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5 PODERES, DISCURSOS E VERDADES

5.2 CONTROLE DO DISCURSO JURÍDICO

A essa altura o leitor deve estar se perguntando como articular esses conceitos ao espaço

no qual se propôs realizar a pesquisa. Como inseri-las no processo e julgamento do estupro.

Primeiro, deve-se ter em mente que o sistema judiciário é um espaço que engendra um

domínio de saber específico, com objetos, conceitos, técnicas, sujeito de conhecimento, como já

dissemos. É igualmente um dos locus com procedimento singular para o estabelecimento da verdade.

Por outro lado, parece-me que existem, na sociedade, ou pelo menos, em nossas

sociedades, vários outros lugares onde a verdade se forma, onde um certo número de

regras de jogo são definidas – regras de jogo a partir das quais vemos nascer certas

formas de subjetividade, certos domínios de objeto, certos tipos de saber – e por

conseguinte podemos, a partir daí, fazer uma história externa, exterior, da verdade.

As práticas judiciárias – a maneira pela qual, entre os homens, se arbitram os danos e

as responsabilidades, o modo pelo qual, na história do Ocidente, se concebeu e se

definiu a maneira como os homens poderiam ser julgados em função dos erros que

haviam cometido, a maneira como se impôs a determinados indivíduos a reparação de

algumas de suas ações e a punição de outras, todas essas regras ou, se quiserem, todas

essas práticas regulares, é claro, mas também modificadas sem cessar através da

história – me parecem uma das formas pelas quais nossa sociedade definiu tipos de

subjetividade, formas de saber e, por conseguinte, relações entre o homem e a verdade

que merecem ser estudadas (FOUCAULT, 2012b, p. 11).

Vários são os discursos de verdades possíveis em uma sociedade. Entretanto, no

sistema judiciário “estes discursos são produzidos pelos técnicos, peritos, por pessoas

qualificadas baseadas em estudos científicos, ou como discursos formulados, enfim, pessoas

que o poder judiciário atribui poderes de dizer a verdade” (GOMES, 2010, p. 3).

Como nada lhe escapa, também pela instituição judiciária atravessam relações de

poder, dominação e subserviência, de enfrentamento. Diante disso, os discursos dos processos

podem ser vistos como um jogo

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estratégico de ação e reação, de pergunta e de resposta na

busca da determinação da verdade.

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“O termo ‘jogo’ pode induzir a erro; quando eu digo ‘jogo’ digo um conjunto de regras de produção de verdade.

Não é um jogo no sentido no sentido de imitar ou fazer comédia de; é um conjunto de procedimentos que

conduzem a um determinado resultado, que não pode ser considerado, em função de seus princípios e de suas

Teria então chegado o momento de considerar esses fatos de discurso, não mais

simplesmente sob seu aspecto linguístico, mas, de certa forma – e aqui me inspiro

nas pesquisas realizadas pelos anglo-americanos – como jogos (games), jogos

estratégicos, de ação e de reação, de pergunta e de resposta, de dominação e de

esquiva, como também de luta. O discurso é esse conjunto regular de fatos

linguísticos em determinado nível, e polêmicos e estratégicos em outro.

(FOUCAULT, 2012b, p. 09).

O processo é uma forma regulamentada de descoberta da verdade (meio no qual a

verdade se enuncia) e de ritualização das lutas. As peças processuais, por sua vez, são a

realidade material do discurso e palco do jogo estratégico entre os indivíduos falantes.

Investigar o tipo de discurso que é desenvolvido durante o processo e julgamento, a

maneira como os atores se fazem preguntas e respondem umas às outras (FOUCAULT, 2012),

propicia a identificação das estratégias empregadas de uns em relação aos outros, as táticas

empregadas para chegar à verdade.

O problema seria saber se não poderíamos estudar a estratégia do discurso num

contexto histórico mais real ou no interior de práticas que são de um tipo diferente das

conversas de salão. Por exemplo, na história das práticas judiciárias me parece que se

pode reencontrar, pode-se aplicar a hipótese, pode-se projetar uma análise estratégica

do discurso no interior de processos históricos reais e importantes (FOUCAULT,

2012b, p. 139).

A partir desse momento, destacaremos algumas das obras de Foucault sobre o sistema

judiciário a fim de especificar as informações relevantes trazidas por cada uma para esta

pesquisa em específico.

Na obra “A Verdade e as Formas Jurídicas”, Foucault (2012) faz uma evolução das

práticas judiciárias na história, discorre evidenciando as formas racionais de prova de cada

período e sua capacidade de autenticar a verdade. Dentre elas, fala sobre o testemunho no

inquérito.

Por meio da tragédia de Édipo

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, mostra que na Grécia antiga o procedimento de

pesquisa da verdade passava por testemunhos: o do futuro, proferido pelas figuras divinas que

profetizaram a conspurcação; do presente, relatado pelos reis envolvidos na conspurcação; do

passado, onde o depoimento dos escravos representa o olhar daqueles de contestar e abater o

orgulho do rei ou a presunção do tirano (FOUCAULT, 2012b).

regras de procedimento, como válido ou não, vencedor ou perdedor” (FOUCAULT, 1994, p. 725 apud COSTA,

2009, p. 423).

Esta grande conquista da democracia grega, este direito de testemunhar, de opor a

verdade ao poder, se constitui em um longo processo nascido e instaurado em forma

definitiva, em Atenas, ao longo do século V. Este direito de opor uma verdade sem

poder a um poder sem verdade deu lugar a uma série de grandes formas culturais

características da sociedade grega.

Primeiramente, a elaboração do que se poderia chamar formas nacionais da prova e

da demonstração: como produzir a verdade, em condições, que formas observar, que

regras aplicar. São elas, a Filosofia, os sistemas racionais, os sistemas científicos.

Em segundo lugar e mantendo uma relação com as formas anteriores,

desenvolve-se uma arte de persuadir, de convencer as pessoas da verdade do que desenvolve-se diz, de obter

a vitória para a verdade ou, ainda, pela verdade. Tem-se aqui o problema da retórica

grega. Em terceiro lugar há o desenvolvimento de um novo tipo de conhecimento:

o conhecimento por testemunho, por lembrança, por inquérito (FOUCAULT,

2012b, p. 54).

Passam os tempos, e a partir do século XIV, o testemunho volta a ter destaque, mas

não nos mesmos moldes. Utilizando-se de uma evolução do procedimento extrajudicial da

época do Império Carolíngio

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(onde, para solucionar os casos em que não se sabia quem havia

cometido o crime, usava-se a técnica de chamar todas as pessoas consideradas capazes de

conhecer os costumes, o Direito, fazendo-os jurar dizer a verdade sobre o que sabiam, o que

conheciam ou sabiam por ter ouvido dizer), terá posição de testemunho aquele que diz algo em

virtude do seu conhecimento.

A partir dos séculos XIV e XV aparecem tipos de inquérito que procuram estabelecer

a verdade a partir de um certo número de testemunhos cuidadosamente recolhidos, em

domínios como o da Geografia, da Astronomia, do conhecimento dos climas, etc.

Aparece, em particular, uma técnica de viagem, empreendimento político de exercício

de poder e empreendimento de curiosidade e de aquisição de saber, que conduziu

finalmente ao descobrimento da América. Todos os grandes inquéritos que

dominaram o fim da Idade Média são, no fundo, a explosão e a dispersão dessa

primeira forma, desta matriz que nasceu no século XII. Até mesmo domínios como o

da Medicina, da Botânica, da Zoologia, a partir dos séculos XVI e XVII, são

irradiações desse processo. Todo o grande movimento cultural que, depois do século

XII, começa a preparar o Renascimento, pode ser definido em grande parte como o

desenvolvimento, o florescimento do inquérito como forma geral de saber [...] O saber

medieval e sobretudo o saber enciclopédico do Renascimento do tipo de Picodelia

Mirandola, que vai se chocar com a forma medieval da universidade, será

precisamente do tipo do inquérito. Ter visto, ter lido os textos; saber o que

efetivamente foi dito; conhecer tão bem o que foi dito, quanto a natureza a respeito da

qual algo foi dito; verificar o que os autores disseram pela constatação da natureza;

utilizar os autores não mais como autoridade mas como testemunho; tudo isto vai

constituir uma das grandes revoluções na forma de transmissão do saber

(FOUCAULT, 2012b, p.75-77).

O testemunho significante para a construção da verdade, então, é daquele que sabe,

que detém o conhecimento. Essa compreensão continua a se enraizar no judiciário de modo a

ser, na contemporaneidade, discutida por Foucault (2001) na obra “Os Anormais”. Aí o filósofo

trata do privilégio que os discursos contidos nos relatórios policiais (ou de policiais) ou de

peritos adquirem no sistema de justiça, de tal modo a aniquilar qualquer outro meio de prova.

Esses discursos passam a ter “o poder de dizer a verdade sobre determinada questão” (GOMES,

2010, p. 3), afastando ou mascarando o princípio da convicção íntima do juiz.

Uma outra prática também leva a falsear o princípio da convicção íntima e a

reconstituir algo que é da ordem da prova legal, em todo caso que se assemelha, por

certas características, ao modo de funcionamento da justiça, tal como se produziu no

século XVIII. Essa quase-reconstituição, essa pseudo-reconstituição da prova legal

não está, é claro, na reconstituição de uma aritmética das provas, mas no fato de que

– contrariamente ao princípio da convicção íntima, que exige que todas as provas

possam ser fornecidas, todas possam ser reunidas e que somente a consciência do juiz,

jurado ou magistrado, deve pesá-las – certas provas têm, em si, efeitos de poder,

valores demonstrativos, uns maiores que os outros, independentemente de sua

estrutura racional própria. Portanto, não em função da estrutura racional delas, mas

em função de quê: Pois bem, do jeito que as produz.

Assim é que, por exemplo, os relatórios de polícia ou os depoimentos dos policiais

têm, no sistema da justiça francesa atual, uma espécie de privilégio com relação a

qualquer outro relatório e depoimento, por serem enunciados por um outro

funcionário juramentado da política. Por outro lado, o relatório dos peritos – na

medida em que o estatuto de perito confere aos que o pronunciaram um valor de

cientificidade, ou antes, um estatuto de cientificidade – goza, com relação a qualquer

outro elemento da demonstração judiciária, de certo privilégio. Não são provas legais

no sentido em que o direito clássico as entendia ainda no fim do século XVIII, mas

são enunciados judiciários privilegiados que comportam presunções estatutárias de

verdade, presunções que lhe são inerentes, em função dos que as enunciam. Em suma,

são enunciados com efeitos de verdade e de poder que lhes são específicos: uma

espécie de supralegalidade de certos enunciados na produção da verdade jurídica

(FOUCAULT, 2001, p. 13-14).

A partir daqui nos afastamos desta obra do autor e nos aproximamos de outra(s), não

por discordância, mas por não se ter o intuito de tratar sobre a substituição da instituição jurídica

pela médica quando o caso se referir à loucura. Pretende-se sim, tratar sobre a utilização desses

discursos de verdade para manutenção de um poder.

Se em “Os Anormais”, Foucault (2001) discorre sobre um mascarado livre

convencimento do juiz diante da forte influência (quiçá determinação) exercida pelos discursos

dos técnicos e peritos; a presente pesquisa preocupa-se com a aplicação, pelos operadores do

direito, dos processos de controle sobre os discursos de verdade (discurso técnico, perito, de

pessoas qualificadas com base em estudos científicos, ou até, da própria vítima) como ferramenta

para conservação do seu domínio na produção/reprodução da verdade.

Especificamente para o crime de estupro, pode-se dizer que os discursos de verdade

apresentados ao longo do processo, enfrentam-se e participam do convencimento do magistrado

e membro do ministério público, já que, em nosso ordenamento, a este não lhe cabe

impreterivelmente a denúncia. Por outro lado, é plausível ponderar sobre a absorção (total ou

parcial) ou ainda a inutilização que esses agentes do Estado fazem daqueles discursos, no intuito

de manter sobre o seu próprio os efeitos de poder.

À vista disso, recorre-se “A Ordem do Discurso Jurídico”, onde se assegura que, em

toda sociedade, a produção de discursos é controlada, selecionada, organizada e redistribuída por

certos procedimentos, com o fito de afastar os poderes, perigos, e conter os acontecimentos

aleatórios nessa temível produção (FOUCAULT, 2012a). Esses procedimentos de exclusão

podem ser externos ou internos. O primeiro refere-se às limitações infligidas pela sociedade e tem

como possibilidades a interdição da palavra, a segregação da loucura, e a vontade de verdade. O

segundo, define-se por imposições exercidas pelo próprio discurso de forma a classificar, ordenar

e definir sua distribuição. Tem como modalidades o comentário, autor e disciplina.

Restringindo à apreciação unicamente dos procedimentos perquiridos nos dados

coletados, temos, inicialmente, a interdição, que controla o discurso em relação a quem tem o

direito de dizer, o que pode ser dito e em que circunstâncias. Pode ser exercido por meio de

tabu de objeto, ritual da circunstância, direito privilegiado ou exclusivo do sujeito que fala.

As interdições possuem íntima ligação com poder, não só porque através dele se

manifesta (ou se oculta) o desejo, mas também por ser ele próprio objeto de desejo, ser aquilo

que traduz as lutas ou os sistemas de dominação e, por fim, o poder do qual se quer apoderar

(FOUCAULT, 2012a).

Na segregação há uma separação e rejeição do discurso, distinguindo a sua circulação

em relação a outros. Proclama o acolhimento de determinado discurso mas, em verdade,

permanece a praticar o isolamento, só que através de novos modos, linhas distintas, por meio

de novas instituições e com efeitos que não são de modo algum aqueles anteriormente existentes

(FOUCAULT, 2012a).

Apesar de Foucault ter explicado a segregação através da história do louco, esse

procedimento de exclusão não recaiu unicamente sobre ele. Outros sujeitos - como a vítima -

tiveram, em um momento, sua palavra considerada nula, depois com representatividade

simbólica para, por fim, ter proclamada sua palavra como livre. Como diz o filósofo, “é sempre

na manutenção da censura que a escuta se exerce. Escuta de um discurso que é investido pelo

desejo, e que se crê – para sua maior exaltação ou maior angustia – carregado de terríveis

poderes” (FOUCAULT, 2012a, p. 12-13).

É sobre a vontade de verdade, contudo, que o autor discorre mais vagarosamente. Para

delinear seus contornos, argumenta que durante muito tempo, as mudanças científicas (e os

discursos de verdades aí decorrentes) eram tidas como consequência da mudança da vontade

de saber. Por exemplo, para os gregos do século VI, o discurso de verdade (aquele se tinha

respeito, que pronunciava a justiça, atribuía a cada um a sua parte) era pronunciado por quem

de direito e conforme ritual requerido. Um século mais tarde, o discurso verdadeiro mudou-se

da ritualização do enunciado para o próprio enunciado.

A partir do século XIX, afirma que há um deslocamento, destaque, desmembramento

da vontade de verdade da vontade do saber. Elas passam a ser autônomas. Enquanto a vontade

de saber “desenhava planos de objetos possíveis, observáveis, mensuráveis, classificáveis [...]

que impunha ao sujeito cognoscente (e de certa forma, antes de qualquer experiência) certa

posição, certo olhar e certa função (ver, ao invés de ler, verificar, ao invés de comentar)”, a

vontade de verdade é o sistema que deseja a verdade e promove, para tanto, a exclusão.

Para Foucault, a vontade de verdade se mascara por trás do discurso verdadeiro,

apoia-se sobre o suporte institucional, é reforçada por um conjunto de práticas e reconduzida “pelo

modo como o saber é aplicado em uma sociedade, como é valorizado, distribuído, repartido e

de certo modo atribuído” (FOUCAULT, 2012a, p. 17).

A crença em um discurso verdadeiro mascarou a vontade de verdade que domina em

todo discurso. Para o autor é preciso restituir ao discurso seu domínio de

acontecimento e compreender como a vontade de verdade funciona como um sistema

de exclusão que exerce sobre os discursos “[...] uma espécie de pressão e como que

um poder de coerção (VANDRESEN, 2008, p. 7).

Aliás, ao afirmar que a vontade de verdade encontra-se apoiada sobre um suporte e

uma distribuição institucional e tende a exercer uma pressão sobre outros discursos, o autor

exemplifica utilizando-se da instituição judiciária:

penso ainda na maneira como um conjunto tão prescritivo quanto o sistema penal

procurou seus suportes ou sua justificação, primeiro, é certo em uma teoria do direito,

depois, a partir do século XIX, em um saber sociológico, psicológico, médico,

psiquiátrico: como se a própria palavra da lei não pudesse mais ser autorizada, em

nossa sociedade, senão por um discurso de verdade (FOUCAULT, 2012a, p. 18).

Na vontade de verdade, a atenção não está mais voltada à dicotomia entre o verdadeiro

e o falso, mas que o desejo de posse da verdade leva a produzir uma separação entre o que é

verdadeiro e o que é falso (VANDRESEN, 2008). Segundo o filosofo francês, nos últimos anos,

a palavra proibida e segregação da loucura têm caminhado em direção da vontade de verdade,

que as revive e modifica

Por fim o comentário. Este é um dos procedimentos de controle interno do discurso

que consiste num desnível entre os discursos recorrentes ("são ditos"), constantemente

revisitados, e os corriqueiros ("se dizem"). Aos que recorrem, dá-se o nome de comentário.

Através desse desnível, há a possibilidade da criação de diversos discursos, onde os

comentários, independentemente de sua aparente novidade, hão sempre de ser uma repetição

do texto primeiro. Estes, para Foucault, são os textos religiosos, jurídicos e científicos.