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CAPÍTULO I – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

1.2 Crenças de aprendizagem de línguas

1.2.3 Crenças e experiências de aprendizagem de LE

Um dos propósitos da presente investigação é levantar as crenças dos alunos em relação à escrita, acompanhando-os durante um semestre letivo. Para que tal propósito

fosse levado a cabo, fez-se necessário levar em consideração as experiências e ações de cada participante, suas interpretações dessas experiências, seu contexto social e como ele influencia essas experiências e como tais crenças são usadas para lidar com a tarefa de aprender línguas. Para Barcelos (2000:59), as crenças são parte das nossas experiências e estão inter-relacionadas com o meio em que vivemos.

Miccoli (1997) define experiência, no contexto de aprendizagem de ensino e aprendizagem de línguas, como todas as experiências possíveis pelas quais os aprendizes passam ao aprender uma língua estrangeira. Através de um estudo etnográfico envolvendo universitários brasileiros, a autora examina as experiências coletivas e individuais de seis alunos do curso de Letras, numa sala de aula, relacionadas à aprendizagem de língua estrangeira. Tendo como referência o esquema proposto por Allwright (1991) para a compreensão de aprendizagem em sala de aula, algumas considerações de Holliday (1994) e a teoria sócio-cultural de Vygotsky, Miccoli (op.cit.) propõe um esquema sobre os tipos de experiência que ocorrem em sala de aula. Nesse esquema são traçadas sete categorias de experiências, sendo três originadas na própria sala de aula, denominadas experiências diretas e as demais que não se originam na sala de aula, denominadas experiências indiretas. As experiências diretas incluem as experiências cognitivas, sociais e afetivas e as experiências indiretas envolvem o ambiente, o retrospecto pessoal, as metas e as crenças. Ambas as experiências diretas e indiretas são experiências coletivas e individuais.

Com relação às experiências coletivas, Miccoli (op.cit.) estabelece para as experiências coletivas três subcategorias, ou seja, a) as experiências cognitivas; b) as experiências sociais; c) as experiências afetivas. As experiências cognitivas incluem a identificação de objetivos, a identificação de dificuldades/dúvidas, a percepção da aprendizagem e a percepção de participação/desempenho. As experiências sociais referem-se às interações e relações interpessoais, as interações grupais e o atrito nas relações interpessoais. As experiências afetivas referem-se aos sentimentos negativos.

O estudo de Miccoli (op.cit.) verificou que, quanto às experiências cognitivas coletivas, seus participantes identificam um objetivo que atenda suas expectativas do que deve ocorrer em uma aula de língua estrangeira, evitam expressar suas dúvidas e dificuldades em sala, sempre identificam algo que aprenderam, crêem que participação

mais ativa gera melhor desempenho e que seu desempenho na escrita é melhor que na oralidade. No que tange às experiências sociais coletivas, o estudo observou que o grupo utiliza o princípio da colaboração com os colegas, percebe a divisão da sala em grupos menores e se preocupa constantemente com a ameaça da competição e da crítica. Observou-se, também, que o medo da crítica e da rejeição pelo grupo foi uma experiência afetiva coletiva.

Considerando que, conforme anteriormente citado, o aprendiz hoje não é mais visto como uma tábula rasa que deve ser preenchida com informações, mas como um indivíduo social que traz consigo um rol de experiências individuais cognitivas, sociais e afetivas, acredito que conhecer e entender essas experiências pode mudar o paradigma do ensino que tem o aluno como ser passivo, transformando os processos de ensino e aprendizagem em uma experiência imbuída de cooperação e responsabilidade mútuas.

Rodrigues (2006), em seu estudo sobre crenças e experiências de aprendizagem de LE, ressalta vários estudos nos âmbitos internacional e nacional que comprovam a relação das crenças e experiências de aprendizagem. Os resultados desses trabalhos sugerem que:

. os aprendizes trazem para sua experiência de sala de aula visões sobre qual seja o papel do professor e o deles próprios na aprendizagem (Wenden, 1986);

. as crenças a respeito da melhor maneira de adquirir conhecimentos estão diretamente ligadas às experiências adquiridas através da exposição a diferentes métodos, em diferentes contextos (Stodolsky, 1988 apud Rodrigues, 2006);

. as experiências individuais de aprendizagem, tanto dentro, quanto fora do contexto escolar, influenciam as crenças dos alunos em relação às estratégias de aprendizagem e sua eficácia (Elbaum, Berg & Dodd, 1993 apud Rodrigues, 2006);

. a resistência dos aprendizes à abordagem instrumental é atribuída às experiências pregressas dos mesmos (Cunha P., 1998);

. as crenças de aprendizagem de línguas dos participantes estão interligadas e originam-se de suas experiências de aprendizagem, através de associações que esses participantes fazem de suas experiências anteriores e futuras, materializando o princípio de continuidade e da interação definido por Dewey (1963), (Barcelos, 2000);

. os aprendizes modificaram suas crenças sobre o que é o processo da escrita, através da experiência de uma aprendizagem colaborativa (Figueiredo, 2001);

. a observação das próprias experiências para discussão da prática interfere na forma como os alunos acreditam que esta prática ocorra (Vieira-Abrahão, 2002 apud Rodrigues, 2006);

. a forte influência que as abordagens tradicionais exerceram sobre os aprendizes em relação à interpretação de textos e ao uso do dicionário, como a tradução e a memorização de listas de palavras (Conceição, 2004).

Os estudos que relacionam crenças e experiências de aprendizagem destacam o quanto é importante entender o papel que as experiências passadas exercem no processo de interação que se desenvolve dentro de uma sala de aula, bem como podem vir a explicar as crenças que os aprendizes trazem consigo. Nesta investigação, o termo experiência de aprendizagem é utilizado para se referir, tanto às experiências presentes pelas quais os aprendizes passam no processo de aprendizagem, como também às experiências passadas ou experiências anteriores de aprendizagem, incluindo o contexto educacional, social e cultural em que essas experiências se desenvolveram, conforme Conceição (2004:78).

Procurei, neste capítulo II, apresentar os pressupostos teóricos que fundamentam a presente investigação, situando a escrita primeiramente como um saber universal e depois como uma habilidade na aquisição de uma língua estrangeira. Abordei as recentes pesquisas sobre o ensino da escrita em língua estrangeira, citando pesquisadores e suas áreas de pesquisa sobre a escrita. Em seguida, explicitei alguns conceitos de Vygotsky e Bakhtin, enfatizando o caráter social dentro de uma perspectiva teórica sócio-cultural e polifônico da linguagem e da escrita, respectivamente. Para finalizar, apresentei conceitos relativos a crenças sobre o processo de aprendizagem, em particular as pesquisas sobre crenças relacionadas à escrita e a relação das crenças com experiências. No capítulo seguinte, apresento a metodologia utilizada na presente pesquisa.