• Nenhum resultado encontrado

ALBUFEIRAS DE ÁGUAS PÚBLICAS

3.2 CONTROLO DO USO DO SOLO NAS MARGENS DAS ALBUFEIRAS

As albufeiras de águas públicas, assim designadas por serem criadas para fins de utilidade pública, são consideradas de interesse nacional, de importância estratégica e ambiental e agregam um conjunto de valores e de fragilidades que exigem uma protecção de carácter especial. As albufeiras além de formarem importantes reservas de água, permitem reduzir a dependência do regime hidrológico, garantir caudais ecológicos e ambientais adequados, contribuir para o amortecimento dos caudais de cheia, controlar a ocorrência de inundações e realizar transvases entre bacias hidrográficas. As albufeiras e área envolvente, podem ter relevância para o desenvolvimento económico e social de uma região e a sua diversidade biológica constitui, a par do histórico e cultural, um património natural, o qual é objeto de protecção (EU, 2013; ONU, 2015). A rede ecológica para o espaço da União Europeia, Rede Natura 2000 (Natura 2000) veio reforçar a importância da conservação da biodiversidade e realçar que as actividades humanas deverão ser compatíveis com a preservação destes valores. Associado às albufeiras existe um conjunto de fragilidades que importa considerar, nomeadamente a vulnerabilidade à instabilidade e aos deslizamentos de terras em vertentes marginais da albufeira, riscos de incêndio e de erosão

do solo, local de habitats com elevada sensibilidade e com estatuto de protecção (Directiva Habitat e Rede Natura 2000), e riscos de contaminação da água por poluição resultante de actividades na envolvente ou por actos deliberados. Além das fragilidades naturais, a presença de usos do solo e práticas inadequadas nas margens das albufeiras, pode induzir perturbações incompatíveis com a capacidade de carga do meio, conduzir a sérias consequências na qualidade e quantidade de água da albufeira e obrigar a soluções técnica e financeiramente exigentes para a remediação de eventuais danos (García-Ruiz et al., 2011; Ludwig et al., 2014). A protecção da água da albufeira depende não apenas do controlo dos usos da massa de água, mas também do controlo dos usos do solo.

A importância e a forma como a literatura da especialidade tem vindo a abordar a temática das albufeiras relacionada com os usos do solo, com planos de protecção e com regulação é enquadrada através da revisão da literatura. A revisão da literatura desenvolvida no âmbito da tese teve por base uma pesquisa de artigos científicos publicados na base de dados Scopus e nos últimos 18 anos (2000-2018) usando as seguintes palavras-chave, ‘water reservoirs’, ‘water reservoirs’ e ‘land use’, ‘water reservoirs’ e ‘plans’, ‘water reservoirs’ e ‘land use regulations’ e ‘water’ e ‘land use regulations’. A pesquisa restringiu-se à área das ciências ambientais e das ciências sociais. Esta revisão permite situar o contexto da tese e fornecer uma síntese teórica e conceitual.

A relevância dada pela literatura aos temas selecionados pode ser avaliada através do correspondente número de artigos publicados entre 2000 e 2018. Esta evolução é apresentada na figura 3.1 (na legenda é indicado, entre parêntesis, o número total de publicações obtido para cada tema no período de tempo considerado). A figura 3.1 mostra que a atenção dedicada pela literatura à temática das albufeiras (‘water reservoirs’) tem sido modesta ao longo dos últimos 18 anos e que existe uma predominância do tema ‘water reservoirs’ face aos restantes. O tema ‘water reservoirs’ têm um valor médio de publicações de cerca de 80 por ano, enquanto os outros temas têm entre 6 a 2 publicações anuais. A pormenorização da evolução dos temas ocorrida nos últimos 18 anos, pode ser obtida através da percentagem do número de artigos publicados em cada ano relativa ao número total de artigos publicados entre 2000 e 2018, para cada selecção de palavras-chave. A figura 3.2 mostra a evolução da percentagem de artigos publicados.

Figura 3.1 - Número de artigos na Scopus, de 2000 a 2018, com uma selecção de palavras-chave.

Figura 3.2 - Percentagem de artigos na Scopus, de 2000 a 2018, com uma selecção de palavras-chave.

A figura 3.2 mostra que a pesquisa usando as palavras-chave “water reservoirs” tem vindo progressivamente a aumentar. Há uma tendência para o reforço de atenção da literatura em relação aos temas ‘water reservoirs’ e ‘land use’ e ‘water reservoirs’ e ‘plans’, sobretudo nos últimos anos (após 2011). A evolução do tema ‘water’ e ‘land use regulations’ tem sido irregular ao longo dos 18 anos, apresentando uma tendência para descida nos últimos 6 anos. Entre 2000 e 2018 as palavras-chave “water reservoirs” e “land use regulations” não registam nenhuma ocorrência.

Os resultados reflectem a ausência na literatura de trabalhos específicos sobre regulamentação de regras de controlo do uso do solo em planos de protecção de albufeiras, o que sublinha a oportunidade da temática da tese e a necessidade de explorar a forma de proteger a água da albufeira, e os recursos hídricos em geral, através do controlo do uso do solo.

A literatura sobre a temática das albufeiras desenvolve o debate através de um conjunto de contributos sob várias perspetivas e com diferente destaque. As principais reflexões podem organizar-se de acordo com os seguintes temas: políticas, gestão, e planeamento, apresentados na figura 3.3.

Figura 3.3 - Principais temáticas identificadas na literatura associadas às albufeiras.

A primeira temática aborda a formulação e análise de políticas mais encorajadoras da utilização sustentável, adaptativa e menos conflituosa do solo e da água e os mecanismos de integração dos processos de implementação de políticas com impacte sobre o território (Woltjer e Al, 2007; Davies e Wright, 2014; Christophe e Rambonilaza 2015; Hellier et al., 2016; Söderberg, 2016). Woltjer e Al (2007), exploram diferentes abordagens na elaboração de políticas associadas à água, considerando, entre outros, um modelo de regulação convencional, ou perspetivando a água como um recurso estratégico agregador de coerência e participação social integrando considerações da água no planeamento territorial. Christophe e Rambonilaza (2015), destacam o papel das políticas da água no desenvolvimento de um quadro analítico para a compreensão da cooperação dos governos locais, no contexto dos planos de bacia hidrográfica. Aqueles autores

salientam o facto das decisões dos municípios sobre o uso, ocupação e transformação do solo serem fortemente influenciada por questões de poder local, por vezes desvirtuando prioridades e comprometendo os objectivos de qualidade da água. Os contributos de Söderberg, (2016), salientam a necessidade de maior coerência, integração e eficácia na formulação de políticas ambientais, nomeadamente da água. Desta forma, e particularmente em estruturas complexas de governação da água, seria possível contrariar implementações ineficazes devido, na maioria das vezes, à disputa de poder entre as diferentes actores e aos objectivos ambientais serem ultrapassados por outros factores (por exemplo, económicos).

A segunda temática aborda a gestão dos recursos hídricos, em particular das albufeiras, em diferentes contextos. O tema mais abrangente relacionado com a gestão integrada, no qual é possível encontrar referências a albufeiras, considera a necessidade de reforçar a dimensão territorial na gestão da água reflectindo sobre as potencialidades de optar abordagens mais abrangentes (Fischendler e Heikkila, 2010). Quando a pesquisa envolve os dois termos ‘water reservoirs’ e ‘land use’, surgem trabalhos dedicados à modelação das relações entre a gestão do uso do solo e da água em áreas de influência urbana (Ducrot et al., 2004) e à modelação do efeito do uso agrícola do solo na qualidade da água das albufeiras destinadas ao abastecimento de água (Chen et al., 2013; Jomaa et al., 2016). A alocação de recursos recolhe também alguma atenção da literatura (Richter, 2010, Ahmadi et al., 2012; Das et al., 2015). Richter (2010), salienta a importância que as albufeiras e a regulação das diversas actividades de uso do solo e da água assumem para garantir a protecção dos fluxos ambientais, nomeadamente no contexto da gestão integrada da água. A literatura dedica alguma atenção à modelação e problemas de optimização relativos à gestão e operação das infraestruturas hidráulicas associadas (Saadatpour e Afshar, 2013; Kistenmacher e Georgakakos, 2015).

Quando a pesquisa é desenvolvida considerando a conjugação dos termos ‘water reservoirs’ e ‘plans’ os autores mais citados apresentam trabalhos relativos a metodologias de avaliação de alternativas de planeamento e gestão de reservatórios de água de usos múltiplos sujeitos a diferentes condições hidroclimáticas (Steinschneider et al., 2015) e à compatibilização entre a gestão da água da albufeira e o uso do solo para fins agrícolas e de subsistência nas áreas circundantes ao plano de água (Reis et al., 2015). Ostendorp et al (2003), usando como caso de estudo um reservatório de água internacional (Lago de Constança), analisam as opções de planeamento para compatibilizar os múltiplos usos da água (abastecimento de água e recreio)

com a ameaça de espécies em extinção. Estes autores concluem que existem alguns aspectos que comprometem a gestão e planeamento adequado desta reserva de água: falta de revisão e monitorização das medidas estabelecidas, lacunas no entendimento e percepções dos agentes envolvidos, a harmonização de um plano integrado de protecção, a envolver os países abrangidos (Alemanha, Áustria e Suiça), e a falta de planos de acompanhamento e monitorização.

O terceiro conjunto de contributos identificados na literatura da especialidade (figura 3.3) está associado ao planeamento e destaca três temáticas a serem exploradas nas secções seguintes.

Documentos relacionados