3. A CONSTITUIÇÃO ECONÔMICA ELEMENTOS
3.3. Tipologia
3.3.1. Constituição econômica material e formal
3.3.1.1. Constituição econômica material: elementos
Denomina-se Constituição Econômica Material, o conjunto de preceitos que definem a
organização econômica de um Estado, constituindo-se de normas escritas ou não escritas, incluídas ou não no corpo constitucional. Eis a definição de FERREIRA FILHO: “(...) a constituição econômica abrange todas as normas que definem os pontos fundamentais da organização econômica, estejam ou não incluídas no documento formal que é a constituição escrita”290. Em seu sentido material, portanto, a Constituição Econômica é mais extensa do
que em seu sentido formal, no qual se incluem tão somente as normas fundamentais inseridas no bojo da lei magna.
A Constituição econômica material, pois, pode ser assim definida como um bloco econômico constitucional que transborda o conteúdo da constituição econômica formal, escrita.
As normas que integram a Constituição Econômica Material são marcadas pelo seu conteúdo – e não pela sua forma, como no caso da Constituição formal -, componente fundamental para a estruturação e organização da economia. São quatro os seus elementos
290 FERREIRA FILHO (1990), p. 07. Nas palavras de SOUZA FRANCO, a Constituição Econômica material
“integra o núcleo essencial de normas jurídicas que regem o sistema e os princípios básicos das instituições econômicas, quer constem, quer não do texto constitucional: máxime, quer seja ou não dotada da particular estabilidade que caracteriza as normas nos textos constitucionais”. FRANCO, Antonio L. Souza. Noções de
Direito da Economia. Lisboa, Associação Acadêmica da Faculdade de Lisboa, 1982-1983, p. 93. apud GRAU
essenciais, que configuram o conteúdo mínimo de toda e qualquer constituição da economia: a definição do tipo de organização econômica, a delimitação de campo entre a iniciativa pública e a iniciativa privada, a determinação do regime básico dos fatores de produção, capital e trabalho e a finalidade atribuída à atividade econômica291.
O primeiro deles – a definição do tipo de organização econômica – contempla dois modelos já estudados no capítulo 2 do presente trabalho: o modelo descentralizado e centralizado de organização da economia. O modelo descentralizado ou de autonomia, em resumo, corresponde a uma economia de mercado, com a predominância de múltiplos polos de poder e a intervenção indireta e global do Estado no domínio econômico, enquanto o modelo centralizado ou de autoridade é caracterizado pelo comando da economia a partir de um único centro de decisões, no qual a ação do Estado é totalitária e sua intervenção na economia é direta e pormenorizada.
Para BARRE, a concepção de tipos de organização apresenta duas grandes vantagens: “1) Permite a ligação entre morfologia de atividade econômica, morfologia política (tipos de poder e regimes políticos) e morfologia social (tipos de estruturas sociais). A combinação de tais morfologias pode, por si só, permitir a analise e a compreensão exatas de situações concretas. 2) Obriga a precisar certas expressões vagas, com ressonância política ou politiqueira, e a delimitar diversas situações em que se manifesta a intervenção do Estado”292.
Assim, conforme também verificado, a noção do modelo de organização da economia está estritamente relacionada com a configuração de uma democracia econômica. Com efeito, o regime democrático da economia não sobrevive em ambientes nos quais haja o predomínio do sistema de autoridade ou centralização econômica. Os fundamentos de um regime que permite a democratização da economia estão estritamente atrelados à economia de mercado e à existência de uma economia multipolar, em que iniciativa publica e privada se relacionam e produzem o equilíbrio do mercado.
Tratam-se, no entanto, de formas “puras”, que formam um quadro de referência na aplicação da realidade. A existência de uma formula mista é, não obstante, negada por BARRE, que não admite a justaposição de um setor público a um setor privado. Desse modo, ou o setor público produz e comercia, seguindo as orientações do mercado, e então a
291 Idem. Ibidem. A idéia de Constituição econômica, segundo TAVARES, deve ser contemplada a partir dos
seguintes elementos: “(...) identificação da base do sistema, identificação dos direitos que legitimam a atuação dos sujeitos econômicos, do conteúdo e limites desses direitos e das responsabilidades que são inerentes ao exercício da atividade econômica no país, bem como da finalidade que se pretende com determinado sistema”. TAVARES (2006), p. 80.
coordenação dos planos das unidades nacionalizadas e privadas se efetua pelo mercado (economia preponderantemente descentralizada), ou, ao contrário, o setor público não se submete à indicações do mercado (economia preponderantemente centralizada)293.
O segundo elemento é profundamente ligado ao primeiro, na medida em que, quando o setor público se torna dominante, é fortíssimo o impulso para a adoção de uma economia centralizada e minimizada é a participação do particular, que subsiste em um setor residual, de caráter marginal e importância negligenciada. De outra forma, a liberdade plena da iniciativa privada, o planejamento indicativo por parte do Estado e a intervenção direta, em algumas das atividades consideradas essenciais, tolera-se hoje como compatível com a descentralização de mercado.
A delimitação entre o campo da iniciativa publica e a iniciativa privada torna-se, portanto, de suma importância para a formação de uma constituição econômica, refletindo até mesmo na opção por um dos dois tipos básicos de organização da economia.
O terceiro elemento, qual seja, o regime jurídico dos fatores de produção contempla o regime de propriedade – da terra e dos meios de produção, inclusive o capital - e o regime de trabalho – as regras que fixam as relações entre empregado e empregador. Numa economia descentralizada, é admitida a propriedade privada dos meios de produção e a livre iniciativa, ao passo que, na centralizada, se emprega o capital estatizado e restrições à liberdade de atividade econômica. Em relação ao regime de trabalho, no modelo descentralizado, as relações são estipuladas livremente entre as partes envolvidas na produção, estabelecendo o Estado alguns direitos ao trabalhador, a exemplo de questões salariais e condições de trabalho. Na economia centralizada, definem-se as relações por meio de estatuto – como fora na União Soviética.
Por fim, o quarto e último elemento – a finalidade da organização econômica -, pode ser considerado em seu aspecto lato – os objetivos a que se propõe a economia – e em seu aspecto estrito – em relação aos valores atribuídos aos moveis da conduta humana. Em relação aos objetivos, a economia pode visar o bem-estar dos indivíduos, uma vida mais digna, a ampliação do poderio do Estado etc. No que tange ao outro aspecto, a história revela que a ação econômica pode privilegiar a lucratividade, seja na forma da coletividade, seja na forma individual – esperando que cada indivíduo aja segundo suas possibilidades e capacidades -, ou, em um meio termo, a busca do lucro de forma tolerada, seguida por uma redistribuição inspirada na justiça social.
293 BARRE (1978), p. 187.