6 A HISTÓRIA DE BIRD
6.1 O CONTEXTO FAMILIAR
Paulo enfatizou que, nos espaços frequentados pela família, seja no próprio ciclo familiar, entre amigos ou na escola dos filhos, existe um preconceito devido à condição do seu filho. Esse preconceito, para ele, está relacionado às pessoas próximas do seu convívio social buscarem culpados para a origem dos problemas do filho. O pai relatou que, muitas vezes, ouviu de pessoas próximas que “a culpa é de Paulo ou Raquel, quem trouxe essa carga genética?”. A partir do resgate dessas experiências, o pai disse:
PAULO: Volto para história da minha Educação Física, os gregos faziam competições, e para isso eles escolhiam as pessoas mais fortes. Assim, as mulheres mais fortes, robustas e sadias eram as escolhidas para que nascessem filhos normais, quando não nasciam eram sacrificados. A história nos diz muito. Espero que eu consiga quebrar isso, mas eu vejo, à medida que eu vejo um mundo tão cruel, essa discriminação muito forte dentro de qualquer espaço social. Quando uma criança com algum problema começa a incomodar, os olhares surgem, a percepção é de retirada porque está incomodando, então, a culpa é sua.
O pai acrescentou que, por esse motivo, muitas vezes o casal se acusa mutuamente, e pensando nessas questões afirmou:
PAULO: No que diz respeito à estrutura emocional do casal, prefiro me inserir neste processo, também não facilitou até hoje um pico de desenvolvimento do nosso filho, que já poderia ter chegado. Eu vejo outras crianças com problemas muito mais graves do que de Bird, que já estão num patamar diferenciado, porque o equilíbrio familiar ainda precisa ser solidificado. Melhorou bastante, porque eu avancei enquanto ser humano, percebendo que do outro lado existe uma pessoa que precisa de ajuda.
Nesse processo todo, para o pai, a mãe teve muita resistência em aceitar a dificuldade do filho. Essa não aceitação, segundo Paulo, foi o grande problema.
PAULO: Eu tenho buscado o equilíbrio porque tem momentos que o emocional não aguenta. Porque eu tenho, também, uma esposa que é um pouco hiperativa e com alguns momentos de irritabilidade também. Não é fácil para um ser humano cuidar de uma rotina tão cruel, é difícil. Todos perguntam a quem puxou da família, achar culpados, quem era doente a família do pai ou da mãe, quem foi doente? Eu digo: pronto, fui eu!
Estes motivos, de acordo com o pai, foram decisivos para colocar as crianças o dia todo em atividades. Para ele, “o objetivo não era afastar as crianças da mãe”, mas para que eles desenvolvessem uma autonomia fora do seu contexto, para que as crianças tivessem sua independência.
PAULO: Para eu negociar com a mãe foi muito difícil, foi com muita guerra porque a mãe não aceitava ficar longe dos filhos na parte da tarde, não sei o que a convenceu. Hoje, ela está tranquila, já percebeu a necessidade. Tudo que eu consegui para meus filhos em termos educacionais não foi fácil, não tive ajuda da companheira. Às vezes eu sinto que ela não quer que os meninos tenham o conhecimento, porque quando isso acontecer dará asas para os meus filhos.
Sobre a relação de Paulo com os filhos, ele mesmo conta:
[...] antes descia no prédio para fazer brincadeiras de arte ataque, para isso eu comprava muita tinta, material reciclado, lápis colorido e diversos papéis. Essa brincadeira de arte ataque surgiu a partir de um programa de TV infantil que monta muitas coisas legais como vários brinquedos, que tinha um tema por dia, “hoje nos vamos fazer um relógio”... Fazíamos sempre juntos, eles já sabem como proceder. Essa semana mesmo eles me pediram para fazer um castelo Scooby Doo, saiu tenebroso (risos), mas eles gostaram.
Ainda sobre a relação da família com grupos de sua convivência, Paulo relatou sobre a forma como a família tem vivido no prédio onde moram, devido aos olhares de julgamentos, reiterando que a relação familiar passa por tensionamentos:
PAULO: Tudo que acontece no prédio meus filhos são os responsáveis, por conta dos pais que são desequilibrados e doentes. Então não dá mais, eu preciso proteger minha família, se não terei problemas o tempo todo. Nesse aspecto, infelizmente, a sociedade conseguiu vencer, não dá para disputar isso.
Paulo relatou que sempre a família descia para a área comum no prédio. Contudo, começaram a surgir reclamações e julgamentos ao “desequilíbrio familiar”. Assim, hoje, segundo ele, seus filhos são gradeados. Segundo ele afirma, essa é exigência da esposa, que não quer os filhos lá embaixo. Raquel não abordou o tema conosco, de forma que sobre esse aspecto, só temos relatos do pai. É ele, ainda, quem analisa a infância em cidades grandes, no mundo contemporâneo, articulando à experiência pessoal:
PAULO: Por isso, vivemos a era das crianças escravizadas pela tecnologia, principalmente as especiais. Infelizmente vai demorar muito para esse
mundo que se diz dono da verdade aceitar todas as crianças diferentes. Falo de todos eles, não somente do meu filho. Todos eles precisam ser entendidos. Nós fingimos que entendemos, mas na verdade quando incomoda recebemos a troca necessária que é a nossa retirada de qualquer espaço, temos que sair devagarzinho, fingindo que somos o mal-educados mesmo, que tem um certo grau de desequilíbrio e doença.
Durante nossa trajetória em campo, Raquel solicitou para conversar acerca das suas angústias perante os problemas vivenciados por Bird e em determinado momento, devido a conflitos vivenciados em seu casamento.
Nessas conversas, Raquel relatou se sentir muito angustiada e ansiosa por não trabalhar, por não ter com quem deixar seus filhos. Segundo a mesma, em seu casamento houve momentos difíceis com brigas intensas que afetavam, interferindo nas crianças. Em determinado momento, quando as crianças eram menores, ela chegou a procurar uma psiquiatra, que identificou uma predisposição à depressão, receitando um antidepressivo. Contudo, ela diz que não chegou a usar a medicação sistematicamente, pois não estava se sentindo bem com a mesma.
Considerando suas demandas pessoais, conversamos sobre a importância de procurar um profissional de psicologia para acompanhá-la. Esclarecemos as questões éticas envoltas em nossa relação, pois, a nossa inserção na história da família estava atravessada por uma pesquisa de campo. A dificuldade financeira da família foi elemento decisivo para que ela não conseguisse atendimento psicológico individual. Assim, as conversas conosco serviam para Raquel como momento de reflexão pessoal. Evitamos, contudo, ocupar o lugar de terapeuta, e ao mesmo tempo, evitamos deixa-la sem escuta, quando era notória sua necessidade de interlocução.