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Cibernética Social

4.7 As virtualidades no processo criativo e projetos mais responsáveis

4.7.2 Cedric Price e Cybernetic Serendipity

4.7.2.2 Cybernetic Serendipity

Eu pr imeiro tive contanto com essa palavra deliciosa “serendipity” (tradução livre: um acaso feliz) na Exibição Cybernetic Serendipity curada por Jascia Reichardt na ICA [Institute of Contemporary Architecture em Londres] em 1968. Essa exibição é o material de lendas: arte e cibernética, artistas e cibernetas, encontrando-se em uma festa simbiótica. Ela marcou tanto o ponto alto quando o começo do declínio rápido da cibernética nas artes. A partir daquela data o termo cibernética começou a ser um termo praticamente não utilizável, muito da sua lógica foi apropriada por outros campos que tiveram mais atração, mas, eu posso argumentar, menos coerência e menos honra. Aquela máquina cibernética especifica e limitada, o computador e seus adjuntos teóricos de inteligência artificial, ciência cognitiva e vida artificial assumiram o controle e a generalidade generosa da cibernética sumiu de vista. Ela estava longe de estar morta (como alguns diziam), mas ela passou por uma revolução interna e ainda não conseguiu voltar nem um pouco em cena!

Ranulph Glanville196

Embalados pela cibernética, diversos autores na década de 1960 expressam seu otimismo em relação à suavização das bordas entre arte e ciência. Michael Capítulo 4

195 MATHEWS, Stanley, From Agit-Prop to Free Space: The Architecture of Cedric Price, 2007, p. 30. 196 GLANVILLE, Ranulph.!A Cybernetic Serendipity, [n.d.]. “I first came across that delicious word, serendipity,

at the Cybernetic Serendipity Exhibition curated by Jascia Reichardt at the ICA in 1968. This exhibition is the stuff of legends: art and cybernetics, artists and cyberneticians, meeting together in a symbiotic feast. It marked both the high point and the beginning of the rapid descent of cybernetics in the arts, for almost from that date cybernetics began to be an almost unusable term, much of its thinking being appropriated by other subjects that had more attraction though, I could argue, less coherence and less honour. That particularly specific and limited cybernetic machine, the computer and its theoretical adjuncts artificial intelligence, cognitive science and artificial life, took over and the generous generality of cybernetics vanished from view. It was far from dead (as some claimed), but it went through an internal revolution and has still not managed to return itself to even a bit part on stage!”.

122 Apter197 ressalta que uma das maiores influências da cibernética nas artes é a

ênfase no processo e mudança. Diversos artistas se conscientizam da importância da arte como processo, e não como “produção de objetos estáticos”.

A Exibição Cybernetic Serendipity corresponde a um dos eventos- chave da década de 1960 (FIG. 16). Embora não tenha sido a primeira exibição de computer art (outras já haviam acontecido na Alemanha e nos Estados Unidos), Cybernetic Serendipity foi a p r i m e i r a a f o c a r n o t e m a cibernética, como tentativa de explorar as relações entre tecnologia e criatividade. Somente duas das máquinas eram digitais - todo o resto foi produzido com tecnologia analógica198.

Os computadores podem criar? Talvez não, mas muitos de seus programadores se divertem tentando fazê-los comportar como se pudessem. Alguns técnicos alimentam um conjunto de números no computador, os quais ativam um braço mecânico, que, em resposta, desenha em um papel. Fotografias, também, podem ser analisadas e armazenadas na memória de um computador, e então reorganizadas e distorcidas a partir do comando eletrônico199.

A exposição foi produzida pelo ICA (Institute of Contemporary Arts, em Londres) em 1968, envolvendo 325 participantes e mais de 60.000 visitantes e questiona a separação histórica entre arte e tecnologia que, desde a década de A Cibernética como arcabouço para a avaliação dos museus

197 APTER, Michael. Cybernetics and Art, 1969.

198 MACGREGOR, Brent. Cybernetic Serendipity revisited, 2002.

199 TIME, Exhibitions: Cybernetics Serendipity, 1968. “Can computers create? Maybe not, but many of their programmers have a lot of fun trying to make them behave as if they could. Some technicians feed a set of numbers into the computer that activates a mechanical arm that in turn plots designs on paper. Photographs, too, can be analyzed and stored in a computer's memory, then reorganized and distorted on electronic command. The results are often tantalizing facsimiles of op and pop. In addition, computers can be programmed to direct kinetic sculptures through any number of varied cycles”.

FIGURA 16 – Vista da Exposição Cybernetic Serendipity Fonte: REISCHARDT, 1971

123 1950, com o desenvolvimento do computador, começa a perder o sentido200.

Desta maneira, Cybernetic Serendipity não foi uma exibição de arte, ou uma feira de diversão tecnológica, nem um manifesto programático – foi essencialmente, uma demonstração de ideias, atos e objetos contemporâneos, ligando cibernética ao processo criativo201

Reichardt, uma das curadoras do evento, afirmou, já na década de 1960, que o computador deveria ser analisado como uma instrumento e que suas possibilidades enquanto ferramenta criativa não mudariam as expressões artísticas que “apoiam-se essencialmente no diálogo entre o artista, suas ideias e a tela”202. Para ela, a máquina e a tecnologia, em geral, se tornaram parte da

“sensibilidade contemporânea”, e que, em artes, não existem regras para como a tecnologia deve ser utilizada203.

Leslie Stack do ICA afirma que o objetivo da exposição era de fazer com que as pessoas perdessem o medo do computador jogando e se divertindo com ele e segue:

Tantas pessoas temem que o computador assuma o controle, mas nesta exibição elas verão que estas máquinas só farão o que nós quisermos que elas façam [...] Acidentes felizes [...] podem acontecer entre arte e tecnologia204.

Esta afirmação deixa claro a influência da cibernética de primeira ordem na concepção da exposição. Neste caso, a intenção foi de inverter a situação de controle, em uma tentativa de provar que a máquina não era ruim, porque poderia ser dominada pelo homem, e não trabalhar junto com ele.

Se por um lado a exposição Cybernetic Serendipity foi um marco na história do Capítulo 4

200 REICHARDT, Jascia, Cybernetics, Arts and Ideas, 1971, p. 11-16.

201 REICHARDT, Jascia, Cybernetics, Arts and Ideas, 1971. p. 14. “Thus Cybernetic Serendipity was not an art

exhibition as such, nor a technological fun fair, nor a programmatic manifesto-it was primarily a demonstration of con- temporary ideas, acts and objects, linking cybernetics and the creative process”.

202MACGREGOR, Brent. Cybernetic Serendipity revisited, 2002, p. 13. “[...] Rely primarily on the dialogue

between the artist, his ideas and the canvas”.

203 REICHARDT, Jascia, Cybernetics, Arts and Ideas, 1971.

204 USSELMANN, R. The Dilemma of Media Art... 2003. p. 391. So many people are afraid that computers will

take over, but in this show they will see these machines will only do what we want them to...Happy accidents... can happen between art and technology”.

124 computer art, por outro ela revelou o receio de muitos quanto a direção que a arte estava tomando no período. Por exemplo, Michael Shepard do Sunday Telegraph escreveu que “a exibição serviu para mostrar a desolação a ser vista na arte em geral – e que não temos a menor ideia hoje em dia para que arte serve ou o que ela é”205. Outras críticas se referiram ao caráter não exclusivo e

não explícito da produção digital, que não deixava claro o que foi produzido pela máquina e o que foi produzido pelo homem. Robert Melville, jornalista do New Statesman afirmou que algo que o homem produz, que pode ser produzido por uma máquina não é mais valioso206.

O tom pessimista refletia também um medo mais generalizado de um cenário tecnocrata e autoritário, exacerbado pelo desenvolvimento acelerado das tecnologias de comunicação e informação, e embalados pelo contexto da guerra fria da década de 1960207 e pelo medo da invasão da tecnologia na

cultura208.

Alguns [críticos de arte] advogaram com sucesso o que pode ser chamado de “tecnologia pop”, i.e., torres luminosas cibernéticas, bancos de vídeos, e sensoriums eletrônicos, mas a maioria dos críticos instintivamente percebeu que sua credibilidade no mundo da arte seria prejudicada se eles se tornassem advogados sérios da tecnologia (hard) como um estilo de vida estético. Com as aventuras precipitadas da “tek- art” durante a década de 1960, um número substancial de artistas e críticos temeram que a eletrônica pudesse logo oprimir o prestígio da mídia tradicional de arte como encontrados na pintura e na escultura209.

O medo de a máquina dominar o desejo do homem e substituir conteúdos e A Cibernética como arcabouço para a avaliação dos museus

205 USSELMANN, R. The Dilemma of Media Art... 2003, p. 391, ênfase do autor. “this exhibition... serves to

show up ...a desolation to be seen in art generally – that we haven't the faintest idea these days what art is for or about”.

206 USSELMANN, R. The Dilemma of Media Art... 2003.. p. 391. 207 USSELMANN, R. The Dilemma of Media Art... 2003.. p. 391.

208 BURHAM, Jack, Art and Technology: The Panacea that failed, 1980. Parágrafo 17.

209 BURHAM, Jack, Art and Technology... 1980. paragrafo 17. “A few have successfully advocated what might be

termed "Pop Technology," e.g., cybernetic light towers, video banks, and electronic sensoriums, but most critics

instinctively realize that it would damage their art world credibility if they became serious advocates of hard technology as an aesthetic life-style. With the rash of "Tek-Art" adventures during the 1960s, substantial numbers of artists and critics feared that electronics might soon overwhelm the prestige of the traditional art media as found in painting and sculpture”.

125 valores humanos fazem parte do cerne da discussão e crítica das artes que envolvem computadores210. Baseando-se nesta premissa, Usselmann afirma

que Cybernetic Serendipity mostrou uma falta total de engajamento com a esfera socioeconômica da época e questiona se tal fato pode ser um dilema mais amplo dentro do campo da media art:

Temos os ingredientes “felizes” do sucesso de Cybernetic Serendipity: robôs que soam engraçado, gráficos computadorizados interativos, simuladores e sistemas que reagem ao ambiente; em uma palavra, um arsenal de alta tecnologia re-empacotado e sanitarizado, direto dos laboratórios do complexo militar-industrial americano211.

Usselman segue seu argumento afirmando que a exposição só se aproximou das necessidades sociais da década de 1960 omitindo as reais razões do desenvolvimento tecnológico e calando-se frente ao problema212.