Contos Dois e Três – Das docências na escola do campo

No documento A EDUCAÇÃO DO CAMPO EM CAÇAPAVA DO SUL: EXPERIÊNCIAS QUE SE PRODUZEM NA HISTORICIDADE (páginas 65-70)

4. EXPERIÊNCIA, ESPAÇO E HISTÓRIA

4.2 Um e vários contos

4.2.2. Contos Dois e Três – Das docências na escola do campo

Produzido a partir das entrevistas com o professor Cravo, hoje diretor e professor das turmas de pré 1, pré 2, quarto e quinto ano. Tem experiência nas Escolas do Campo multisseriadas há mais de 10 anos. Trabalha também no Projeto da Bolsa Escola, na assistência social, onde acompanha os alunos que recebem esse auxilio do governo. Morador da localidade do Santa Bárbara, vai à escola na maioria das vezes de moto. A professora Girassol, escritora nata, é concursada 40h no magistério municipal, estando também em fim de carreira, assim como a Acácia. Tem experiência com as escolas multisseriadas, pois já foi coordenadora da educação do campo na SEDUC. Leciona nas turmas de alfabetização, e é aberta a projetos novos, como foi na volta às aulas, com o ensino híbrido em 2021, onde reunimos os alunos a partir dos níveis de aprendizagem. Os dois professores lecionam na escola Lino Azambuja, assim a entrevista foi com os dois, mas separada em dois contos, pois, apesar da aproximação das falas, cada um se afeta de uma maneira, cada experiência conta aquilo que os marcou; dessa forma trouxe de forma individual, para melhor entendimento e preservação de cada experiência.

Conto Dois - Professora Girassol:

Eu estudei em escola multisseriada até o 5º ano. [Era] No rincão da Palmeira, não existe mais. [Sobre a ficha “Modos de ser Escola do Campo”]: Essa imagem que me vem na cabeça, parece assim Paulo Freire, né, no campo... [Dos materiais disponibilizados pela SEDUC] na época não vinham os livros do MEC que agora vem para a educação infantil, já destinada a essa faixa etária, então eram poucos recursos. [Ainda sobre essa ficha] e dá pra ver ali que está todo mundo interessado, eles estão...[participando] [da experiência do colega Cravo] sim, eu trabalhava na coordenação das escolas do campo e o professor Cravo morava no Rincão da Tigra, na escola, então eu ia lá visitar o colega Cravo ia levar as (inaudível). Depois uma época, Cravo foi transferido para o Santa Bárbara, e ficou um dia ou dois, se desesperou, aí a professora “M” [Secretária de Educação da época] mandou buscar, volta o Cravo para o Rincão da Tigra.

Nós ia almoçar lá, Cravo fazia até sobremesa lá. Eu tenho as fotos, já que tu tá fazendo teu estudo, eu tenho porque na época que eu trabalhei na secretaria a gente revelava fotos para ter os registros, então eu revelei as fotos e eu pegava a revelação. Quando chegou no final, eu disse para a professora “M”, que era Secretária de Educação: essa pasta eu vou levar comigo. Começamos com 17 Escolas do Campo em 2001, então depois foram se desativando, então ficaram 8 ou 9. [sobre a onda de desativação] [Foi] Por causa do transporte escolar. Os pais preferiram as escolas maiores, numa visão de que era melhor, e ai o que que eu sinto, onde foi desativado, perdeu-se a comunidade, o ponto de encontro, aqui mesmo, né, Cravo. Aqui é o ponto de encontro da comunidade. Onde tinha a escola. [falando sobre a ficha “A escola é sobretudo gente”] É, e nós fazíamos, na época, SMEC na escola, que era o nome do projeto, e nós íamos passar o dia numa escola. Passávamos o dia na Vila Progresso [e nas outras escolas], e eles faziam almoço para a comunidade, não eram só os pais, ia toda a comunidade pra lá, fazíamos mutirão de limpeza, colocávamos cartazes, ajudávamos os professores a dar um visual novo para a escola, e eu tirava as fotos, até tenho pra te mostrar, é um relíquia, né. Aí, depois a gente começou, depois que fizemos essa parte do prédio, nós também pegamos a parte pedagógica, daí nós levávamos teatro, a “A” [professora de artes] levava violão, cantávamos com as crianças, a “I” [pedagoga] também tinha uma parte de teatro, aí nós apresentávamos teatro e tal, fomos inovando. [no Rincão da Tigra] a comunidade era muito boa, eles acolhiam muito. [Quando fechou a escola] Não foi na minha época que fechou, foi depois que eu sai. [Na escola] e na época do Cravo, ele fez até investimentos, fizeram uma área na frente com cimento. A escola estava muito organizada. [E os programas do governo] que vieram para melhorar, para beneficiar. [A comunidade tem] respeito ao professor. Até as pessoas de mais idade. A gente é psicóloga, eles confiam, desabafar com o professor. [A outra professora antes do Cravo no Rincão da Tigra era] A “L” [que] tinha faculdade em Bagé, de matemática. Então, pra ela, aquela escola era muito de fácil acesso, ela era uma pessoa que precisava trabalhar para pagar a faculdade. Como a maioria, né, então a escola, o Rincão da Tigra, era tida como a escola do fim do mundo, mas se eu precisasse trabalhar na Escola do Campo seria no Rincão da Tigra. A distância da faixa não era tão longe, passava os ônibus duas vezes ao dia, tanto para Bagé como para Caçapava, se tu quisesse se deslocar para

qualquer cidade tu teria como, não tinha uma sanga, um arroio que se chovesse atacasse, né, Cravo? Era uma questão de campo, saída do campo. Aí a professora trabalhava na escola de manhã, à tarde planejava as aulas dela, pegava a mochila da faculdade e subia até uma casa que tinha na beira da faixa, uma fazenda, para esperar o ônibus que vinha de Caçapava para Bagé. Ela ia, retornava à noite, posava naquela fazenda, de manhã já descia para a escola e dava aula. Era assim a rotina da “L”. [Na fazenda] tinha um quartinho pronto. [A escola], então, não era tão longe da faixa, mas ir e voltar todos os dias não tinha como. Melhorou bastante quando a prefeitura levava segunda e buscava na sexta.

Ficou um espetáculo. [Quando eu era criança] eu estudei no Durasnal, em 85, 86. Tinha duas Kombis do transporte escolar, do Durasnal, uma da Vila Progresso e uma do Seivalzinho, que eram pais de alunos que eles fretavam particular, os vizinhos pagavam para levar para a escola. Uma lá do Seivalzinho era o pai de uma colega, ele tinha uma Kombi amarela, nunca vou me esquecer a cor, e ele ia do Seilvalzinho até o Vítor Costa, ele levava a filha dele, mais os vizinhos que pagavam ele pra levar de Kombi, ele ficava esperando. [Depois] conseguiram ajuda da prefeitura para pagar combustível, ajuda, e aí depois veio o transporte escolar, e iniciou então com esses dois pais. Porque nas escolas multisseriadas só tinha até a 5ª série. [A escola que eu estudei tinha] uns 2km da minha casa até a escola, era todo mundo no mesmo horário, a gente ia se agrupando, era tão bom, iam se enturmando, agregando, saíamos de casa eu e meu irmão e chegava na escola em 10, 12 crianças, era uma turma. E a professora morava do lado da escola, e nós chegava e ficava brincando na frente da escola até a professora chegar. Jogava bola, corria, brincava. No inverno as aulas passavam para o turno da tarde, e no verão as aulas eram no turno da manhã. Então sempre vinha a determinação da cidade de quando as aulas iam mudar de turno. Era bom porque a gente não faltava às aulas. [Nos relatórios] aluno subnutrido, já começa essa visão de criança com deficiência. [É importante] de ver a criança no seu tempo, e isso até as mães perguntam pra gente, ele vai passar professora, para que série? E eu chego até a me esquecer de que ano está o aluno, tem que procurar na ficha. [Não faz diferença entre idade/ano matriculado] porque ali estão todos com o mesmo interesse, leitura alfabetização, são tão curiosos, não vejo essa necessidade, se bem que é uma turma pequena né, que é uma realidade diferente da cidade, fizemos essa intervenção [grupo de alfabetização] pensando no progresso deles. Se tivesse deixado nas turmas em que estão matriculados não teria esse sucesso, acredito que tivemos sucesso, progresso, em pouco tempo.

Eles lendo, se tivessem numa turma normal eles não teriam esse resultado, o professor não teria como atender eles, terceiro ano não estando alfabetizado, não teria como atender ele e os outros. [Temos qualidade] A nossa escola aqui mesmo tem uma estrutura muito boa, tem prédio e tudo, porque levar para cidade?

O transporte poderia trazer pra cá, seria o mesmo itinerário. Eu acredito [na má fama da multisseriação] porque também as vezes falta incentivo, cursos, nossa escola não pode se queixar, que nós temos todo apoio da SEDUC, mas teve épocas que não teve. Tinha uma época que, quando eu entrei na SEDUC, nós observamos que as Escolas do Campo estavam esquecidas. Nós fazíamos o antes e o depois, na parte estrutural do prédio, nós víamos que as escolas

estavam esquecidas. E se elas estavam esquecidas na manutenção, eu creio que o pedagógico também, então a gente tentou fazer um pouco no prédio e no pedagógico na época. Então era mais fácil fechar a Escola do Campo e levar esses alunos para outra escola, do que se deslocar com transporte para o professor, achar um professor, então eram “n” coisas que era mais fácil o fechamento, manter uma escola no campo não é fácil. Aqui a gente fica meio que sozinhos, trocamos ideias entre colegas, não é que nem equipe, não tem ninguém para socorrer, aqui peço ajuda para o Cravo, o que numa escola maior é diferente.

Existe uma coordenação, uma equipe, e por aí a questão, em ver uma escola maior como melhor, e nós aqui trabalhamos com projeto, a gente ensina. Temos esse olhar para o aluno diferenciado, a gente conhece a família, sabe as necessidades, angústias... [Quando estudávamos] usávamos calça jeans ou azul e camisa branca. E minha mãe era costureira, então ela bordava um E e um M (escola municipal) no bolso da camisa. Eram determinados os dias da semana para ir de uniforme. [Na hora da merenda] a gente abria nossa sacolinha e pegava a merenda, era pão caseiro, coisa de casa, roscas, carne frita, laranja, coxinha enfarofada, bergamota, pão com chimia. [Os alunos do Lino Azambuja]

alguns, né, Cravo, a gente sente assim, e comentamos, não têm uma horta, a gente faz aqui na escola, eles levam as mudas, mas notamos que são poucas famílias que trazem coisas de horta, às vezes eles vão na cidade comprar um tempero porque não tem em casa, claro que tem exceções, alguns tem hortas lindíssimas, mas tem uma maioria que falta essa cultura. [Eles não têm] iniciativa, na verdade. Tem um casal, por exemplo, que vive no balneário [do Santa Bárbara]. Poderiam aproveitar que estão indo famílias no balneário, vender pasteis, mas não, eles não têm inciativa, empreendedorismo, fazer alguma coisa diferente. Muitas mães ficam na rotina de ficar somente em casa, não têm uma horta, e é geralmente o casal. Tem famílias aqui que compram pães de outras famílias porque as crianças entregam umas para as outras. Aí a que vende é a que não precisava, e quem compra não tem condições. [E] tem muitos programas do governo que os deixam acomodados, muito precisam, são beneficiados, mas outros só esperam. Na época da pandemia, que entregávamos cestas básicas, tínhamos que acordar as famílias pra receberem um benefício. Nós na chuva ou no solaço e eles sesteando, tínhamos que abrir porteira, esperando eles. E outros que deixavam de pegar cestas aqui na escola porque tinham que levar até em casa. Ou moram com a avó, que é aposentada, e todos vivem daquele benefício.

Conto Três - Professor Cravo:

[Eu não estudei na Escola do Campo] Trabalhei na Escola do Campo. Parece quando comecei a trabalhar, no Rincão da Tigra, que não tinha livro, não tinha nada, a SEDUC que emprestava livros uma vez por semana, eu levava e era essa festa. Aquilo tudo era novidade, levavam para casa [os livros de histórias] [os materiais]. Eram pastinhas com 10, 20 livros cada pastinha e a gente pegava uma e levava para a escola emprestado e depois devolvia [para a SEDUC], jogos também. Aí a gente fazia assim, lembra Girassol, tinha a cerca bem na frente da escola, quando eu vi assim parecia lá [Rincão da Tigra], acho que não é, e

colocava os livrinhos assim, sentado na frente ali ó. [apontando para a ficha

“Modos de ser escola do campo”] Eu tinha da primeira a 5 série. E fazia a merenda também. E morava lá, dentro da escola, a cozinha era a minha casa [no ano de 2001 a 2004]. De noite eu baixava a cama e de dia eu levantava a cama, era na cozinha, desse tamanhinho, a escola toda era um pouco maior que essa sala, né, Girassol (risos). Eram 10 [alunos]. Uma noite dormi até com uma cobra.

Na época, era a única escola que tinha energia solar, uma coisa pioneira, né. Não sei como chegou aquela luz lá. [Fiquei] três anos. Dois de contrato e um de nomeação. [Saí porque fechou], se não eu tava lá até hoje. Eu adorava.

Fecharam na época que entrou o “J.E” [prefeito da época]. Que fechou. A gente foi lá, não tinha ninguém na escola, disseram “hoje vamos fechar”, e fechou. [O prédio] era de madeira. [Fizeram uma área com cimento na frente] porque era só sala de aula, e depois, no tempo da “L”, fizeram a parte de baixo, cozinha, que não tinha, e o banheiro. Aí, depois, no outro ano que eu fui pra lá, eu fiquei três anos, fiz a área da frente e mudei o banheiro, a porta que entrava eu mudei para outro, da sala para a cozinha. [No início] não tinha missa, a “L” andou levando, uma vez, um pastor, daí a comunidade não foi nada receptiva com o pastor, aí eu cheguei lá e como já tinham me passado que não tinham gostado, aí como eu tava chegando, conhecendo a comunidade, aí convidei uma padre pra ir lá, o padre foi, a comunidade achou um máximo, eles nunca tiveram missa lá, daí todo mês tinha missa, almoço comunitário no dia da missa, dei catequese para os que não eram catequisados, e depois crisma. Uma vez o pastor, nunca vou me esquecer, que eu cheguei lá e tinha epidemia de piolho, chegava a cair em cima da mesa, coisa mais horrível. Daí a secretaria dava remédio para colocar na cabeça, e eu botava.

Daí eu levei nesse mesmo dia um mimeógrafo e passava para a toda semana, mais para um mês, porque era de outro mundo na escola, lá fora, um mimeógrafo!

Aí, nesse dia, um dia frio, nós tudo encerrado na sala, eu botei remédio na cabeça das crianças, atei um pano branco [na cabeça], fiz aquele monte de folha, um pacote, forrei todo o chão, não tinha nem onde pisar na sala. Batem na porta, eu abro a porta, o pastor. As crianças com tudo a cabeça enrolada, aquele monte de folha branca no chão. Olhou para mim, “é louco esse professor”, nunca mais botou os pés ali na escola (risos). Aquela cena traumatizou, imagina, com pano atado na cabeça. Quando eu vinha na cidade posava lá também [na mesma fazenda que a “L” posava], para de manhã cedo pegar o ônibus. Não tinha como não morar. É um trecho grande de faixa [75km], de chão não, tinha 4km [mas que por muitas vezes fazia a pé, carregando inclusive botijão de gás para a merenda].

E como a gente era contrato, não dava transporte. [Ia na cidade] de 15 em 15 dias. Não precisavam me buscar, eu ia até de carona, na faixa e pegava, só pedia para me trazer na segunda. Toda a segunda o “M” me levava [motorista da prefeitura]. [Na Escola do Campo] a gente conhece a necessidade individual de cada um. [No Rincão da Tigra], carne e doce sempre tinha. Lá não tinha luz e quando matavam porco distribuíam os pedaços já cozidinha né. Doces em conserva... [sem luz na escola, no calor] fazer o quê, a água era do Rio Camaquã para tomar banho. A água não era muito potável, lá na escola era bem precária. Em época de seca, que secava a fonte, era no rio Camaquã, que era longe. De tardezinha tomava banho no Camaquã, às vezes pescava, já assava o

peixe. [O planejamento das aulas] eu fazia de tarde, porque eu ficava na escola, né, aí lavava [a louça] depois, e as crianças também lavavam. Tinha escala para ajudar, limpar banheiro, lavar a louça, servir. [Na merenda] vinha mingau pronto, arroz e feijão, só misturava a água, sopão, massa pronta, botava água e fervia.

Muito mais prático. [No Lino Azambuja tinha um aluno que] tinha 70 anos. Fazia educação física, o “G” quase matava, eu dizia “dá uma folga pra ele”, e o professor dizia “mas ele quer” e corria para se aquecer, ficava esbaforido. [As crianças]

adoravam, faziam apresentação, dia das mães, e ele juntinho falando verso e cantando. Eu dizia, “não precisa fazer a apresentação” e ele dizia “mas eu quero”.

Decorava versinho, igual as crianças. Ele queria tirar carteira de motorista e não era alfabetizado, daí ele tava no EJA, na cidade, no Januária [escola estadual], de noite, mas ficava difícil ele ir todos os dias. Aqui ele usava o transporte, usava o uniforme. E tinha outra mãe que estudava aqui também. Tinha dois filhos.

Fazíamos um projeto de alfabetização dos pais. Ficou dois anos, mas com muitas dificuldades. Depois a mulher de G adoeceu, tinha que cuidar dela, não podia vir todos os dias. As atividades dele era um pouco diferenciadas, pela idade. Mas recortava e colava, tinha dificuldade na motricidade. [Não se alfabetizou]. [Pega a ficha Por que não trabalhas?] Tem alguns pais que têm lavoura, negociam na escola animais, quitanda, pão. E tem famílias que necessitam de uma renda extra e quando chegamos nas casas estão deitados.

4.2.3. Conto Quatro – Ser mãe e família de crianças que estão na escola do

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