3 CARTOGRAFIA STRICTO SENSU SOBRE A CULTURA ORGANIZACIONAL
4.1 Cultura e aspectos teóricos e conceituais
4 CULTURA BRASILEIRA E SEUS DESDOBRAMENTOS NA CULTURA ORGANIZACIONAL
Assim, etimologicamente, a palavra cultura vem da raiz semântica colore, originada do latim cultura, passando, a princípio, a dispor de vários significados, como “habitar, cultivar, proteger, honrar com veneração [...]” (WILLIAMS, 2007, p. 117). Nesse contexto, a visão de cultura expressava um processo que correspondia a uma proximidade concreta com a noção de cuidado e cultivo.
De acordo com o Dicionário Michaelis, existem pelo menos nove significados do termo cultura, como: “Ato, processo ou efeito de trabalhar a terra, a fim de torná-la mais produtiva;
cultivo, lavra [...]”, dentre outros. Na composição do termo, é oportuno mencionar que ele mantém relação com outras áreas de conhecimento, não sendo possível compreendê-lo dentro de uma concepção hermética ou mesmo terminada.
Dessa forma, destacamos que a base teórica sobre cultura tem sido estudada por diferentes áreas do conhecimento, como sociologia, economia, filosofia, história, psicologia e antropologia, porém, o sentido definido no estudo em tela tem respaldo na antropologia, embora não neguemos as interfaces e contribuições de outros campos ou áreas, conforme tem apontado a literatura no horizonte do debate. Em uma perspectiva de análise, entendemos que a fundamentação teórica sobre o conceito de cultura carrega tanto uma relação de intertextualidade (em que outros textos são convidados para explicação do termo em questão) como também ousa, em uma construção de sentido, perceber o interdiscurso que circunscreve essa concepção.
Partindo desse entendimento, consideramos que a compreensão de cultura tomada nesse campo tem conexão direta com a noção de homem, sendo que este mantém, inegavelmente, relação direta sobre a natureza e o ambiente onde vive, ora criando, ora modificando-o. Essa consciência colabora com o argumento de que ele age sobre o mundo e, por consequência, essa ação vai além de entendê-lo como ser social, pois apenas ele é capaz de produzir e criar cultura (BRANDÃO, 2008). A linha de pensamento respaldada pelo autor ilustra de modo direto a interferência do homem como ser que altera o ambiente para exercício de sua própria organização e sobrevivência. Nesse viés, ele se encontra em condição não apenas de transformar a natureza, mas de criar mecanismos a partir do lugar onde vive para sua progressão de vida.
Sendo também seres da natureza, nós somos e nos tornamos humanos porque, ao contrário dos animais que se transformam corporalmente para se adaptarem às mudanças do meio ambiente em que vivem, nós transformamos os ambientes em que vivemos para adaptá-los a nós e para tornarmos possível e progressiva a nossa vida neles. Os animais vivem solitária ou coletivamente imersos no interior de nichos e cenários de um mundo natural preexistente e
naturalmente ofertado a eles. Nós aprendemos aos poucos e duramente a construirmos nossas vidas em mundos naturais também preexistentes, a nós originalmente dados, ofertados “naturalmente” a nós. Mas mundos naturais socializados, transformados. (BRANDÃO, 2008, p. 28).
A discussão em destaque anunciada pelo autor reconstrói a ideia de que só o ser humano possui a capacidade de transformar os espaços em prol de sua sobrevivência e, desse modo, produzir cultura. Naturalmente, isso não ocorre distante dos processos de mudanças e das condições expressas na sociedade. Entendemos que a dinâmica que perpassa a cultura está imersa nas transformações mais amplas, que abrangem desde o contexto global ao nacional e local, os quais influenciam diretamente os processos organizacionais.
É possível partir do pressuposto de que a cultura é considerada um discurso, uma vez que nela se disputam construções de valores, reproduções e ideologias, como também se manifestam relações de saber-poder abordadas em Foucault (1987), na obra “Vigiar e punir:
nascimento da prisão”. Contudo, podemos afirmar que as relações que ela estabelece com seu contexto social mais amplo são igualmente percebidas como práticas discursivas e se conectam, de modo claro, com uma rede de interdiscursividade. Esta, por sua vez, não agrega apenas um discurso e não permite que seja dito apenas de uma forma, pois ele sempre mantém relação com outros discursos.
Levando em conta essa discussão, retornamos a compreensão da concepção de cultura, a qual se encontra em White e Dillingham (2009, p. 45), quando expressa a noção de cultura construída por Edward B. Tylor, a qual tem sido largamente difundida como “esse todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, direito, valores morais, costumes e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade”. Cabe registrar que a perspectiva citada se tornou clássica para o debate sobre cultura, tendo repercutido por diversos estudos que contextualizam a ideia desse tema. Por outro lado, percebe-se que ela sofreu diversas críticas, principalmente por carregar uma visão centrada no evolucionismo e em hierarquias sociais.
No aprofundamento das discussões postas em torno do conceito de cultura, Geertz (2008, ao tentar apresentar uma noção mais exata do homem, expressa diferentes argumentos que vão desde os aspectos empíricos universais e não universais que perfazem a cultura, passando pela noção de consensus gentium (consentimento de toda humanidade), na qual se respalda a investigação do autor. Logo, constata-se que a perspectiva conceitual de cultura tomada por Tylor, mesmo não estando manifesta na superfície do texto, tem demonstrado
interesse na compreensão do termo, principalmente quando desenvolve duas afirmações sobre a ideia de cultura:
A primeira delas é que a cultura é melhor vista não como complexos de padrões concretos de comportamento – costumes, usos, tradições, feixes de hábitos -, como tem sido o caso até agora, mas como um conjunto de mecanismos de controle – planos, receitas, regras, instruções (o que os engenheiros de computação chamam “programas”) – para governar o comportamento. A segunda ideia é que o homem é precisamente o animal mais desesperadamente dependente de tais mecanismos de controle, extragenéticos, fora da pele, de tais programas culturais, para ordenar seu comportamento. (GEERTZ, 2008, p. 32-33).
A proposta teórica desenvolvida pelo autor sobre a concepção de cultura filia-se ao entendimento de que ela não congrega uma estrutura acabada, mas que, ancorada sob a égide da base antropológica e aglutinada em sua visão, coloca-se como campo de diálogo - que inclui tanto as práticas culturais, como as discursivas que contornam a cultura. Nota-se, contudo, que a cultura funciona como estrutura organizadora das ações sociais, que são mediadas pelos mecanismos de controle. Em outras palavras, isso quer dizer que as práticas culturais encontradas nas instituições sofrem mudanças conforme as dinâmicas operadas pelos sujeitos nas organizações sociais. A incursão desses aspectos recebe a colaboração de Geertz, quando explica que o:
[...]conceito da cultura e do papel da cultura na vida humana, surge, por sua vez, uma definição do homem que enfatiza não tanto as banalidades empíricas do seu comportamento, a cada lugar e a cada tempo, mas, ao contrário, os mecanismos através de cujo agenciamento a amplitude e a indeterminação de suas capacidades inerentes são reduzidas à estreiteza e especificidade de suas reais realizações [...] (GEERTZ, 2008, p. 33).
As discussões em torno da concepção de cultura se dão, via de regra, tanto sobre o prisma daquilo que é comum – ou seja, tornou-se naturalizado no cotidiano das pessoas –, como também em interlocução com as mudanças decorrentes do ambiente. Todavia, sabemos que as transformações ocorridas no contexto do âmbito social e, sobretudo, nas organizações sociais influenciam no funcionamento das práticas sociais. Tal entendimento desmistifica a ideia de que ela seja vista exclusivamente como um conjunto de tradições transmitidas às gerações, ou a regularidade de normas postas no cotidiano das relações sociais. Segundo o autor, percebemos que a cultura funciona como um veículo inseparável da existência humana, sendo, contudo, condição essencial para compreensão da organização social. Em outras palavras, pode ser
entendida como sistema de símbolos e crenças, pelos quais os sujeitos materializam práticas sociais rotineiramente.
No aprofundamento das discussões, defendemos uma perspectiva de cultura que dialoga com uma visão processual, entendendo que ela se altera conforme a dinâmica organizacional e os aspectos contextuais que interligam os sujeitos em suas práticas, sejam elas sociais, organizacionais, ideológicas ou políticas. Nessa ótica, podemos dizer que os enunciados acerca da cultura são produzidos, reproduzidos e distribuídos na instituição mediante condições em que operam o discurso enquanto prática social.
Cabe ressaltar que a abordagem Gertziana que entende a cultura como teia de significados passa, em suas especificidades reais, a levar em conta as ações dos sujeitos dentro de um plano simbólico. Essa postura define inicialmente que a cultura não é algo passível de ser imposto ao outro, mas sim um comportamento realizado nas instituições e, portanto, entrelaça diferentes significados em sua composição. Por outro lado, a cultura pode representar, por meio de uma modalidade discursiva, uma agência de tensionamento das ações consagradas ou daquelas que ainda estão sendo negociadas na instituição. Essa compreensão, considerando seus limites, fornece base para interpretarmos os sentidos em que opera a cultura de modo mais amplo, inclusive a cultura das organizações brasileiras.
Diante do exposto, entendemos a cultura como elemento plural, que se manifesta por diferentes ângulos, sejam eles epistemológicos, teórico-metodológicos ou hermenêuticos;
sejam eles estruturantes e não estruturantes de uma dada realidade, mas que na dimensão simbólica impressa nesse campo é postulada como condição sine qua non para uma leitura ampliada do conceito de cultura no cotidiano das instituições sociais.
Partindo desse entendimento, quando falamos em cultura da escola estamos diante de um campo que carrega especificidades próprias, valores e manifestações simbólicos, os quais integram e ajudam a construir o projeto social que a instituição anseia produzir. Embora Falsarella (2018) afirme que cultura da escola e cultura escolar sejam instâncias com o mesmo significado, por se tratar da cultura interna, esclarecemos que esses termos representam conotações diferentes, mesmo se tratando do ambiente interno da escola. Essa posição está em sintonia com o pensamento de Forquin (1993) e Libâneo (2013) que discorrem sobre as categorias apontadas.
Para Botler (2010) a cultura da escola pauta normas que orientam os processos educativos que se estabelecem no cotidiano desse espaço. De modo que a organização da escola, na visão da autora, remonta a uma construção social que se constitui levando em conta a “análise da subjetividade humana (vontade, intenção, valores, experiências) que procuramos conhecer a
realidade organizacional” (BOTLER, 2010, p. 188). Os aspectos descritos nessa vertente possibilitam um desdobramento fundamental para entender o funcionamento das organizações, embora seja visível a complexidade que os sobrepõem. Portanto, a dimensão simbólica imersa na concepção de cultura insere-se novamente como mecanismo real na interpretação dos discursos produzidos pelos sujeitos e pelas instituições que, inegavelmente, não podem ser lidos em uma perspectiva unilateral.
Dessa forma, salientamos que a base do conceito de cultura move diferentes definições e, por essa razão, leva a literatura a explorar um variado leque de vertentes. É importante lembrar que os antropólogos Alfred Kroeber e Clyde Kluckhohn demonstraram, já em meados dos anos de 1952, a existência de mais de 162 conceitos de cultura, fato que torna cada vez mais difícil estabelecer uma única definição acerca do tema. Todavia, o debate nessa direção não se configura como um elemento fora da história ou inalterado na dimensão espaço/temporal. Em outras palavras, à medida que as transformações sociais vão se modificando e as pesquisas se tornando mais intensas, a discussão nesse campo vai ganhando outras formas de compreensão.
Assim, considerando as diferentes definições acerca da cultura, percebemos que o conceito que a descreve perfaz diferentes significados conforme a época e o espaço em que vem sendo situada. Além disso, quando entendemos o termo cultura como discurso constata-se no mesmo teor que ele é atravessado por uma rede de interdiscursividade bastante clara nas discussões sobre o objeto. Isso leva-nos a afirmar que a definição produzida sobre a temática se encontra quase sempre interligada a outros campos de conhecimento, conforme tratado em momentos anteriores.
Nessa direção, acrescentamos que os desdobramentos da categoria em questão, já ressaltados pelo que consta nos dicionários, evidenciaram que a palavra “cultura” faz referência a comportamento ou expressa aquilo que o ser humano dispõe enquanto valores, crenças, relacionados a cada ser ou mesmo um grupo social. Sendo assim, a palavra cultura, a priori, seria entendida como um conjunto de valores e comportamentos que os sujeitos ou as comunidades apresentam em um determinado momento, mas que lhes confere uma forma de organização. Na visão de Motta e Caldas (1997, p. 16) a cultura seria:
[…] um conceito antropológico e sociológico que comporta múltiplas definições. Para alguns, a cultura é a forma pela qual uma comunidade satisfaz a suas necessidades materiais e psicossociais. Implícita nessa ideia está a noção de ambiente como fonte de sobrevivência e crescimento. Para outros, cultura é a adaptação em si, é a forma pela qual uma comunidade define seu
perfil em função da necessidade de adaptação ao meio ambiente. Nesses dois casos, está presente a ideia de feedback. [...].
Olhando a concepção de cultura demarcada no entendimento dos autores mencionados, percebemos que ela apresenta estreita relação com a maneira como os sujeitos se organizam em dada sociedade, mediada por múltiplosprocessos que envolvem desde os aspectos materiais e psicológicos até as formas de adaptação ao meio em que se inserem. Além disso, evidencia-se que a acepção de cultura defendida pelos teóricos representa um sentido ampliado em sua composição – argumento que mantém relação proximal com as ideias defendidas por Brandão (2008) quando se percebe que suas discussões conversam com a perspectiva dos autores anteriormente mencionados, muito embora reconheça-se a especificidade do enfoque epistemológico desenhado em cada um deles.
Por conseguinte, destacamos que a visão tomada em Motta e Caldas (1997) dentro do viés antropológico traz em sua matriz epistêmica a possibilidade dialógica entre diferentes definições. Essa posição, respalda-se no entendimento de que os usos do conceito de cultura poderão estar associados às disciplinas ou aos campos multidisciplinares, conforme apontam Fleury e Fischer (1996) em seu estudo.
As autoras reconhecem o entendimento da cultura, levando em conta a abordagem multidisciplinar, a qual congrega um peso substancial para o estudo da cultura nas organizações, no entanto, conforme identificamos, ainda é uma dimensão pouco explorada. Nesse sentido, percebemos que teóricos como Schein (2009) e Fleury e Fischer (1996) vêm canalizando mais atenção nessa perspectiva de estudo, pois, além de fomentar um lugar para as discussões na esteira da abordagem, defendem o alargamento teórico epistemológico da cultura, tendo como referência a dimensão apontada.
Na seção a seguir, desenvolvemos uma discussão sobre a cultura brasileira a partir dos intelectuais clássicos. Na organização das ideias, apresentamos posicionamentos e interpretações acerca da formação da cultura local, bem como os processos de influência que se fazem presentes nos discursos que materializam a cultura nacional e, por vezes, ajudam a compreender o comportamento das organizações sociais.