Capítulo II. Aprendizagem e ensino suportados por dispositivos móveis 24
2.6. Perspetivas pedagógicas para o mobile learning 49
2.6.2. Contexto de aprendizagem 50
A aprendizagem ao longo da vida é a chave para o sucesso profissional e pessoal de cada indivíduo, não se podendo limitar ao período escolar. Na sociedade de hoje, existe uma necessidade constante de aprender e de dar resposta às dúvidas que vão surgindo, ao longo da nossa vida, quer profissional, quer pessoalmente. Então, é possível afirmar que a construção de significados, através da aprendizagem, acontece de forma ubíqua.
Toda a investigação que é realizada sobre o mobile learning converge para o estudo da mobilidade do aprendente e das oportunidades das aprendizagens, em diferentes contextos, aprendizagem que é possível graças à tecnologia móvel.
É a tecnologia móvel que vai permitir a mobilidade necessária para tornar possível a aprendizagem em diferentes contextos, no mobile learning. A aprendizagem não se limita, apenas, aos contextos da escola, tal como foi referido anteriormente. A aprendizagem não se limita, apenas, à sala de aula. Ao saltar para lá dessa “limitação”, verificamos que são muitas as formas de consumir, construir e realizar uma aprendizagem de qualidade.
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A aprendizagem é algo que acontece através da comunicação, interação e colaboração entre as pessoas: na escola, no trabalho, na sociedade ou no lazer. Graças à evolução das tecnologias da informação e comunicação que temos verificado nos últimos anos, é possível construir cenários suscetíveis de construção do conhecimento em qualquer que seja o lugar em que estejamos. Temos, agora, tecnologias móveis que permitem o acesso permanente à informação, possibilitando, assim, a construção de uma aprendizagem ubíqua, realizada através de diferentes contextos de aprendizagem, reais ou virtuais. Uma das características do mobile learning é que implica tecnologias móveis, como Keegan (2009) afirma: a) todas as pessoas transportam um dispositivo móvel consigo; b) são dispositivos considerados amigáveis e pessoais; c) são baratos e fáceis de utilizar; d) são constantemente utilizados em diferentes esferas de vidas e numa variedade de configurações, com exceção da educação.
Quando pensamos num contexto de aprendizagem, sabemos que este não é fixo nem estático, mas sim dinâmico e móvel. Sharples (2010) refere que aprender autonomamente é um contexto de aprendizagem e não tem de ser exclusivo do espaço escolar. Reconhecer que existe aprendizagem para lá da sala de aula, aprendizagem informal, torna implícito o reconhecimento das diversidades de contextos em que esta pode ter lugar.
Através das conclusões dos muitos trabalhos de investigação e de projetos é possível verificar as potencialidades pedagógicas do mobile learning, em diferentes contextos situacionais. Attewell (2005) considera que o mobile learning é a única modalidade de aprendizagem que verdadeiramente permite uma aprendizagem personalizada e ubíqua, e considera existirem várias vantagens na utilização do mobile learning, em diferentes áreas, que permitem ajudar os estudantes a:
melhorar as suas habilidades na literacia e cálculo;
encorajar uma aprendizagem independente e colaborativa; identificar as áreas em que precisam de apoio e de assistência;
combater os resistentes à utilização das tecnologias da informação e comunicação; remover algum formalismo das experiencias de aprendizagem;
ficarem mais focados por períodos mais longos; reconhecer as suas capacidades;
aumentar a autoestima e a autoconfiança.
Kukulska-Hulme (2009) refere cinco estudos, em diferentes contextos: ensino secundário, universidades, ambientes de trabalho, museus e contextos de aprendizagem informal.
Ao longo destes últimos anos, a educação tem seguido o sucesso das tecnologias, desde o correio, telefone, rádio, televisão, vídeo, computadores, multimédia, Internet, os dispositivos móveis com acesso a uma rede sem fios. O maior desafio para os educadores é compreender e explorar a
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melhor maneira de utilizar esses recursos para apoiar a aprendizagem. Parece não fazer muito sentido continuarmos a excluir ferramentas tão poderosas.
Telemóveis, computadores, dispositivos media estão no bolso de todos nós e permitem que nos liguemos a uma variedade de fontes de informação e comuniquemos, em qualquer parte onde estejamos. Existe uma grande necessidade de explorar o apelo universal para a sua utilização pedagógica. Esta primeira especificação para o domínio pedagógico é baseada em Naismith et al. (2004). A revisão da literatura revela seis grandes bases teóricas de atividade, que enunciamos seguidamente.
Comportamentalista
“O termo behaviorismo foi cunhado por Watson, num artigo em 1913, que postula o comportamento como objeto da psicologia. O behaviorismo ou comportamentalismo é uma teoria da psicologia da aprendizagem animal e humana e estuda comportamentos objetivos e observáveis”, (Moura, 2010).
A teoria comportamentalista considera que a aprendizagem se baseia na troca de ações observáveis dos estudantes ou aprendentes. O paradigma comportamentalista defende que a utilização do reforço, entre um estímulo e uma resposta, facilita a aprendizagem. Assim, partindo deste pressuposto, deparamo-nos com a apresentação de um problema (estímulo), seguido pela contribuição do aprendente na solução. Posteriormente, deverá ocorrer um feedback de reforço. Portanto, num contexto de aprendizagem com mobilidade, podemos utilizar diferentes estratégias e recursos de reforço das aprendizagens.
Construtivista social
A perspetiva construtivista assenta na ideia de que os aprendentes têm um papel ativo na construção do seu próprio conhecimento, a partir de conceitos, modelos e ideias adquiridos anteriormente e no momento. Por outras palavras, poder-se-á dizer que a aprendizagem é um processo dinâmico e ativo entre o conhecimento adquirido e aquele que é construído no presente.
Uma das ramificações do construtivismo é o construtivismo social, criado por Vygotsky. Para este autor, o conhecimento é um processo de interação entre o “eu” e o seu contexto sociocultural. E, como parte deste contexto e mediadores do conhecimento, podemos considerar as tecnologias móveis.
Os aprendentes são encorajados a serem construtores ativos do seu conhecimento através da utilização das tecnologias móveis, inseridas em contextos reais, oferecendo, ao mesmo tempo, acesso a ferramentas de suporte. Para além desta construção, o aprendente tem, agora, a possibilidades de partilhar o seu conhecimento, a qualquer hora, em qualquer lugar.
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A adoção dos princípios construtivistas, com tecnologias móveis, é classificada como
participatory simulations [MIT, 2005], nas quais os aprendentes atuam num sistema dinâmico de
recreação imersiva, Aguado e Martiz (2008).
Aprendizagem situada
É a atividade que promove aprendizagem com uma cultura e um contexto autênticos. A aprendizagem situada considera que a aprendizagem poderá ser ampliada, quando realizada num local de contexto autêntico. Em situações de aplicações contextualizadas, os dispositivos móveis são fundamentais uma vez que estão disponíveis em diferentes contextos e que podem ampliar as atividades de aprendizagem. A recolha de dados, feita em atividades de campo, é um exemplo deste tipo de atividade.
Aprendizagem colaborativa
Neste tipo de atividades, as interações sociais são responsáveis pela aprendizagem, e caracterizam-se por compromissos e interdependências coletivas, através da cooperação mútua ao longo de todo o processo de aprendizagem, o que aumenta valores sociais, como a solidariedade, empatia e respeito pela opinião dos outros, entre outros (Gallego, Alonso e Cacheiro, 2011).
Nos anos 90, surgiram novas abordagens para aprendizagem, muitas das quais são baseadas na psicologia sociocultural de Vygotsky, incluindo a Teoria da Atividade. Os princípios da aprendizagem colaborativa tiveram, como ponto de partida, os que foram considerados por Vygotsky, fundamentados na Teoria Construtivista. A teoria da conversação é particularmente relevante nos processos de colaboração através de dispositivos móveis, embora não se relacione, tradicionalmente, com a aprendizagem colaborativa.
A aprendizagem colaborativa vai obrigar à partilha de espaços físicos e virtuais, onde a comunicação que é estabelecida entre as pessoas pode ser realizada através das tecnologias móveis. Os estudantes aprendem, de uma forma mais eficaz, através da partilha de ideias com outros estudantes e brainstorming que, geralmente, ocorre por meio da utilização de recursos de colaboração. A colaboração pode ser síncrona ou assíncrona, e pode ser realizada das seguintes formas: a) diálogo em grupos (na sala de aula ou conferência por telemóvel); b) diálogo de um para um (sala de aula ou por telemóvel); c) comunicação via email (com o acesso à Internet as tecnologias móveis têm, hoje, aplicações criadas exclusivamente para aceder ao email); d) fóruns (podem ser moderados ou não por um tutor, por exemplo na plataforma Moodle); e e) mensagens de texto (SMS ou MMS, videoconferência) (O’Nuallian & Brennan, 2004). Nos dias de hoje, este tipo de comunicação também é possível através das muitas ferramentas existentes na Web 2.0 e Web 2.0 móvel como as redes sociais (Facebook, Twitter, outras redes), blogues, wikis, entre outras.
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Os mesmos autores referem os benefícios, outrora referidos por Nikana (2000), da aprendizagem colaborativa associada às tecnologias móveis: a) fomenta a compreensão dos conteúdos educativos; b) estimula a motivação, através da discussão entre pares; c) contribui para um feedback rápido e permanente; d) possibilita comentários rápidos e eficazes; e) induz uma boa relação custo & eficácia; f) constitui-se como uma boa ferramenta de avaliação para os estudantes; g) funciona como um reforço para o material existente; h) permite aumentar a qualidade do conhecimento transmitido.
Aprendizagem informal e aprendizagem ao longo da vida
A necessidade de uma aquisição contínua de conhecimentos e de competências talvez seja o traço mais distintivo da espécie humana (Moura, 2010). Talvez seja este o momento da história em que a nossa sociedade, altamente influenciada pelas tecnologias da informação [(as TI vão permitir o fácil acesso à informação, canais de comunicação imediata, interatividade, digitalização de toda a informação, entre outros (Marques, 1999)] e pelo conhecimento, mais aprende informalmente. Cerca de 80% do que os seres humanos realizam tem por base a aprendizagem, e este processo é realizado ao longo da sua vida diária, em contextos que não são a escola (com amigos, família e qualquer membro da sociedade) (Cross, 2006).
Figura 5. O gasto/retorno: paradoxo
Vivemos um paradoxo, gastamos mais na educação formal e acabamos por aprender mais na formação informal. Através da observação e interação com os outros e da ajuda que a Internet permite, acabamos por aprender muito mais do que num ambiente de aprendizagem formal. A aprendizagem informal é uma “escola” paralela à escola tradicional, estando a ganhar, cada vez mais, um papel dominante na educação, devido, especialmente, à globalização das redes sociais, ao livre acesso à informação e ao conhecimento adquirido através das tecnologias da informação e comunicação (Marqués, 1999).
A aprendizagem informal consiste nas atividades em que a aprendizagem ocorre fora de um ambiente clássico e de um currículo formal. Neste contexto, estamos, constantemente, em processo de aprendizagem, independentemente do meio onde estamos inseridos. A aprendizagem informal poderá ser intencional ou acidental. A primeira é caracterizada por um projeto intensivo e deliberado. A segunda ocorre mediante observação do mundo em que vivemos, ou seja, através de jornais, televisão, diálogo. O registo e a recuperação de informações, com o uso dos PDA, é uma prática bastante
Aprendizagem informal - Dia a dia, no trabalho - Colegas de trabalho - Orientadores Aprendizagem formal - Treino trabalho - Educação curricular - Publicações Gastos Aprendizagem
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utilizada. A eficácia desta aprendizagem deve-se ao facto de ela ser pessoal, sendo, cada um, responsável pelas suas próprias ordens. Na aprendizagem formal recebemos “ordens” de um professor (Cross, 2006).
A modalidade de aprendizagem informal tem vindo a crescer ao longo dos anos graças à evolução dos media e das tecnologias da informação e comunicação, destacando-se o mais popular entre os mais jovens, as tecnologias móveis. Estas tecnologias vêm permitir, de forma informal, autónoma e ubíqua, a construção social do conhecimento, através da utilização das suas funcionalidades de comunicação, como o SMS ou as redes sociais, através do acesso à Internet. Com a sociedade da informação, estamos perante uma sociedade que possui (Marques, 1999):
livre movimento de capital, informação, “coisas” e pessoas; necessidade de aprendizagem contínua;
ubiquidade das redes sociais, das tecnologias da informação e dos media; abundância de informação;
valorização crescente da informação e do conhecimento; alterações sociais (familiar, amigo, outros).
Todos estes fatores estão a contribuir para uma aproximação, cada vez maior, entre uma aprendizagem formal e a informal.
Suporte ao ensino e à aprendizagem
Esta atividade que tem como objetivo apoiar o controlo dos atores, dos materiais didáticos e dos recursos telemáticos nos processos de aprendizagem. Neste âmbito, as informações académicas podem ser geridas pelos professores, mediante a utilização de dispositivos móveis. Ao nível do ensino superior, os dispositivos móveis podem fornecer material didático para os estudantes assim como formas de organização do trabalho, por exemplo, datas de avaliações e informações sobre calendário e atividades académicas.