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CONTEXTO E TRAJETÓRIA DO DISTRITO DE TAQUARAS E ACDT

4 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS

4.1 CONTEXTO E TRAJETÓRIA DO DISTRITO DE TAQUARAS E ACDT

O Distrito de Taquaras fica localizado em um pequeno vale no município de Rancho Queimado, sendo cortado pelo antigo caminho dos tropeiros, que fazia ligação entre Florianópolis e Lages tornando-se a principal rodovia de acesso destes municípios. Taquaras, entre as décadas de 1940 e 1960, era um povoado movimentado, com caminhões que transportavam madeira (araucária e outras espécies nativas) e produtos agropecuários para o litoral, e retornavam levando produtos como café açúcar, sal, tecidos, farinha de mandioca e cachaça, para abastecer os municípios do interior (EPAGRI, 2019).

A partir de 1970 iniciou-se um movimento migratório em direção a grandes centros urbanos. Nessa época as estradas ainda eram precárias, o que dificultava o acesso, e havia poucos incentivos para a permanência no meio rural (WUERGES, 2005). A implantação da BR-282, em 1982, desviou Taquaras do fluxo rodoviário, contribuindo ainda mais para o isolamento do distrito (FRANZONI, 2015). A constatação era de que sua população estava envelhecendo e as opções de trabalho, transporte, comércio, serviços e lazer estavam se tornando ainda mais limitadas (WUERGES, 2005).

O cultivo de cebola no município de Rancho Queimado perdeu expressão devido à dificuldade de competitividade em relação ao Alto Vale do Itajaí, beneficiada por áreas topograficamente mais favoráveis (EPAGRI, 2019). Como alternativa de produção para os meses de inverno e primavera, pois em razão do frio e de questões comerciais não era viável a produção de tomate e hortaliças, surgiu o cultivo de morango (EPAGRI, 2019). Essa ação para o desenvolvimento teve a participação do Sr. Silvino Schneider, um pastor recém

formado que se mudou do Rio Grande do Sul para assumir a Paróquia de Taquaras e um trabalho como professor na escola do distrito. Em seus deslocamentos pelas comunidades vizinhas, ele acompanhava de perto as transformações que estavam acontecendo nos estabelecimentos agrícolas, causadas pela consolidação de várias tecnologias “Revolução Verde” em substituição às técnicas tradicionais dos agricultores (WUERGES, 2005).

Ao conviver com o intenso processo de transformação, não somente da atividade agrícola, mas de todos os setores da sociedade e de produção que levava ao aumento da dependência de insumos externos e industrializados, Sr. Silvino resolveu pôr em prática uma nova forma de atuar junto com a comunidade, tanto nos aspectos humanitários, ligados à fé, à espiritualidade, à religiosidade, à ética, como também aos aspectos associados à prática social do cotidiano da vida (WUERGES, 2005). Seu propósito consistia em divulgar técnicas e conhecimentos que pudessem auxiliar na manutenção da independência e autonomia das famílias. Com o apoio da escola, o pastor Sr. Silvino, aproveitou de seus espaços para plantar flores, como hortênsias, e também mudas de morangos junto com os alunos em uma disciplina chamada “Iniciação para o Trabalho – IPT”. Os alunos da escola se empolgaram com a ideia e foi criado a “Patrulha Verde”, e quando as mudas estavam a ponto de ser transplantadas, os alunos saiam e entregavam as mudas de morangos para quem tinha interesse em plantá-lo em suas casas, e as mudas de hortênsias os alunos plantavam na beira de estrada (WUERGES, 2005). A comunidade começou a perceber que o cultivo de morango era propício e começaram a cultivar cada vez mais. Porém, uma grande limitação para a sua implantação e expansão do cultivo era a dificuldade de comercialização, causada em parte pela má qualidade das estradas, o reduzido volume de produção e a falta de tradição no cultivo (EPAGRI, 2019). Era uma época em que quase todo o morango comercializado em Santa Catarina vinha de outros estados (RS, SP, MG e PR).

Na comunidade havia a Associação Comunitária do Distrito de Taquaras – ACDT, que na época estava parcialmente desmobilizada. A sua principal atividade era administrar e cuidar de um imóvel que atendia à comunidade para várias finalidades. Entre elas, servia de espaço físico para os Postos de Saúde, para a TELESC (Telecomunicações de Santa Catarina), para o Correio, para um Banco e para realização de eventos comunitários, como encontros do clube de mães, bailes, bingos-dançantes e outras promoções. A ACDT era constituída principalmente por mulheres da comunidade local que, com o início da mobilização do cultivo de morango, resolveram juntas enfrentar o desafio de criar a I Festa do Morango. Como não havia produção de morangos em quantidade suficiente, foram adquiridas aproximadamente quatro toneladas do município de Feliz, no Rio Grande do Sul. Essa

estratégia se repetiu na II Festa. Já, para abastecer a III Festa, a produção local já estava com autonomia própria.

A maior parte dos recursos financeiros para a sua realização foi obtida junto a órgãos do Estado, junto à Prefeitura e também por meio da Companhia de Turismo de Santa Catarina (SANTUR), onde a presidente da ACDT mantinha contatos por exercer a profissão de advogada junto à Assembleia Legislativa Estadual (WUERGES, 2005). Muitas pessoas da comunidade compartilharam a ideia, ajudando de forma espontânea e voluntária, por interesse em obterem uma fonte alternativa de renda com a venda de produtos durante a festa.

A primeira Festa do Morango realizada na própria praça de Taquaras, provocou uma euforia na comunidade. Muitas pessoas foram para Taquaras naquele final de semana em 1992 e isso vem se repetindo, com poucas modificações, até nos dias atuais. Para grande parte das pessoas que vivem na comunidade, esta mobilização é motivo de orgulho e satisfação (WUERGES, 2005). Os princípios que nortearam as primeiras festas, valorizaram a cultura e o empreendedorismo da comunidade local, sendo considerado orgulho de quem participa (FRANZONI, 2015). Toda a organização é realizada pela Associação Comunitária do Distrito de Taquaras – ACDT. A maioria dos produtos e serviços oferecidos na festa (morango e seus derivados, artesanato, alimentação, shows e lazer), é proporcionada pela própria comunidade. Existem vinte dois pontos de venda ao longo do Parque do Morango (local do evento), onde as pessoas comercializam seus produtos de forma isolada e em conjunto (WUERGES, 2005). A grande maioria das pessoas da comunidade contribui de alguma maneira para que a Festa do Morango aconteça, e mesmo aquelas pessoas que não participam diretamente, arrumam suas casas e embelezam seus jardins, melhorando a paisagem local. A ACDT é dirigida por um Conselho Administrativo com número aberto para participação e todos os interessados que vivem na comunidade têm, de certo modo, encontrado seu espaço e contribuído de alguma maneira.

A maior parte dos objetivos que impulsionaram a I Festa do Morango foi alcançada. Com os recursos obtidos nas festas junto com apoio do Governo do Estado, foram construídos o Monumento ao Tropeiro, a Casa do Imigrante, o Parque do Morango e um trecho de 7 km de acesso asfaltado para Taquaras (WUERGES, 2005). O turismo local, outro objetivo da Festa, está se tornando aos poucos realidade, com vários empreendimentos no setor (pousadas, artesanato, trilha ecológica, restaurantes e café colonial) trabalhado em rede. A Festa do Morango tornou-se uma boa opção de renda para as pessoas de menor poder aquisitivo na comunidade. Várias pessoas se planejam durante o ano na preparação de

produtos para comercializar na festa, destacando-se os artesanatos, mudas de flores e produtos à base de morango.

A Festa do Morango é um evento que se tornou um forte indicador de organização e articulação da comunidade. Por exemplo, a pressão exercida pela comunidade, em forma de reivindicação, converteu-se em investimentos públicos no Distrito e também foi revertido o êxodo rural. Além destas conquistas, a partir da Festa foram criadas outras instituições e grupos, cujos principais objetivos não são somente econômicos, mas também sociais/culturais (WUERGES, 2005). Foi criado o Grupo Folclórico Blumenthal (Vale das Flores) em Taquaras e o Grupo Sonnenshein (Raios de Sol) em Rancho Queimado.

A cultura do morango tem sido uma atividade importante do ponto de vista econômico e social no Distrito de Taquaras. Seu sucesso no cultivo, a boa qualidade dos frutos e quantidade ofertada no mercado regional e estadual ao longo dos anos propiciaram ao município o título de Capital Catarinense do Morango, no ano de 2002 (EPAGRI, 2019). Esse título foi aprovado em projeto de lei na câmara de estadual dos deputados. Estes fatores têm auxiliado na consolidação da Festa do Morango. No início, para o aumento do cultivo de morango, havia problemas complexos de solução, já que a colheita necessita ser feita diariamente, por um longo período de meses e somente a Festa do Morango não resolveria o problema da comercialização (WUERGES, 2005). Desta forma, pode ser considerado como fundamental o envolvimento da EPAGRI na busca de soluções para estas questões.

No município, atualmente, cerca de 600 produtores cultivam morango no Sistema Convencional, e destes apenas seis produtores adotam o sistema de produção orgânica (EPAGRI, 2019). O cultivo de morango é considerado um dos que mais utilizam insumos em relação às outras atividades, gerando sérios problemas ambientais (EPAGRI, 2019). Entre os principais insumos se destaca a utilização plásticos, tuneis para cobertura das mudas, mangueiras de irrigação, bandejas, plástico filme de PVC para embalar os morangos e agrotóxicos (FRANZONI, 2015). Segundo a EPAGRI (2019), a quantidade de plásticos varia entre 70 e 90 toneladas por ano. A menor parte destes plásticos é destinada para a seletiva de lixo, sendo que o restante é queimado ou abandonado no meio ambiente, ocasionando poluição.

O morango é um dos principais responsáveis pela permanência dos agricultores nas propriedades, por necessitar de muita gente na atividade, o que diminuiu bastante o êxodo rural (EPAGRI, 2019). O seu cultivo tem sido adotado principalmente por agricultores mais jovens, por ser uma atividade exigente em nível tecnológico, de mão de obra e considerado um trabalho mais leve (EPAGRI, 2019). A cultura do morango envolve toda a família ao

longo do processo produtivo (FRANZONI, 2015). Desta forma, percebe-se uma redução na diversificação de outras atividades nas propriedades. No processo produtivo, aos homens cabem os serviços gerais e os tratos culturais na propriedade e comercialização. As mulheres, crianças e idosos dedicam-se mais aos trabalhos da colheita, classificação e embalagem (FRANZONI, 2015).

4.2 OPERACIONALIZAÇÃO DOS ELEMENTOS CARACTERÍSTICOS DA

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