PARTE II – O DISPOSITIVO PÁGINA DO CANDIDATO NO FACEBOOK
4.1 CONTEXTUALIZAÇÃO DO PRIMEIRO E SEGUNDO TURNO
Uma combinação de fatores caracterizou o cenário político das eleições presidenciais de 2014: 1) a campanha de reeleição de Dilma Rousseff tinha como trunfo o sucesso dos programas sociais, “responsáveis pela ascensão social de muitos brasileiros, [mas] o contexto econômico sinalizava baixo crescimento e no plano político, escândalos de corrupção envolviam figuras do PT” (ROSSINI et al., 2016, p.151); 2) assim, havia o desgaste do Partido dos Trabalhadores perante as denúncias de corrupção, relacionadas principalmente à gestão da Petrobras, após 12 anos de governo federal; 3) some-se a isto os protestos de junho de 2013 – quando, após o anúncio do aumento na tarifa de transporte público, milhões de pessoas foram às ruas de diversas cidades brasileiras para reivindicar, inicialmente, o Passe Livre para os estudantes da rede pública de ensino, no que parecia ser uma mobilização de grupos à esquerda do governo que depois foi apropriada por grupos de direita, os quais aderiram às manifestações dizendo lutar “contra tudo”. A indignação dos manifestantes nesse período se potencializou
ainda mais em função da destinação de verbas públicas para a realização de eventos internacionais sediados no Brasil, como a Copa das Confederações, a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Assim, aproveitando-se desse clima generalizado de “manifestações fora do controle do governo (...), os partidos da oposição liberal conservadora passaram a ter um maior ativismo oposicionista, rompendo com certa passividade que predominou nos governos petistas” (ALMEIDA, 2015, p.13).
O caráter difuso dessas manifestações contribuiu também para “a expansão da cultura dos protestos e da apropriação do espaço público por vários setores sociais, incluída a direita” (PENTEADO, PEREIRA e FIACADORI, 2016, p.276). Tendo como consequência o avanço de uma Rede Antipetista aproximadamente um ano antes do período eleitoral de 2014.
Após um mapeamento de cerca de 500 páginas do Facebook, Marcelo Alves dos Santos Junior (2016) identificou uma rede de agentes não-institucionais que, apoiando-se em discursos amadores de combate à corrupção e em conteúdos de veículos jornalísticos e de agentes institucionais, fizeram campanha contra Dilma Rousseff e o PT no Facebook em 2014. “A Rede Antipetista é um agrupamento de ação não sistematizada político-midiática digital que alcançou dezenas de milhões de pessoas com suas mensagens contrárias à candidatura de Dilma Rousseff” (SANTOS JUNIOR, 2016, p.19). Ainda segundo esse autor, existem indícios de que algumas dessas páginas eram administradas por agências contratadas por partidos opositores para atuarem como agentes de oposição. Um dos exemplos citados por ele é a fanpage “O Implicante” que, segundo denúncia do Jornal Folha de São Paulo50, seria um canal contratado pelo Governo do Estado de São Paulo, representado por Geraldo Alckmin (PSDB), com a finalidade de produzir propaganda negativa contra o PT.
Porém, o caráter anônimo da gestão das páginas dificulta a análise precisa. O ambiente das mídias sociais é propício ao ataque e à criação de centrais de disseminação de propaganda negativa paralelas. No entanto, as agendas políticas cumpridas por parte dos canais dão pistas de seu lugar no contexto político nacional. Isso fica mais claro considerando a revolta de Olavo de Carvalho contra o PSDB e Aécio Neves depois da derrota. As referências ideológicas que inspiram estas fanpages são muito diversas: algumas delas adotam a retórica ultraliberal, enquanto que outras assumem o discurso conservador ou de direita radical. O que as unifica de forma geral como um agente político reconhecido é o antipetismo, isto é, a militância midiática contra um inimigo em comum: o Partido dos Trabalhadores (SANTOS JUNIOR, 2016, p.23-24). Diante disso, podemos constatar que muitas “direitas” começaram a se articular a partir de 2014 – todas, no entanto, com uma causa única: combater o PT e a candidatura de Dilma.
50 MENDONÇA, Ricardo. Blogueiro antipetista recebe pagamentos do governo Alckmin. Folha de São Paulo, 18 abr. 2015. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/04/1618288-blogueiro-antipetista- recebe-pagamentos-do-governo-alckmin.shtml>. Acesso em: 10 sep. 2017.
Ainda assim, uma Pesquisa Ibope51 de 7 de agosto de 2014 apresentava Dilma Rousseff com larga vantagem na disputa, com 38% das intenções de voto, enquanto Aécio encontrava-se confortavelmente na segunda posição com 23%, seguido por Eduardo Campos, com 9%. Dessa forma, desde o começo da eleição em 06 de julho, tudo levava a crer que a disputa se caracterizaria pela polarização que vem caracterizando as eleições presidenciais brasileiras desde 1994: PT versus PSDB.
A então presidenta Dilma Rousseff (PT) buscava a sua reeleição; Aécio Neves (PSDB), ex-governador do estado de Minas Gerais, pleiteava o retorno de seu partido ao governo federal, que esteve na presidência entre 1995 e 2002, com o governo FHC; e Eduardo Campos, ex- governador de Pernambuco representava o PSB, tendo como vice Marina Silva, que naquele momento tentava construir seu próprio partido (Rede Sustentabilidade). Até que em 13 de agosto de 2014, Campos faleceu em acidente aéreo e, num cenário de grande comoção nacional, sua vice foi escolhida pelo PSB para a disputa do cargo. Marina Silva já gozava de certo capital político, tendo em vista seu trabalho como ex-ministra do meio ambiente e sua candidatura à Presidência nas eleições de 2010.
A morte de Campos e sua substituição por Marina provocou um acirramento progressivo do conflito eleitoral. Já que, a partir daí, cada um dos três principais presidenciáveis esteve em algum momento à frente nas pesquisas52. Numa delas, realizada pelo Datafolha entre 28 e 29 de agosto, Marina Silva chegou a empatar com Dilma num cenário de 1° turno, com 34% das intenções de voto cada; e até ultrapassar a petista numa simulação de 2° turno – Marina tinha 47%, e a candidata do PT, 43%53. Assim, a entrada de Marina na disputa também afetou diretamente o candidato Aécio Neves. Esse último também teve sua imagem desgastada perante denúncias de corrupção: principalmente por ter usado recursos públicos, quando governava o Estado de Minas Gerais, para construir um aeroporto no terreno de um parente. Aécio chegou a negar as acusações em diversas ocasiões. No entanto, segundo apuração do Jornal Folha de São Paulo, era a família do candidato que detinha as chaves do portão do aeroporto e para pousar lá era necessário pedir autorização ao tio do então presidenciável54. Não obstante,
51 IBOPE: Dilma tem 38%, Aécio, 23% e Campos, 9% das intenções de voto. UOL, 07 ago. 2014. Disponível em: <https://eleicoes.uol.com.br/2014/noticias/2014/08/07/ibope-dilma-tem-38-aecio-23-e-campos-9-das-intencoes- de-voto.htm>. Acesso em: 10 sep. 2017.
52 Pesquisas Ibope e Datafolha disponíveis em: <https://eleicoes.uol.com.br/2014/pesquisas-eleitorais/brasil/2- turno/>. Acesso em: 10 sep. 2017.
53 Pesquisa Datafolha disponível em: <http://datafolha.folha.uol.com.br/eleicoes/2014/09/1509005-empatada-no- 1-turno-com-dilma-marina-abre-vantagem-no-2-turno.shtml>. Acesso em: 10 sep. 2017.
54 FERRAZ, Lucas. Governo de Minas fez aeroporto em terreno de tio de Aécio. Folha de São Paulo, 20 jul. 2014. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/07/1488587-governo-de-minas-fez-aeroporto- em-terreno-de-tio-de-aecio.shtml>. Acesso em: 10 sep. 2017.
passada a comoção nacional em função da morte de Campos e após ataques direcionados às mudanças no programa de governo e a algumas de propostas da candidata Marina, o resultado do primeiro turno acabou conduzindo PT e PSDB ao segundo turno.
Todo esse contexto apresentado até aqui, resultou na apertada reeleição de Dilma Rousseff com 51,64% dos votos válidos, contra 48,36% do candidato Aécio Neves. Sabemos que ainda outros fatores contribuíram para conformar o pano de fundo das eleições de 2014. Conforme os interesses dessa pesquisa, alguns deles serão melhor tangenciados no item 6.2, que trabalha as páginas dos candidatos numa perspectiva descritiva e processual.