2.6. Cuidados Espirituais
2.6.3. Cuidados Espirituais Específicos/Religiosos
Como vimos, as psicoterapias centram-se nos aspectos emocionais, relacionais, interpessoais e conflituais internos do indivíduo e são conduzidas por (psico)terapeutas que fazem uma abordagem seguindo determinadas teorias, linhas de orientação e técnicas específicas, que lhes permitem delinear um plano de acção correspondente.
De acordo com Barbosa7, há que diferenciar as duas abordagens. Ao psicoterapeuta cabe dar feedback sem oferecer respostas explícitas e ao orientador religioso, utilizar questões exploratórias por vezes similares às colocadas pelo psicoterapeuta, sem nunca, porém, se destacar da promessa divina e amor eterno a Deus, proporcionando-lhe conforto espiritual. Contextualizando um pouco mais esta questão, reportemo-nos aos estudos de Cassidy & Davies22 que verificaram que alguns capelães pertencentes à América do Norte (devido à existência da chamada CPE), ofereciam aconselhamento pastoral como uma forma distinta de cuidados religiosos. Desenvolvida na segunda metade do século passado, este tipo de abordagem resultava da fusão da Teoria Psicodinâmica de Freud com a Terapia Humanista Rogeriana e pretendia que o paciente adquirisse insight acerca de si próprio e dos conflitos que iria experimentando ao longo do seu percurso vital.
Apesar desta forma distinta de cuidados religiosos, o trabalho destes orientadores continua a diferenciar-se dos psicoterapeutas. Pese embora os primeiros possam e devam ter formação em Psicologia e Aconselhamento, não estão unicamente em representação de si próprios, mas também de Deus e/ou de uma comunidade religiosa. Como tal, procurarão integrar a narrativa
do doente num enquadramento religioso e utilizar a linguagem simbólica da comunidade. O seu papel passará por respeitar e compreender um “irmão sofredor”; considerar os seus aspectos existenciais, espirituais e morais; interpretar as experiências individuais à luz da religião, utilizando o seu saber teológico e experiência; e, sempre que possível e adequado, facilitar e aprofundar a vivência religiosa do outro, com possibilidade de disponibilização e realização de rituais religiosos efectivos.
Para Fürst & Doyle41 a pessoa com fé religiosa, usualmente formulará questões existenciais, baseadas numa linguagem religiosa que lhe é familiar, colocando a dimensão espiritual ao nível do relacionamento com Deus. Tendencialmente, encontrarão paz e conforto, após receberem sacramentos e/ou outras práticas religiosas. Por exemplo, sendo ungidas por óleos, comungando, ouvindo a palavra de Deus, assistindo a uma cerimónia religiosa, lendo a Bíblia, recebendo a visita do padre da sua paróquia, igreja ou templo, etc.
As questões existenciais poderão, no entanto, ser colocadas por pacientes que não professem fé religiosa ou apresentem uma filosofia de vida específica. Na fase terminal, tal como em qualquer outro momento da fase paliativa, será errado assumir que, subjacente a uma questão espiritual, estará sempre um componente religioso e que, perante esta, uma resposta religiosa será sempre pretendida. É também errado assumir que uma pessoa que apresente um longo percurso religioso terá imunidade a dúvidas religiosas ou perda temporária de fé.
Os capelães poderão ser uma fonte de ajuda importante, pois estes estão altamente treinados para lidar com estas questões. Porém, será correcto perguntar antecipadamente ao paciente se este gostaria de usufruir deste tipo de abordagem. Alguns dirão que se sentem constrangidos e envergonhados por terem desenvolvido este tipo de dúvidas (espirituais e/ou religiosas) e preferirão discuti-las e/ou partilhá-las com outras pessoas. Assim sendo, falar com um amigo, médico, enfermeiro, assistente social, ou mesmo um auxiliar da sua confiança, poderá ser
catártico, constituindo uma ajuda preciosa, mesmo que implique apenas a escuta activa, sem qualquer outro tipo de intervenção.
Aitken1 reporta-se à realidade portuguesa, salientando que na nossa comunidade, as missas e cultos são parte do serviço de capelania, devendo por isso levar-se em conta, a liberdade deste tipo de cultos. Se a pessoa não pode ir à celebração religiosa na sua comunidade, esta deverá vir até ela, sendo realizada dentro do ambiente hospitalar (caso o paciente se encontre hospitalizado), com os devidos cuidados que o próprio contexto comporta. Neste âmbito, o orientador religioso será visto como fonte de suporte (espiritual) para o paciente, sua família e também para o(s) profissional(is) de saúde, mas nunca deverá esquecer-se de que aprende muito com os seus pacientes, principalmente, com aqueles que estão próximos da morte, como também é evidenciado por Kübler-Ross em várias das suas obras.
O seu trabalho deve sempre iniciar-se com a escuta daquele que perante si se apresenta, prestando toda a atenção à sua linguagem verbal e não-verbal. Com base nesta escuta, poderá identificar a(s) sua(s) crença(s), auscultar como esta(s) afecta(m) a sua vida, como encara a doença e se relaciona com o seu Deus, etc. A partir deste ponto, saberá como abordá-lo da melhor forma. Mesmo para o paciente não religioso, poder-se-ão usar outros sentidos da espiritualidade, como a arte e a música, ajudando-o a encontrar um sentido para a sua vida neste momento tão delicado, mas especial.
O adequado será o capelão responsável, organizar a sua capelania hospitalar (se for o caso), envolvendo orientadores de vários credos e contando com visitas de voluntários, que deverão (preferencialmente) decorrer em sistema rotativo, mantendo o serviço disponível 24 horas. Assim, religiosos externos de quaisquer credos poderão oferecer atendimento aos membros das suas comunidades, quer estejam hospitalizados ou no domicílio. Para tal, deverão ser orientados quanto à rotina hospitalar e aos limites definidos nas visitas e rituais propostos. É fundamental que o façam, pois só assim se garantirá o cuidado espiritual específico e
adequado ao paciente, ao mesmo tempo que se protege o hospital ou outros contextos em que este se encontre, de atitudes externas, muitas vezes extremas.
Em suma, psicoterapia e assistência espiritual comungam muitos pontos, sendo um dos principais elementos, a escuta atenta e cuidadosa. A psicoterapia tem como objectivo principal que a pessoa compreenda as suas questões, esclarecendo o intuito da sua actuação e facilitando as escolhas e caminhos a seguir. Aqui a prioridade é, efectivamente, as questões e não as respostas fornecidas pelo terapeuta. A orientação espiritual, por sua vez, tenta encaminhar no caminho a seguir, a partir da escuta atenta de questões cruciais formuladas pelo doente e/ou família.