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Contextualizando as entrevistas/conversas com as gestoras

2 SINTONIZANDO RIMAS E PASSOS: O TEORICO METODOLÓGICO

2.2 ENCONTRANDO/PRODUZINDO ACONTECIMENTOS

2.2.3 Contextualizando as entrevistas/conversas com as gestoras

Neste estudo, consideramos as entrevistas como campos de construção dialógica, em que o discurso de atores distintos vão se posicionando e construindo realidades fluidas que se materializam e/ou desmaterializam à medida que o jogo dialógico vai sendo jogado. Nesse contexto, há o roteiro prévio como dispositivo disparador do diálogo (Apêndice A) (MEDRADO, 1998; MÉLLO, 2007; SPINK; MEDRADO, 1999; MEDRADO; LYRA, 2015).

Assim, deixamos claro que aqui não entendemos de forma dicotomizada conversas e entrevistas; pelo contrário, entendemo-las apenas como perspectivas diferenciadas de aproximação dos(as) interlocutores(as), tendo sido os atores aqui denominados entrevistadas identificados no projeto original, em que foi pensado um campo-tema a ser construído nessa

interlocução. Os(as) denominados(as) nessa pesquisa interlocutores(as) estratégicos(as), pelo contrário, ao não terem sido visibilizados no projeto original, não apenas se fizeram presentes como nos convocaram para o diálogo. Eis então a justa medida da natureza da nomeação aqui dada ao grupo de interlocutores(as) deste estudo.

Outro elemento essencial a ser reinterado neste momento refere-se ao fato de termos entrevistado apenas as gestoras da política de saúde mental, quando, a partir de dado momento, ela foi cindida em eixos dicotomizados, ou seja, além da gerência de saúde mental, foi criada outra gerência, denominada redução de danos. Aprofundaremos essa questão e suas repercussões e controvérsias no capítulo dedicado à retomada histórica sobre a constituição da RAPS/Recife.

No momento, gostaríamos de compartilhar que mantivemos as entrevistas, tal como previsto inicialmente, por três motivos. O primeiro, mas não definitivo, vinculou-se ao limite de tempo para seu redimensionamento, enquanto o segundo e definidor dessa opção esteve ligado ao fato de termos identificado algumas produções no campo da e com a gestão no eixo da redução de danos, bem como por não estarem disponíveis produções que visibilizassem a perspectiva da/sobre a gestão da “saúde mental” (colocamos a expressão entre aspas para de fato visibilizar nosso estranhamento quanto a esse processo).

O terceiro motivo contribuiu para nossa posição: o alinhamento com a política nacional de SMAD, a qual vem assumindo e impulsionando os municípios a trabalharem de forma integral as questões de saúde mental, incluindo as vinculadas ao uso de drogas, repercutindo na reorganização da gestão da área técnica, que passou a ser conduzida em uma única gerência, ou seja, a de SMAD. Assim, as vozes advindas de campos específicos da saúde mental, em especial a atenção à crise, a desinstitucionalização, a redução de danos e o eixo infantojuvenil, serão consideradas de forma dialogada entre os discursos coletados de documentos e conversas-entrevistas.

Para a realização das entrevistas, formamos um conjunto de pesquisadores do Gema, do qual fazemos parte. Tal medida foi avaliada como necessária, visando a possibilitar que as entrevistadas entrassem em contato com pessoas de certa forma iniciantes no campo e, assim, pudessem se sentir estimuladas a retomar informações que talvez ficassem perdidas caso a própria doutoranda isoladamente conduzisse as entrevistas. Consideramos a estratégia bastante acertada, pois observamos que, de fato, as entrevistadas fizeram esse exercício de detalhamento de suas memórias acerca do tema pesquisado, solicitando por vezes confirmação ou até mesmo informações adicionais à doutoranda.

Os dias, horários e locais das entrevistas foram previamente acordados com as entrevistadas, que indicaram suas preferências. Uma única entrevista precisou ser realizada por Skype, uma vez que a entrevistada está morando em outro estado, e por isso não foi possível o encontro presencial. Algumas informações pessoais das entrevistadas que não foram obtidas nas entrevistas foram complementadas por pesquisa em seus currículos Lattes e em publicações em Diários Oficiais, o que consideramos meios bastante frutíferos, embora muitas vezes não sejam usados para tais fins.

Nossas entrevistadas foram identificadas a partir de suas inserções na rede local por terem exercido a função de gestora da PSMAD imediatamente anterior à aprovação da Lei no 10.216/2001 até o ano 2012, que corresponde ao período imediatamente posterior à instituição da RAPS pela Portaria Ministerial no 3.088/2011 (BRASIL, 2001a, 2011a). Realçamos ainda em relação aos(às) interlocutores(as) estratégicos(as) que sua participação se deu de forma voluntária e consentida. Adotamos como critério de inclusão para a presente pesquisa o(a) participante ter sido gestor(a) da política de saúde mental do município de Recife entre os anos 2000 e 2012. Dessa forma, contamos com um universo de sete possíveis participantes, todos(as) maiores de 18 anos de idade.

Como critério de exclusão, foi pensado o fato de o(a) gestor(a) ter deixado de atuar profissionalmente no campo da saúde mental há mais de três anos, período em que ocorreram transformações consideráveis na oferta do cuidado em saúde mental. No entanto, no decorrer do aprofundamento teórico e da prática de pesquisa, percebemos que não caberia adotar tal critério, uma vez que, em se tratando de um estudo de memória, deixaríamos de registrar a perspectiva de quem esteve influindo na construção da referida política, mesmo que por tempo limitado.

Na prática, das sete possíveis participantes previstas como interlocutoras inicialmente, conseguimos localizar seis, todas do sexo feminino. Dessas, cinco psicólogas e uma terapeuta ocupacional. Todas elas não apenas aceitaram de pronto participar da pesquisa, mas demonstraram considerá-la de grande relevância, por sistematizar uma produção pouco visibilizada. Das seis, Márcia (2007-2008) e Adriana (2009) saíram da atuação profissional direta na saúde mental, mas de alguma forma mantêm certa ligação com o campo.

A única participante não localizada foi rastreada por documentos físicos e virtuais e de interlocutores(as) estratégicos(as) da rede, ou seja, pessoas que estavam na RAPS no período em que ela havia exercido a função de gestora. Chamou nossa atenção nesse rastreamento o fato de quase total esquecimento dos que vivenciaram esse momento em relação a essa

pessoa.3 Aos poucos, conseguimos entender que de fato a coordenação de saúde mental, até 2001, não gozava do status que passou a ter após esse período. As razões para isso serão discutidas no decorrer do processo de análise da pesquisa. Em posse dos dados sobre as entrevistadas, consolidamos seu perfil a partir dos quadros a seguir.

3 Chegamos a identificar, com nossa interlocutora estratégica Ester Correa, o primeiro nome dessa pessoa, o qual

foi confirmado por outras interlocutoras; no entanto, ninguém soube identificar seu percurso profissional após sair da gestão. Ainda tentamos localizá-la pelas redes sociais, mas ainda assim não obtivemos sucesso.

Quadro 1 – Informações básicas sobre as entrevistadas Entrevistada (nome fictício) Gestão Instituição de ensino/estágios/práticas de formação Formação Atividades profissionais anteriores à gestão em Recife

Atividades profissionais posteriores à gestão em Recife Francisca 2001-2004 Gestora de Recife aos 29 anos Fafire Cecop/Graduação Coordenação Estadual de SMAD/Residência Psicóloga (1994); Especialização em Psiquiatria Social (1996); Especialização em Residência em Saúde Pública (1997);

Mestrado em Saúde Coletiva (2009-2011);

Doutoranda em Psicologia (a partir de 2016).

Técnica do CAPS Estação Cidadania (Cabo de Santo Agostinho);

Gerente do CAPS Estação Cidadania (Cabo de Santo Agostinho);

Coordenação de SMAD (Cabo de Santo Agostinho).

Consultora do Ministério da Saúde na coordenação de SMAD;

Docente em vários cursos de especialização de SMAD;

Técnica concursada da Prefeitura de Recife no CAPS III David Capistrano; Coordenadora estadual de SMAD de Pernambuco;

Técnica concursada da Prefeitura de Recife na Coordenação de Saúde Mental de Recife;

Apoiadora do Projeto Redes da Senad/Fundação Oswaldo Cruz.

Antônia 2005- mar./2006 Gestora de Recife aos 30 anos UFPE Psicóloga (1997);

Especialização em Saúde Pública (1998);

Mestrado em Psicologia (2004); Doutorado em Psicologia (2011).

Técnica do CAPS Estação Cidadania (Cabo de Santo Agostinho);

Gerente do CAPS Estação Cidadania (Cabo de Santo Agostinho);

Coordenação de SMAD (Cabo de Santo Agostinho); Gerente do CAPS Galdino Loreto (Recife/DS V).

Professora da Universidade Federal de Pernambuco. Márcia abr./2006- 2008 Gestora de Recife aos 54 anos Fafire Psicóloga (2001); Especialização em Programas de Saúde da Família (2002); Especialização em Metodologia da Avaliação em Saúde (2008); Mestrado em Avaliação em Saúde (2011).

Banco do Brasil (anterior ao curso de psicologia); Coordenação da Associação dos Portadores de Deficiência (Banco do Brasil); Técnica da equipe da GSMAD (Recife);

Gerente do CAPS Esperança (Recife/DS III).

Técnica concursada do CAPS Esperança (Recife/DS III);

Coordenadora da Auditoria da Saúde (Recife).

Quadro 1 – Informações básicas sobre as entrevistadas (continuação) Entrevistada (nome fictício) Gestão Instituição de ensino/estágios/práticas de formação Formação Atividades profissionais anteriores à gestão em Recife

Atividades profissionais posteriores à gestão em Recife Adriana jan.-jun./2009 Gestora de Recife aos 39 anos Fafire-UFPE Estágio no HUP Estágio na Coordenação de Saúde Mental de Olinda Psicóloga (1995); Especialização em Saúde Mental (1998); Especialização em Dinâmica de Grupo Gestão de Equipes (2001); Mestrado Profissional em Política e Gestão em Ciência e Tecnologia; Centro de Desenvolvimento Sustentável (2013).

Técnica da Coordenação de Saúde Mental de Olinda; Técnica do CAPS Estação Cidadania (Cabo de Santo Agostinho);

Gerente do CAPS Estação Cidadania (Cabo de Santo Agostinho).

Técnica concursada do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Sandra jul./2009- abr./2012 Gestora de Recife aos 36 anos UFPE Cecop/Graduação Terapeuta ocupacional (1995); Especialização em Saúde Mental (2006);

Mestrado em Saúde Pública (2010).

Acompanhante terapêutica/Cecop;

Técnica em vários CAPS da Região Metropolitana; Técnica da primeira Residência Terapêutica de Camaragibe;

Técnica do Hospital Colônia de Barreiros;

Gerente do CAPS Espaço Vida (Recife/DS IV).

Consultora do Ministério da Saúde pelo Humaniza SUS;

Técnica concursada do CAPSadi Luís Cerqueira (Recife/DS I);

Coordenadora de Saúde Mental de Jaboatão. Patrícia maio- dez./2012 Gestora de Recife aos 35 anos Unicap Estágio na Ação

Avançada (Saúde Mental na Atenção Básica) em Recife/DS VI Estágio na GSMAD de Recife Psicóloga (2002); Especialização em Saúde Mental (2004);

Mestranda em Saúde Mental.

Técnica da GSMAD/Recife; Técnica do CAPS Galdino Loreto;

Gerente do CAPS II Boa Vista (Recife/DS I).

GSMAD da Secretária Estadual de Saúde de Pernambuco;

Técnica da GSMAD da Secretária Estadual de Saúde de Pernambuco.

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