3- REVISÃO TEÓRICA
3.4 Crenças, atitudes e preconceitos linguísticos
A interação professor-aluno por meio dos recursos das tecnologias digitais é uma forma de aproximar o professor do mundo idiossincrático do aluno, por tantas vezes ignorado no planejamento curricular, embora tão importante como ponto de partida para a construção da aprendizagem. Ao compartilhar com seus alunos conhecimentos tão diversificados, o professor tem a oportunidade de interagir, refletir e compreender melhor os pensamentos mais intrínsecos do aluno, trazendo para a escola seu mundo, seu modo de viver, suas aptidões,
seus interesses e, inclusive, as crenças linguísticas que possuem a respeito da língua e de si próprios enquanto falantes nativos da Língua Portuguesa. Partindo dessas considerações, conforme Marine e Barbosa (2007, p.190), escola e professores precisam desconstruir alguns mitos, dentre eles o de que existe uma forma certa de falar/ escrever e que a escrita é o ―espelho da fala‖, produzindo assim equívocos que levam os professores a querer ―consertar‖ a fala do aluno, alimentando, com essas crenças equivocadas, mais preconceito linguístico sob uma visão tão alicerçada de que uma variedade linguística é melhor ou pior do que outra. Sobre a forma como é conduzido o ensino de Língua Portuguesa nas escolas do Brasil, coadunamos com Bortoni-Ricardo, ao afirmar que
as diferenças linguísticas socialmente condicionadas não são seriamente levadas em conta. A escola é norteada para ensinar a língua da cultura dominante; tudo o que se afasta desse código é defeituoso
e deve ser eliminado. O ensino sistemático da língua é de fato uma
atividade impositiva (BORTONI-RICARDO, 2005, p. 14, destaque nosso).
Essa é uma crença que promove a superioridade de uma variedade linguística sobre outra. Geralmente, percebemos isso no contexto escolar – às vezes de uma forma mais velada, outras vezes nem tanto - em que a variedade considerada inferior precisa ser combatida. Diante disso, percebemos que crenças como estas levam à atitude de rejeição às variedades mais estigmatizadas da língua. Sendo assim, percebemos que uma crença negativa leva a uma atitude negativa e isso tem a ver não só com aspectos linguísticos, mas percebemos aí a rejeição decorrente de aspectos sociais. Portanto, há por trás do preconceito linguístico um arraigado preconceito social.
Cabe à escola, dessa forma, desconstruir a falácia de língua homogênea como o começo de um combate ao tão arraigado preconceito linguístico29. Sobre isso, Bagno (2008) argumenta que o preconceito linguístico nasce e cresce pelo desconhecimento da língua em toda sua heterogeneidade e com isso criam-se mitos como: povo brasileiro não sabe Português/ Português é muito difícil/ as pessoas sem instrução falam tudo errado/o certo é falar assim porque se escreve assim (supervalorização da língua escrita e desvalorização da língua falada). Segundo o autor, para se combater o preconceito linguístico enraizado por
29 Salientamos que o preconceito linguístico também está presente nas redes sociais e é um fator de discriminação que precisa ser trabalhado na escola pelos professores. Mais informações sobre esse assunto consultar <http://www.sbu.unicamp.br/seer/ojs/index.php/simtec/article/view/8353/3908> Acesso em: 17 novembro de 2017.
séculos em nossa sociedade é preciso investir em mudanças de atitude, acionando nosso censo crítico ao valorizar o saber linguístico de cada falante do português brasileiro. Isso porque
(...) em matéria de linguagem, temos exercido maximamente o nosso mais sórdido poder animal – mediado brilhantemente pela razão: o domínio do mais fraco pelo mais forte por meio de formas linguísticas de prestígio. A discriminação pela linguagem é certamente um dos maiores fatores de exclusão social. Em matéria de linguagem, repito, a sociedade transita pela fronteira entre a identidade e o poder, às vezes, sem perceber, e assim, corrobora, inexoravelmente através dos tempos, todas as abomináveis práticas de preconceito linguístico (SCHERRE, 2005, p.142-143).
E não se pode pensar em língua falada por milhões de pessoas sem que ocorra variações, pois a
(...) variação existe, quer gostemos, quer não. Mas há muita gente para quem esse fato é um problema: essas pessoas se sensibilizam com a variação diastrática e tendem a achar que falar uma variedade diferente da padrão é um problema sério para a sociedade e para quem o faz, talvez um vício, talvez um crime, talvez uma manifestação de inferioridade. É, mais uma vez, a atitude que levou os gregos a chamar de bárbaros todos aqueles que não falavam grego e que consiste em desclassificar o outro, desclassificando sua língua. Sempre que isso acontece, a língua torna-se um veículo de preconceitos e exclusões, uma função na qual, infelizmente, pode ser extremamente eficaz (ILARI, 2006, p.195).
O ensino tradicional de língua, pautado somente na norma urbana de prestígio, considerada como a única forma correta, desencadeia uma baixa autoestima linguística no alunado, pois não leva em consideração o caráter heterogêneo, dinâmico e multifacetado de nossa língua, conforme nos orienta Cyranka (2007); Bortoni-Ricardo (2005); Bagno (2007, 2008, 2013), Marine e Barbosa (2017), dentre outros.
Os próprios PCN reconhecem esse preconceito linguístico perpetuado pela escola ao longo dos séculos e é enfático ao dizer que a função da escola é justamente combatê-lo:
Há, isso sim, muito preconceito decorrente do valor atribuído às variedades padrão e ao estigma associado às variedades não-padrão, consideradas inferiores ou erradas pela gramática. Essas diferenças não são imediatamente reconhecidas e, quando são, não são objeto de avaliação negativa. Para cumprir bem a função de ensinar a escrita e a língua padrão, a escola precisa livrar-se de vários mitos: o de que existe uma forma correta de falar, o de que a fala de uma região é melhor da que a de outras, o de que a fala correta é a que se aproxima da língua escrita, o de que o brasileiro fala mal o português, o de que o português é uma língua difícil, o de que é preciso consertar a fala do aluno para evitar que ele escreva errado. Essas crenças insustentáveis produziram uma prática de mutilação cultural que, além de desvalorizar a fala que
identifica o aluno a sua comunidade, como se esta fosse formada de incapazes, denota desconhecimento de que a escrita de uma língua não corresponde a nenhuma de suas variedades, por mais prestígio que uma delas possa ter (BRASIL,1998, p.31, destaque nosso).
Portanto, cabe à escola e a nós professores, mudarmos nossas crenças e atitudes linguísticas em favor de um ensino que acrescente, que amplie e que não queira substituir o que o aluno já sabe, por aquilo que ele ainda não sabe. Nas situações de ensino da língua materna, a postura do professor como orientador é fundamental nesse processo de interlocução e de consideração real pela palavra do outro. Isso demonstra, além do respeito, que as opiniões do outro apresentam possibilidades de análise e reflexão sobre as suas próprias, pois ―ao ter consideração pelo dizer do outro, o que o aluno demonstra é consideração pelo outro‖ (BRASIL,1998, p.47). Nessa perspectiva, o professor instaura ―um espaço de reflexão em que seja possibilitado o contato efetivo de diferentes opiniões, onde a divergência seja explicitada e o conflito possa emergir; um espaço em que o diferente não
seja nem melhor nem pior, mas apenas diferente (...)‖ (BRASIL,1998, p.48, destaque
nosso).
Esse olhar do professor, por um viés sensível, proporciona um espaço escolar mais propício à reflexão sobre a heterogeneidade da língua que os alunos trazem de suas comunidades.