1.3. E SPÉCIES DE CONTROLE
1.3.4. Controle compartilhado
Considera-se compartilhado o controle assim caracterizado pela associação de interesses de dois ou mais acionistas titulares de ações votantes, os quais, isoladamente, não conseguiriam controlar a companhia. Mediante o estabelecimento de regras de conduta acerca do exercício do direito de voto, os acionistas conseguem unir seus esforços para, juntos, imprimirem suas vontades nas assembléias-gerais.
Em razão de a LSA admitir a existência de controlador de fato, conforme acima mencionado, a associação dos interesses dos acionistas pode tanto assumir a forma
verbal, quanto ser formalizado nos termos do art. 118 da LSA48, o qual regulamenta o acordo de acionistas.
1.3.4.1. Acordo de acionistas
Na definição de CELSO BARBI FILHO, o acordo de acionistas é “um contrato entre acionistas de uma mesma companhia, distinto de seus atos constitutivos, e que tem como objeto o exercício dos direitos decorrentes da titularidade das ações”49.
Mediante a celebração do acordo de acionistas, busca-se a composição de interesses, criando vínculos obrigacionais entre as partes contratantes, vínculos esses que, como mencionado pela definição acima transcrita, refletem diretamente no exercício dos direitos resultantes da propriedade das ações representativas do capital social de uma
48 Lei n. 6.404/76: “Art. 118. Os acordos de acionistas, sobre a compra e venda de suas ações, preferência para adquiri-las, exercício do direito a voto, ou do poder de controle deverão ser observados pela companhia quando arquivados na sua sede.
§ 1º As obrigações ou ônus decorrentes desses acordos somente serão oponíveis a terceiros, depois de averbados nos livros de registro e nos certificados das ações, se emitidos.
§ 2° Esses acordos não poderão ser invocados para eximir o acionista de responsabilidade no exercício do direito de voto (artigo 115) ou do poder de controle (artigos 116 e 117).
§ 3º Nas condições previstas no acordo, os acionistas podem promover a execução específica das obrigações assumidas.
§ 4º As ações averbadas nos termos deste artigo não poderão ser negociadas em bolsa ou no mercado de balcão. § 5º No relatório anual, os órgãos da administração da companhia aberta informarão à assembléia-geral as disposições sobre política de reinvestimento de lucros e distribuição de dividendos, constantes de acordos de acionistas arquivados na companhia.
§ 6º O acordo de acionistas cujo prazo for fixado em função de termo ou condição resolutiva somente pode ser denunciado segundo suas estipulações.
§ 7º O mandato outorgado nos termos de acordo de acionistas para proferir, em assembléia-geral ou especial, voto contra ou a favor de determinada deliberação, poderá prever prazo superior ao constante do § 1o do art. 126 desta Lei.
§ 8º O presidente da assembléia ou do órgão colegiado de deliberação da companhia não computará o voto proferido com infração de acordo de acionistas devidamente arquivado.
§ 9º O não comparecimento à assembléia ou às reuniões dos órgãos de administração da companhia, bem como as abstenções de voto de qualquer parte de acordo de acionistas ou de membros do conselho de administração eleitos nos termos de acordo de acionistas, assegura à parte prejudicada o direito de votar com as ações pertencentes ao acionista ausente ou omisso e, no caso de membro do conselho de administração, pelo conselheiro eleito com os votos da parte prejudicada.
§ 10. Os acionistas vinculados a acordo de acionistas deverão indicar, no ato de arquivamento, representante para comunicar-se com a companhia, para prestar ou receber informações, quando solicitadas.
sociedade. Cumpre ressaltar, porém, que somente se revestido na forma escrita o acordo de acionistas se torna eficaz perante a sociedade e terceiros, o que ocorre mediante o seu arquivamento na sede da sociedade e averbação nos livros sociais.
Desta feita, o acordo de acionistas constitui um instrumento de formação ou manutenção do controle, uma vez que a própria LSA entende por acionista controlador “o grupo de pessoas vinculadas por acordo de voto”, conforme dispõe o caput do seu art. 116. Com efeito, considerando que o acordo de acionistas pode ter como objeto o exercício do direito de voto, ele pode ser utilizado, consequëntemente, como forma de se obter ou manter o controle acionário. Para que isso se verifique, o grupo de acionistas que se unir por meio do acordo deverá alcançar a maioria dos votos nas deliberações da assembléia-geral ou o poder de eleger a maioria dos administradores, orientando, assim, os negócios sociais.
Os interesses dos acionistas protegidos e regulados por acordo, todavia, devem sempre estar alinhados com os objetivos legais, de maneira que a finalidade do controle não contrarie o estatuto social nem o interesse social, e que o acordo de acionistas não seja utilizado como instrumento de violação de um deles ou de ambos. Isso significa afirmar que o acordo não pode servir de mecanismo para o exercício de um controle que seja lesivo à sociedade e aos seus acionistas, isto é, que caracterize abuso de poder.
Importante ressaltar que em nosso ordenamento jurídico o acordo de acionistas não envolve a propriedade e a posse das ações, de modo que, não obstante o acionista se submeter a certas restrições negociais em razão do acordo firmado, a titularidade e a posse das suas ações são conservadas.
O acordo de acionistas poderá ter por objeto o exercício do direito de voto ou a alienação das ações, denominando-se a primeira modalidade acordo de voto, e esta última, acordo de bloqueio.
O acordo de voto, que tem como espécies o acordo de comando e o acordo de defesa, visa ajustar previamente os interesses dos acionistas no que diz respeito ao exercício do direito de voto, abrangendo as matérias que sejam levadas à deliberação da assembléia-geral, por força de lei ou do estatuto social.
O acordo de comando é aquele que visa manter ou alcançar o controle acionário, garantindo para os acionistas a ele vinculados a preponderância nas deliberações da assembléia-geral. Já o acordo de defesa, traduz-se como aquele que busca organizar a minoria dos acionistas, para que estes possam proteger os seus interesses na sociedade e, também, os interesses da própria sociedade. Contudo, para que esses minoritários possam efetivamente organizar-se na forma de um acordo de voto e, assim, contrabalançar o poder de controle, é imperativo que detenham ações representativas de, no mínimo, 5% (cinco por cento) do capital social, quorum mínimo estabelecido pela LSA para o exercício de determinados direitos.
O acordo de bloqueio, por sua vez, é o que busca restringir a transmissibilidade das ações por meio da imposição de alguns critérios objetivos para tanto, tendo em vista que a negociabilidade das ações não pode ser vedada.
O acordo de acionistas é, portanto, um importante instrumento na obtenção e/ou manutenção do controle interno/controle compartilhado da companhia e, por essa razão, sempre irá merecer uma atenção especial.