Cultura nacional: uma perspectiva do Brasil em Circle K Cycles

No documento A diáspora na obra de Karen Tei Yamashita: estado-nação, sujeito e espaços literários diaspóricos (páginas 79-83)

3. UM JAPÃO NO BRASIL E UM BRASIL NO JAPÃO: A DIÁSPORA (RE)IMAGINA

3.3 Um Brasil (re)imaginado: democracia racial, história e cultura nacional

3.3.2 Cultura nacional: uma perspectiva do Brasil em Circle K Cycles

Se, em Brazil-Maru, fatos históricos inserem o tema Brasil na narrativa, em Circle

K Cycles é a cultura brasileira que perpassa a maioria dos contos e memórias do livro. Em

processo semelhante à implantação de todo Estado-nação, a disseminação de práticas culturais uniformizadoras vão ajudar a construir a nação brasileira. A partir de 1930, órgãos do governo federal começam promover certos elementos culturais, como o futebol, o carnaval e a feijoada, escolhidos para dar uma face única ao país. Todos os meios disponíveis são aproveitados para a criação e a divulgação de uma narrativa nacional convincente, capaz de

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persuadir um grupo heterogêneo a acreditar em suas características “comuns” e, portanto, aceitar sua filiação ao Estado-nação.

A diáspora brasileira no Japão, representada em Circle K Cycles, (re)imagina o Brasil por meio de seus estereótipos culturais nacionais. Entretanto, como a narrativa é centrada predominantemente na minoria nipo-brasileira, o processo de (re)imaginar retratado constitui um caso peculiar, devido à relação também peculiar entre os brasileiros de origem japonesa com seu país. No Brasil, os nipo-brasileiros são estigmatizados pelo rótulo de “japonês” e, portanto, crescem e vivem no Brasil com a ideia de serem, de alguma forma, japoneses. Assim, a ida dos nipo-brasileiros para o Japão, como retratado em Circle K Cycles, é marcada por uma ambiguidade: ao desembarcarem em terras nipônicas, percebem que continuam uma minoria, mas agora são rotulados de brasileiros. Então, com poucas chances de se integrarem na sociedade local, os nipo-brasileiros se tornam, à sua maneira, brasileiros. Assumir uma identidade nacional brasileira à distância, no contexto de uma dupla crise identitária, é processo bastante confuso para esses sujeitos diaspóricos. Mas (re)imaginar o Brasil no Japão é, para muitos decasséguis, uma questão de sobrevivência.

Circle K Cycles ilustra o (re)imaginar do Brasil por meio da reprodução de

práticas culturais brasileiras, disseminadas na comunidade diaspórica pelos produtos da indústria cultural. Consumidos pela comunidade diaspórica, programas de televisão, principalmente a telenovela, figuram como veículos essenciais do sistema de representação do Brasil. É relevante notar como o (re)imaginar do Estado-nação, no contexto contemporâneo de Circle K Cycles, é permeado pela influência da mídia, ao contrário de Brazil-Maru, em que a memória era basicamente o único modo no processo de (re)imaginar.

Um bom exemplo está no conto “What If Miss Nikkei Were God (ess)?”, em que a nipo-brasileira Miss Hamamatsu trabalha copiando dezenas de fitas de vídeo de programas da televisão brasileira, que são distribuídas em locadoras e alugadas para decasséguis: “O lar era uma cópia, de uma cópia, de uma cópia, de uma cópia, mais distante do que ela poderia imaginar” (YAMASHITA, 2001, p. 20).163 A fita de vídeo com imagens “do Brasil” é uma metáfora do caráter imaginado do Estado-nação, revelado com maior clareza na condição diaspórica dos decasséguis. Assim como as cópias vão perdendo a qualidade no curso de sua reprodução, o Brasil (re)imaginado na distância também vai ficando cada vez mais sujeito à mediação dos capítulos de novelas, jogos de futebol, shows de duplas sertanejas, programas infantis e de variedades. Esses programas típicos da indústria cultural brasileira tendem a

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agravar a crise identitária do decasségui, já que eles, de fato, não o representam. Há uma carência de representação da minoria nipo-brasileira na grande mídia de massa do país, responsável por difundir a cultura considerada oficial pelo Estado-nação brasileiro. Em meio a capítulos da novela O Rei do gado, shows de Chitãozinho e Xororó e programa infantil “Xou” da Xuxa, a única exceção é o filme Gaijin: caminhos da liberdade, da cineasta Tsuka Yamasaki. O longa-metragem, que conta a história de um grupo de imigrantes japoneses em São Paulo, no início do século, é também reproduzido, distribuído e alugado pela comunidade nipo-brasileira.

A mídia brasileira divulga e estimula traços culturais típicos do Brasil na comunidade diaspórica de Circle K Cycles, como a comida típica, as escolas de samba e o futebol. Na seção “Circle K Recipes”, a narrativa demonstra que a comida também é uma forma de (re)imaginar o Brasil. O arroz com feijão surge como mais um símbolo da cultura nacional: “Arroz e feijão. Inseparáveis. Para brasileiros, a única comida que sustenta” (YAMASHITA, 2001 p. 83).164 O livro traz a expressão “arroz e feijão” em português, inserida após “rice and beans”, como se a língua oficial do Brasil enfatizasse a brasilidade do prato. A comida brasileira, como pondera a narradora, está presente em tudo na vida dos decasséguis e vai motivar os primeiros negócios geridos por nipo-brasileiros no Japão. Em outra seção, intitulada “Samba Matsuri”, a narradora descreve um festival de cultura brasileira no Japão: “esse ano três escolas de samba estavam competindo pelo primeiro lugar: JaBrasil, Unidos d’Oizumi e JaPortela” (YAMASHITA, 2001, p. 140).165

Em “August: Just Do It in 24 Hours”, a narrativa de um jogo da seleção brasileira no Japão traz à tona a relação entre a diáspora e o estereótipo cultural brasileiro mais incisivo, provocando um questionamento: será o Brasil de Circle K Cycles simplesmente o estereotipado país do futebol? Essa perspectiva parece se confirmar no princípio de “August”, em que o leitor encontra uma narrativa em forma de diário, com datas, denominações e nomes não fictícios, como Karen, Ronaldo e Jon.166 Ao contrário de “What if Miss Nikkei...” e “Samba Matsuri”, “August” não é ficcional, mas faz parte das memórias de Yamashita, a partir das quais a autora manifesta sua perspectiva pessoal. No parágrafo de abertura, a descrição da paixão pelo futebol confirma que o esporte é um forte elemento de narrativa nacional, um estereótipo cultural muito bem construído e que talvez seja capaz de persuadir até a própria Yamashita. Isso daria a entender que, assim como os decasséguis reproduzem os estereótipos

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“Arroz e feijão. Inseparable. For Brazilians, the only food that sustains.”

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“This year three escolas de samba were competing for first place: JaBrasil, Unidos d’Oizumi, and JaPortela.”

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culturais da nação, a autora também retrataria um Brasil estereotipado em sua literatura. Mais adiante, porém, a narradora surpreende o leitor com uma postura crítica que reconhece os estereótipos culturais associados à nação brasileira. No carro dos amigos, que seguem para o jogo Brasil e Japão, estão três decasséguis jovens:

Hoje, uma quarta-feira, eles mataram serviço para poder ver, ao vivo, pela primeira vez, os brasileiros campeões, o time que sustenta seus sonhos e a percepção de si, mesmo em um lar distante. Perder um dia de trabalho não é uma coisa à toa, mas esta é uma escolha particularmente brasileira, mergulhada em uma confusão de identidade, rebeldia e saudades. (YAMASHITA, 2001, p. 130)167

Nesse dia, a narradora observa que a seleção brasileira de futebol parece encarnar o Brasil tornando-se, para esses jovens e para outros decasséguis, uma única entidade. Empolgados, dirigem-se ao estádio como se estivessem voltando para casa. O futebol, ao mesmo tempo em que ameniza a saudade, revela a crise de identidade, agravada pela distância, pelo cansaço das pesadas horas de trabalho e pela hostilidade da sociedade local. A euforia coletiva de milhares de decasséguis em um estádio de futebol, unidos por um laço cultural nacional, faz com que deixem de ser uma minoria, mesmo que temporariamente.

Entretanto, no fim do dia, já fora do ambiente em que estava, a narradora constata que o esporte nacional não é exatamente uma unanimidade e que a paixão pelo futebol, que se manifesta no grupo, apresenta um caráter performativo. Nem o marido e nem o filho sabiam, por exemplo, dar informações precisas sobre o jogo: “Minhas perguntas: como foi o jogo? Quanto ficou? Quem marcou gol? Todas irrelevantes” (YAMASHITA, 2001, p. 133).168 O que foi de fato significativo para os milhares de decasséguis no estádio de futebol? A sensação de liberdade por um dia funciona como uma válvula pela qual os decasséguis escapam da rotina de trabalho intenso. Representar o papel de brasileiro preenche a necessidade de pertença dos decasséguis, exacerbada pelo contexto social hostil. A saída disponível, para os nipo-brasileiros no Japão, é se entregar ao estereótipo cultural brasileiro mais incisivo. Além disso, a experiência dos decasséguis com o futebol permite-nos constatar que o sistema de difusão cultural do Estado atua fortemente em espaços públicos, como o estádio de futebol, atingindo o grupo como um todo. Em situações como a partida de futebol, cada brasileiro parece vigiar a “brasilidade” do outro e os indivíduos optam por simplesmente seguir a maioria e participar, mesmo que nunca tenham gostado de futebol de fato. Portanto,

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Today, a Wednesday, they’ve skipped out of their jobs in order to see live, for the first time, the Brazilian champions, the team that sustains their dreams and self-perceptions in a distant home. To lose a day of work is no small thing, but the choice is a particularly Brazilian one, steeped in a confusion of identity, rebellion and saudades.”

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de certa forma, o Estado-nação depende do espaço público e da coletividade para aplicar suas estratégias unificadoras, conforme observamos nesse capítulo de Circle K Cycles.

No documento A diáspora na obra de Karen Tei Yamashita: estado-nação, sujeito e espaços literários diaspóricos (páginas 79-83)