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Construindo os parâmetros do levantamento

No documento Justiça em foco: estudos empíricos (páginas 99-103)

Quando falamos em pesquisa empírica, a primeira impressão costuma reme- ter a estudos estatísticos, ou seja, estudos que envolvem “a utilização de téc- nicas estatísticas de inferência a largos corpos de dados em um esforço para detectar importantes regularidades (ou irregularidades) que não tenham sido previamente identificadas ou definidas” (Schuck, 1989). Entretanto, é possível ampliar o alcance de tal definição e imaginar que estudos empíricos dizem res- peito a pesquisas construídas a partir da observação do mundo, isto é, dados, que podem ser tanto quantitativos quanto qualitativos. Quando aqui se fala em pesquisa empírica, está-se a examinar um tipo de investigação cujas premis- sas não dizem respeito ao mundo idealizado do dever-ser, mas constroem suas análises a partir do mundo do ser. O trabalho empírico não é, portanto, aqui pensado tão somente em termos quantitativos, mas engloba toda e qualquer investigação cujo ponto de partida é o que efetivamente ocorre no mundo ju- rídico.

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100 Entretanto, mapear esse tipo de investigação no direito é bastante difícil,

pois a tradição dogmática da pesquisa jurídica no Brasil sempre privilegiou o trabalho individual e sua divulgação por meio de livros. Como corolário des- sa opção, o periodismo jurídico esteve preferencialmente associado à divulga- ção das decisões judiciais e à análise das inovações legislativas e praticamente desconhecia o sistema de validação de resultados mediante a adoção de um modelo de revisão cega por pares (blind review). Conquanto esforços estejam sendo empreendidos para modificar essa realidade, essas circunstâncias ainda são claramente perceptíveis nas dificuldades encontradas pelo sistema Qualis de classificação de periódicos (o Webqualis) na área jurídica da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), vinculada ao Minis- tério da Educação. A realização do mapeamento a partir de artigos científicos publicados em revistas especializadas revelou-se, portanto, bastante difícil. De fato, não há no Brasil canais editoriais semelhantes ao American Law and Eco-

nomics Review, ao Journal of Legal Empirical Studies, ao Supreme Court Economic Review ou, ainda, ao The Journal of Legal Studies, que possibilitariam identificar

os trabalhos já realizados. Na verdade, a incipiente pesquisa empírica jurídica nacional encontra-se bastante dispersa e não possui um espaço editorial que congregue a maior parte de sua produção. Como, por outro lado, concentrar o olhar na produção da SRJ/MJ poderia proporcionar um forte viés na análise, impunha-se escolher outra porta de entrada, distinta dessas aventadas, para o levantamento.

Ela foi encontrada na plataforma Lattes, que é a base de dados de currículos, instituições e grupos de pesquisa das áreas de Ciência e Tecnologia, gerenciada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Ora, na medida em que a plataforma congrega os currículos dos pesquisadores nacionais e permite a realização de buscas tanto a partir de nomes quanto de assuntos, optou-se pela construção de uma base de dados a partir da utilização das expressões “pesquisa empírica” e “direito”. Seu uso não é aqui, contudo, efetuado como um índice de frequência, mas como um possível indicador de pertencimento ao campo aqui definido: o campo da pesquisa empírica em di- reito. Elas foram, portanto, utilizadas como critério de busca na plataforma,

pesquis a empíric a em Direit o n o BrasiL 101 em junho de 2011, retornando um total de 261 currículos. Cada um deles foi

examinado para se construir uma base de dados com as seguintes variáveis: nome, titulação máxima (área, instituição e ano de obtenção), instituição (ou instituições) de vinculação e inserção no sistema de fomento do CNPq na qua- lidade de pesquisador. Por sua vez, cada uma das variáveis recebeu uma codi- ficação própria de forma a criar padrões de comparabilidade. Nesse sentido, a titulação máxima foi codificada, quanto ao grau, em quatro níveis: (a) bacharel, (b) especialista, (c) mestre e (d) doutor. Quanto à área, em consonância com a tabela de conhecimento do CNPq, a codificação deu-se em nove níveis: (a) ciências exatas e da terra, (b) ciências biológicas, (c) engenharias, (d) ciências da saúde, (e) ciências agrárias, (f) ciências sociais aplicadas, (g) ciências humanas, (h) linguística, letras e artes e (i) multidisciplinar. Por sua vez, quanto à institui- ção de obtenção, assumindo a localização geográfica como parâmetro, distin- guiu-se entre (a) exterior (Europa, Estados Unidos, América Latina e outros) e (b) Brasil, explicitando aqui as regiões do país (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul) e a natureza da instituição (pública federal, pública estadual, pública municipal e particular). Quanto à instituição de vinculação, ou seja, local de trabalho, a codificação utilizou três variáveis: (a) instituição de ensino ou pesquisa (ou seja, academia), (b) administração pública e (c) setor privado. O conjunto de variáveis utilizado para a realização da codificação da base de dados pode ser visualizado na tabela 1.

tabela 1 | codificação da plataforma Lattes

categoria Variáveis nome

titulação máxima

Grau

Área tabela de área de conhecimento do cnpq

instituição de obtenção exterior Brasil região geográfica natureza administrativa ano

instituição de vinculação natureza institucional pesquisador cnpq categorias

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102 Porquanto construído a partir da plataforma Lattes, cujos dados são in-

seridos pelos próprios autores sob uma lógica de autodesignação (isto é, as próprias pessoas se atribuem as expressões aqui utilizadas para definir o cor-

pus), o conjunto de dados aqui examinado necessitava ser confrontado com

outra base de dados, que pudesse corroborar, refutar ou complementar a análi- se efetuada. Assim, optou-se por examinar a produção realizada no âmbito do Conselho Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Direito (Conpedi), que, a partir de 2004, deixou de ser um espaço de reflexão institucional sobre a pós-graduação em direito para se transformar em um espaço de socialização da produção acadêmica jurídica nacional. Em outras palavras, na medida em que o Conpedi transformou-se em um espaço privilegiado de socialização da pesquisa em direito, assumiu-se que ele seria um espaço adequado para dar visibilidade à produção do pesquisador “tipo” identificado a partir do corpus primário. Assim, decidiu-se examinar os anais das reuniões havidas entre o XV Encontro Preparatório (Recife, junho de 2006) e o XIX Congresso Nacional (Florianópolis, outubro de 2010), pois os correspondentes textos encontravam- -se todos disponíveis no sítio eletrônico do Conpedi. Embora os anais do XIV Congresso Nacional (Fortaleza, novembro de 2005) também estivessem dispo- níveis on-line, optou-se por descartá-los, pois não estavam disponíveis os anais do encontro precedente havido no mesmo ano. Ou seja, o corte temporal foi realizado com base na oferta dos anais dos dois eventos havidos no mesmo ano. Por conta disso, também foram descartados os anais do XX Encontro Nacional (Belo Horizonte, junho de 2011), pois o XX Congresso Nacional (Vi- tória, novembro de 2011) ainda não havia ocorrido. Ao total, foram examina- dos, em junho e entre setembro e outubro de 2011, os anais de 10 reuniões da comunidade acadêmica jurídica, buscando identificar os trabalhos que apre- sentavam uma vertente empírica para mapeamento das mesmas variáveis. Eis a lista completa:

• XV Encontro Preparatório (Recife, junho de 2006); • XV Congresso Nacional (Manaus, novembro de 2006);

• XVI Encontro Preparatório (Campos dos Goytacazes, junho de 2007); • XVI Congresso Nacional (Belo Horizonte, novembro de 2007);

pesquis a empíric a em Direit o n o BrasiL 103 • XVII Encontro Preparatório (Salvador, junho de 2008);

• XVII Congresso Nacional (Brasília, novembro de 2008); • XVIII Encontro Nacional (Maringá, julho de 2009); • XVIII Congresso Nacional (São Paulo, novembro de 2009); • XIX Encontro Nacional (Fortaleza, junho de 2010); • XIX Congresso Nacional (Florianópolis, outubro de 2010).

Para assegurar as possibilidades de comparação, esse segundo corpus foi constituído com base nas mesmas categorias e variáveis utilizadas para exame da plataforma Lattes e, em seguida, sistematizado pelos componentes da equipe que realizou ambos os levantamentos: Alexandre Haguenauer, Eduardo Guido Cavalieri Doro e Thiago Corrêa, todos alunos bolsistas de iniciação científica da FGV Direito Rio entre agosto de 2010 e junho de 2011. É importante res- saltar a contribuição trazida pelos professores Antonio José Maristrello Porto, Fabiana Luci de Oliveira, José Ricardo Cunha e Leandro Molhano Ribeiro por ocasião do I Seminário de Estudos Empíricos realizado na FGV Direito Rio, em setembro de 2010, quando os contornos iniciais do projeto foram debatidos.

Os dados

No documento Justiça em foco: estudos empíricos (páginas 99-103)