIGURA 10, o limite de normalidade para exercício da ordem pública tivesse sido ultrapassado. Consideramos que a condução desta atividade, tanto no nível local quanto no nacional, exigiria dos militares um acompanhamento prévio da conjuntura e dos diversos condicionantes envolvidos, bem como, conhecimentos técnicos específicos, que permitissem a coordenação, o planejamento e a execução deste tipo de operações. Os militares assumiriam o controle operacional das polícias e empregariam seus próprios meios e pessoal no exercício da segurança pública . O controle do Legislativo, feito pelo Congresso Nacional, tornar-se-ia essencial para determinar que esta situação de exceção durasse o tempo estritamente necessário e evitasse eventuais abusos de aplicação desta modalidade por parte do Executivo.

Já o segundo caso, quando aplicado à realidade brasileira, colocaria as Forças Armadas em uma atividade essencialmente voltada para as fronteiras do Estado. O controle das fronteiras deveria ser incrementado, especialmente nas regiões onde houvesse uma maior “porosidade”. Considerando que a ordem pública não estivesse comprometida, a ponto de exigir medidas de exceção, a participação militar se daria no exercício de suas atribuições subsidiárias. Obviamente, a troca de informações de inteligência deveria ser intensificada, de modo a permitir uma mínima articulação entre os órgãos de segurança pública e as Forças Armadas incumbidas da guarda e controle das fronteiras nacionais. Mesmo nesta situação, de normalidade institucional, consideramos que haveria graves dificuldades de coordenação entre os órgãos e de capacitação para o exercício das atividades exigidas. O exemplo evocado pelo General-de-Exército (R1) Augusto Heleno Ribeiro Pereira, ao referir-se aos militares do Exército, que hoje se encontram na Região Amazônica exercendo sua atribuição subsidiária, revelaria algumas das deficiências que a qualificação essencialmente voltada para um conflito militar clássico possui ao serem confrontadas com a realidade imposta à Força:

Por exemplo, droga. O tenente, o sargento do Exército não conhece nada sobre droga, não pode conhecer, não faz parte da formação dele. Quem conhece sobre droga, quem combate tráfico de drogas é a Polícia Federal. Então, é preciso que a Polícia Federal esteja junto. Tráfico ilegal de madeira,

eu não sei qual é a diferença entre mogno, jatobá, jacarandá. Para mim, madeira é madeira. Quem conhece isso é o pessoal do Ibama98. Então, na patrulha, precisa ter, né (sic) (PEREIRA, 2011).

Ambas as situações possuem um elemento comum, no que se refere à participação das Forças Armadas. Seria a aplicação do contingente militar em atividades de garantia da lei e da ordem, as quais demandariam qualificações especiais e distintas das necessárias em um conflito clássico entre exércitos de Estados soberanos, regido pela lógica da “eliminação do inimigo”. A confrontação de um Estado com o terrorismo, seja como alvo principal ou como alvo indireto, convergiria para o exercício de atividades de garantia da lei e da ordem – atribuição constitucional de competência das Forças Armadas. Essas atividades, dependendo da intensidade e amplitude, não poderiam ser contrapostas exclusivamente por forças policiais, pois estariam envoltas sob um manto de guerra irregular – um conflito armado heterodoxo de longa duração –, pensamento convergente ao exposto pelo Almirante Flores99: “[...] ele [o emprego das Forças Armadas] precisa ser preservado para situações definidas em que a atuação policial não basta, inclusive por exigirem meios e táticas operacionais só disponíveis nas Forças Armadas” (FLORES, 2003, p. 9).

Caberia fazermos mais uma consideração. Para isso tomaremos o exemplo dos Estados Unidos e do processo de cidadãos estadunidenses que aderiram à Al Qaeda. Nos últimos 15 anos teria se desenvolvido uma corrente de pensamento entre os analistas e políticos de que os muçulmanos europeus estariam submetidos a condições distintas dos muçulmanos residentes nos Estados Unidos, que favoreceriam os primeiros a se radicalizarem mais facilmente do que os segundos. Isso se daria devido aos muçulmanos europeus não conseguirem integrar-se a população, gerando um processo de frustração onde os efeitos decorrentes do constante processo discriminatório e de uma disparidade socioeconômica persistente atuariam como vetores reforçadores para uma quase inevitável radicalização. Ainda segundo esta corrente, os muçulmanos residentes nos Estados Unidos estariam em uma sociedade mais aberta aos imigrantes do que a europeia e com capacidade de absorvê-los e integrá-los culturalmente (american way of life), tornando-os “impermeáveis” a uma radicalização (VIDINO, 2009). As crescentes evidências de participação de cidadãos estadunidenses em diversos atentados (ou tentativas de atentados) dentro dos Estados Unidos

98 “O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) é uma autarquia

federal dotada de personalidade jurídica de direito público, autonomia administrativa e financeira, vinculada ao Ministério do Meio Ambiente”. Disponível em: <http://www.ibama.gov.br/>. Acesso em: 20 jun. 2011.

99 O Almirante-de-Esquadra Mário César Flores foi Ministro da Marinha no período de 15 de março de 1990 a

ou que tinham os Estados Unidos como alvo refutaram esta proposta de suposta “impermeabilização”. Como Vidino constata:

[...] por exemplo, mais de 500 pessoas têm sido condenadas pelas autoridades americanas por acusações relacionados com o terrorismo desde o 11 de setembro. A maioria deles são cidadãos dos EUA ou residentes de longa data dos EUA que foram submetidos à radicalização dentro dos EUA. Enquanto fazer uma comparação numérica exata não seja fácil, é justo dizer