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Da criação do Programa Especial de treinamento PET ao Programa de Educação Tutorial PET

Pesquisa II Com os descritores Programa de Educação Tutorial (PET) e

SÃO TAREFAS DO TUTOR NÃO SÃO TAREFAS DO TUTOR Orientação vocacional;

4 ANÁLISE DO CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO E SUA RELAÇÃO COM A TUTORIA

4.1 Dados de Contexto do Campo Social da Pesquisa I Programa de Educação Tutorial PET

4.1.2 Da criação do Programa Especial de treinamento PET ao Programa de Educação Tutorial PET

Em meio às transformações econômicas ocorridas no mundo e no Brasil, a flexibilização do mercado e a reestruturação do capital, as exigências de formação de mão de obra qualificada recaem sobre as instituições formadoras de ensino superior. Assim, desde a década de 1970, o Ministério da Educação (MEC), através da Coordenação de aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), cria vários programas, cujo objetivo era melhorar a graduação com a formação de recursos humanos qualificados.

É nesse contexto que foi criado o Programa Especial de Treinamento (PET), conforme nos diz Spagnolo (1996) que, em 1979,

com o objetivo de melhorar o ensino de graduação e a qualidade dos cursos de pós- graduação, Cláudio de Moura Castro, então Diretor-Geral da CAPES/MEC, implantou o Programa Especial de Treinamento- PET, que visava elevar a qualificação de grupos selecionados de alunos da graduação, mediante um intenso e avançado treinamento (SPAGNOLO, 1996, p. 8).

O Programa Especial de Treinamento (PET) foi implementado baseado em uma experiência realizada pelo professor Ivon Leite de Magalhães Pinto, na Faculdade de Economia e Administração da Universidade de Minas Gerais, na década de 1950, da qual o professor Castro fora aluno bolsista e era inspirado em programas de Universidades americanas e em procedimentos adotados em universidades inglesas (SPAGNOLO, 1996).

Este programa surgiu em um momento de expansão desordenada de instituições de ensino superior brasileiro, que deixavam muito a desejar no quesito qualidade. Portanto, esta iniciativa visava o fortalecimento do ensino superior no Brasil, pois, mesmo tendo ocorrido uma expansão progressiva do número de instituições de educação superior no país, que seria mais significativa nos anos 80, muitas delas se dedicavam somente ao ensino, desrespeitando a indissociabilidade entre os três eixos.

A ideia do Programa Especial de Treinamento (PET) era oferecer uma formação de excelência para alunos bolsistas, que retornariam às instituições como docentes e pesquisadores, o que parecia ser uma solução para assegurar um desenvolvimento do ensino superior pelo efeito multiplicador que teria.

Até o ano de 1999 o programa foi coordenado pela CAPES. A partir de 31 de dezembro de 1999 o Programa Especial de Treinamento (PET) teve sua gestão transferida para a Secretaria de Educação Superior (SESU/MEC), ficando sob a responsabilidade do Departamento de Modernização e Programas da Educação Superior (DEPEM).

Quando o programa foi criado, em 1979, foram formados 3 (três) grupos PET. Em 1996 havia 325 grupos. Entretanto, durante o período de 1998 a 2004, muitos grupos foram fechados.

De acordo com Martins (2007), neste período, o PET enfrentou diferentes problemas na sua manutenção e até mesmo de acomodação no novo ambiente. E somente em 200466 o PET passou a ser identificado pelo nome que é conhecido na atualidade, Programa de Educação Tutorial (PET)67, e novos grupos foram criados.

66 Em 2004, durante a mesa de abertura do IX Encontro Nacional de Grupos PET - ENAPET, Cristovam

Buarque, Ministro da Educação à época, denominou-o de Programa de Educação Tutorial (PET).

67 A partir de agora utilizaremos a sigla PET para nos referirmos também ao Programa de Educação Tutorial

Quadro 17 – Histórico de Editais MEC/SESu para Criação de Novos Grupos PET

Fonte: Elaborado pela pesquisadora.68

Como podemos perceber, atualmente, o PET conta com 842 grupos distribuídos entre 121 IES do país, em diversas áreas do conhecimento. Na configuração atual, o PET é constituído por grupos tutoriais de aprendizagem e forma alunos de graduação sob a orientação de um professor tutor. Cada tutor orienta 12 alunos bolsistas, podendo também ter em seu grupo petianos voluntários. Para ingressarem no grupo PET do seu grupo os alunos passam por um processo seletivo. O aluno pode permanecer no grupo até o final do curso de graduação.

No que se refere às bases legais, o PET foi oficialmente instituído pela Lei 11.180/2005 e regulamentado pelas Portarias do MEC nº 3.385/2005, nº 1.632/2006 e nº 1.046/2007. A regulamentação do PET define como o programa deve funcionar, qual a constituição administrativa e acadêmica, além de estabelecer as normas e a periodicidade do processo de avaliação nacional dos grupos.

A Portaria do MEC nº 976/2010 trouxe inovações para a estrutura do PET como, por exemplo, a flexibilização e dinamização da estrutura dos grupos, a união do PET com a Conexões de Saberes, a definição de tempo máximo de exercício da tutoria, a aproximação com a estrutura acadêmica da universidade e a definição de estruturas internas de gestão do PET. Em seu artigo 2º esta portaria apresentava os objetivos do PET definidos da seguinte forma:

I - desenvolver atividades acadêmicas em padrões de qualidade de excelência, mediante grupos de aprendizagem tutorial de natureza coletiva e interdisciplinar; II - contribuir para a elevação da qualidade da formação acadêmica dos alunos de graduação;

68 Informações reunidas por André B. Leal, vice-presidente da CENAPET na gestão 2014-2016. O somatório

destes números podem não corresponder ao número total de grupos existentes hoje, uma vez que Alguns dos grupos aprovados não foram criados e outros foram fechados após abertura no intervalo entre 1998-2004. Além disso, existem informações desencontradas a respeito do número de grupos existentes antes do Edital de 2006. Disponível em: <https://cenapet.files.wordpress.com/2015/07/histc3b3rico-de-editais-mec-por-cenapet. pdf>.

EDITAL/ANO GRUPOS CRIADOS TOTAL GRUPOS Nº 03/2006 30 323 Nº 04/2007 44 367 Nº 05/2008 30 397 Nº 05 - PET 2009 30 427 Nº 09 - PET 2010 352 779 Nº 11 - PET 2012 63 842

III - estimular a formação de profissionais e docentes de elevada qualificação técnica, científica, tecnológica e acadêmica;

IV - formular novas estratégias de desenvolvimento e modernização do ensino superior no país; e

V - estimular o espírito crítico, bem como a atuação profissional pautada pela cidadania e pela função social da educação superior.

Recentemente, a Portaria MEC nº 343, de 24 de abril de 201369 altera este artigo acrescentando outros objetivos, a saber:

VI - introduzir novas práticas pedagógicas na graduação;

VII - contribuir para a consolidação e difusão da educação tutorial como prática de formação na graduação; e

VIII - contribuir com a política de diversidade na instituição de ensino superior-IES, por meio de ações afirmativas em defesa da equidade socioeconômica, étnico-racial e de gênero.

Todos esses objetivos específicos juntos deverão levar à concretização do objetivo geral do programa, que é “promover a formação ampla e de qualidade acadêmica dos alunos de graduação envolvidos direta ou indiretamente com o programa […] (BRASIL, 2006, p. 7).

Além dos dispositivos legais, que regulamentam o PET, há o Manual de Orientações Básicas, que garante uma certa regularidade das atividades desenvolvidas pelos grupos em âmbito nacional.

O Manual apresenta o programa como um complemento à formação dos seus integrantes e uma oportunidade para a melhoria de todo o curso no qual está inserido, garantindo a todos os alunos, sejam petianos ou não, oportunidades de vivenciar experiências não presentes na estrutura curricular do curso, visando uma formação acadêmica global (BRASIL, 2006).

Por ser um programa acadêmico de longo prazo destinado a alunos de Instituições de Ensino Superior (IES), públicas e privadas, o PET visa a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, proporcionando a complementação da formação acadêmica e, consequentemente, a melhoria da graduação.

Por meio da educação tutorial, o PET pretende estimular a criação de um modelo pedagógico para a universidade.70 Para tanto, a proposta metodológica de ensino por meio da formação de grupos tutoriais no PET se caracteriza pela presença de um tutor, que é responsável pela orientação de um grupo de doze alunos e busca estimular a sua aprendizagem ativa. Martins (2007) afirma que compreender o significado e realizar uma

69 Esta portaria faz uma série de mudanças em relação à Portaria MEC nº 976/2010. 70 Cf. Manual de Orientações, p. 7.

aproximação conceitual da educação tutorial impõe, igualmente, buscar elementos que fundamentem a importância da tutoria, além de identificar e sistematizar aspectos que possam delinear o perfil do tutor, suas funções e deveres (MARTINS, 2007, p. 15).

Cabe ao tutor a responsabilidade perante a IES e a SESu/MEC, o planejamento e a supervisão das atividades e zelar pelo desempenho do grupo sob sua orientação. Compete a ele “orientar os bolsistas no caminho de uma aprendizagem segura, relevante, ativa, planejada e adequada às necessidades do grupo e do curso como um todo.” (BRASIL, 2006, p. 7).

Mesmo desempenhando todas essas funções o tutor não é o único responsável pela aprendizagem do aluno: este também, como sujeito ativo, assume a co-responsabilidade sobre a sua aprendizagem e o seu desenvolvimento pessoal.

A formação tutorial se constitui, portanto, em um trabalho coletivo entre os tutores e o grupo de alunos petianos. Entretanto, ela deve ir para além dos próprios sujeitos inseridos no grupo. Laffin (2007) afirma que:

[…] programa de educação tutorial, em seus princípios explicativos, constitui-se em percursos de formação que se fundamenta sobre e nas vivências do trabalho, no âmbito das relações petianas, ampliando não somente as experiências pessoais e profissionais do aluno e do tutor como sujeitos históricos, como também contribui para o desenvolvimento da função social e institucional da universidade (LAFFIN, 2007, p. 29).

Portanto, a educação tutorial possibilita ampliação de conhecimentos tanto dos tutores quando dos alunos. E mesmo considerando que os tutores são sujeitos culturalmente mais experientes do que os alunos, não devemos desconsiderar que muitos saberes da docência são construídos no exercício da tutoria, saberes e práticas inovadoras que contribuem para a melhoria do ensino superior.

Esta afirmação nos leva a refletir sobre os diversos saberes que o docente possui. Tardiff (2002) enuncia que: “pode-se definir o saber docente como um saber plural, formado pelo amálgama, mais ou menos coerente, de saberes oriundos da formação profissional e de saberes disciplinares, curriculares e experienciais.” (TARDIFF, 2002, p. 36). Considerando que no PET o tutor é um professor, ele também adquire novos conhecimentos na tutoria que vão ser somados aos outros saberes que os docentes já têm, entretanto, esta aprendizagem não exclui a necessidade de formação específica para o exercício da tutoria.

É importante ressaltar o papel que o aluno tem na ação tutorial. De acordo com Koltermann e Silva (2007) há muito tempo que o trabalho coletivo tem sido valorizado em processos sociais dos mais diversos, “sendo também um dos caminhos fundamentais da

formação do aluno e, além disso, por sua condição de favorecer o desenvolvimento de habilidades sociais e éticas” (KOLTERMANN; SILVA, 2007, p. 50).

Ainda de acordo com estes autores, o processo de ação tutorial precisa envolver o aluno em diferentes atividades propostas para a sua formação e qualificação (KOLTERMANN; SILVA, 2007, p. 52).

De acordo com Kato e Faggian (2007, p. 38) um diferencial do PET é o movimento emancipatório em relação às atividades curriculares tradicionais uma vez que as atividades extracurriculares desenvolvidas faz com que os estudantes interajam com os colegas de seu curso, seja do mesmo período ou de outro, mas também com estudantes e tutores de outras áreas de conhecimento.

Destacamos ainda que a aprendizagem que o PET oferece amplia a visão do estudante sobre “o papel e as potencialidades de transformação da sociedade apresentados pela Universidade.” (NARDO JÚNIOR; GARCIA, 2007, p. 32). De acordo com os textos legais, a formação do PET contrapõe-se, portanto, à conteudística tradicional.

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