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A partir da década de 1970 o modelo protecionista começou a ser questiona- do com a degradação da situação socioeconómica, o que levou a que os jovens se tornassem supranumerários no mercado de trabalho, do que emergiu de um sentimento geral de insegurança, direcionado, sobretudo, à pequena delinquên- cia, havendo um movimento de populismo penal largamente alimentado pelos meios de comunicação social, ao mesmo tempo que o ideal de reabilitação entra em crise. Assim, o modelo protecionista da justiça de menores vê-se duramente criticado, visto como pouco eficaz no que toca as finalidades educativas, ou como desresponsabilizador dos jovens, encarados como vítimas das injustiças sociais, sendo, pois, indiferente às verdadeiras vítimas da delinquência juvenil. Por outro lado, é também criticado no sentido inverso, isto é: sob a capa do ideal de proteção acaba por se estender o controlo social e por mobilizar os dispositivos de controlo punitivo para esse fim.

Em 1979, comemorando os 20 anos da Declaração dos Direitos da Criança, a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou o Ano Internacional da Criança. Este evento teve o mérito de estabelecer a viragem para uma nova forma de encarar os direitos da criança, perspetivados em função da própria criança, que se consagrou 10 anos mais tarde na Convenção sobre os Direitos da Criança. A criança deixou de ser encarada apenas como um ser indefeso e vulnerável, a vítima esquecida e inocente da exploração e negligência, mas também como sujeito de direitos, capaz de expressar opiniões, titular do direito de as ver tomadas em devida consideração, devendo ser informada – exigindo-se um direito efetivo de participação. Neste período foram elaborados vários instrumentos diplomáticos internacionais e encetadas reformas legislativas específicas sobre a justiça de menores no âmbito do Conselho da Europa (Recomendações n.º R(87)20 e R(88)6, sobre as reações sociais, respetivamente, à delinquência juvenil e ao comportamento delinquente dos jovens de famílias imigrantes) e das Nações Unidas (Regras mínimas para a administração da justiça de menores – regras de Beijinhg, 1985; Convenção sobre os Direitos da Criança, assinada, em Nova Iorque, em 1989 e ratificada em 1990

por Portugal, regras mínimas das Nações Unidas para a elaboração de medidas não privativas de liberdade – Regras de Tóquio, 1990; Diretrizes para a preven- ção da delinquência juvenil – Diretrizes de Riade, 1990; Regras para a proteção dos jovens privados da liberdade – Regras de Havana, 1990). Estes instrumentos jurídico-diplomáticos internacionais em matéria de justiça juvenil contêm diver- sas orientações e recomendações no sentido da incorporação legal de direitos e garantias processuais, pouco compatíveis com o modelo puramente de proteção. A mudança de conceções relativamente à criança e seus direitos, as críticas ao modelo protecionista e a crescente erosão da ideia de Estado-providência, a que estão associados os instrumentos internacionais adotados a partir do final dos anos 1980 pelas Nações Unidas ou pelo Conselho da Europa73, foram progressivamente ditando, sobretudo no último quartel do século XX, novas perspetivas sobre a in- tervenção relativamente a crianças e jovens em conflito com a lei, por prática de factos considerados crimes na Europa (Duarte-Fonseca, 2010; Santos et al., 2010; Bailleau e Cartuyvels, 2007; Agra e Castro, 2007).

Segundo Bailleau (2002), cinco elementos principais são geralmente evocados para a mudança estratégica no que respeita à delinquência juvenil nos países europeus. Em primeiro lugar, é identificável uma crítica aos princípios protetores e educativos inerentes a um sistema específico de tratamento dos jovens delinquentes. Esta retórica inscreve-se na crítica geral ao Welfare State e à proteção social estatal, e implica uma rejeição ideológica e normativa das medidas educativas e um recurso mais frequente ao encarceramento, em simultaneo com o abandono progressivo das medidas educadoras preventivas, que são substituídas pela intervenção judiciária sobre os jovens e as suas famílias. Em segundo lugar, procede-se à reavaliação da noção de responsabilidade e à valorização das vítimas dos comportamentos delin- quentes, assumindo-se como nova orientação do processo penal, influenciando os processos e medidas tomadas face a atos delinquentes. Prevalece a ideia de que a delinquência deve ser tratada segundo uma lógica de “tolerância zero”, não devendo nenhum ato delinquente praticado por jovens ficar sem resposta, o que revaloriza o poder da polícia e da acusação. Como quarto princípio, é visível a tendência para

73. Desde a universalização da Declaração Universal dos Direitos da Criança que todo o denominado direito das crianças abandonou uma perspetiva meramente paternalista e protecionista, e se reconstruiu à volta do conceito de criança como sujeito de direitos, o que em Portugal aconteceu, em 2001 – com a entrada em vigor – da legislação para a promoção dos direitos e proteção das crianças em perigo e tutelar educativa, relativamente às crianças entre os 12 e os 16 anos que praticam crimes (Pedroso, 2011).

a integração de instâncias não judiciárias – especialistas em delinquência juvenil, etc. – no processo de implementação de medidas sobre jovens problemáticos. Por último, verifica-se uma tendência de restrição de osjovens mais velhos (a partir dos 14-16 anos) acederem a jurisdições especializadas, defendendo-se o seu julgamento, por determinadas infrações, nos mesmos processos dos adultos.

Neste sentido, e sobretudo a partir da década de 1990, vamos assistir a refor- mas em diversos países no direito de menores, com um triplo objetivo: primeiro, o de reforçar o carácter sancionário e responsabilizar o menor delinquente74; se- gundo, reforçar os direitos processuais dos menores; e terceiro, a introdução dos dispositivos da justiça restaurativa, no sentido de responsabilizar o menor mas dar também um lugar concreto à vítima75.

Como nos dão conta Bailleau e Cartuyvels (2007), na justiça de menores assiste-

-se à emergência de um novo paradigma76, marcado por um recrudescimento

da punição e pela acumulação de dispositivos de controlo e de intervenção. Segundo estes autores, na maioria dos países europeus aumenta a intolerância social, sendo os jovens vistos como um problema social, figuras de risco e de insegurança, apelando a respostas ligadas à norma, à lei ou à sanção (Bailleau e Cartuyvels, 2007: 268). Deste modo, há uma maior distância da imagem do menor como ‘doente’ ou ‘socialmente vulnerável’, cujo acto é visto como o sintoma de uma doença a tratar, para hoje se encarar o menor como um ator racional, livre, autor das suas escolhas e do seu destino, pelo que a questão da acção educativa já não se liga, em primeira linha, à correcção da personalidade,

74. Para Anabela Miranda Rodrigues (2014, comunicação apresentada no âmbito do Colóquio Internacional «@s jovens e o crime»), assiste-se a um renovar da etiquetagem penal dos adoles- centes como ‘adultos em ponto pequeno’. Nesta nova cultura de controlo, emergem os traços mais visíveis da repenalização dos adolescentes e dos seus comportamentos, apertando-se a ‘malha’ de resposta à delinquência juvenil através de novas medidas ou sanções e abrindo-se possibilidades mais amplas de reenvio dos processos para os tribunais comuns (isto é, de adultos).

75. Segundo Cartuyvels, assiste-se a um equilíbrio entre três tendências: herança protecionista (Welfare), reforço penal (ideologia conservadora) e uma lógica de responsabilização e de contornos gestionários ou manageriais (modelo neoliberal).

76. Já num texto de 1998, Tamara Pitch, socióloga do direito, italiana, escrevia que se verificava “a passagem à adoção de um paradigma que se baseia sobre a responsabilidade/responsabilização, em vez da reeducação e assistência. É uma passagem discursiva de grande interesse: indica não apenas e só a falência dos projetos “reabilitativos”, mas também a potente re-emergência em cena da crise do Estado Social no que concerne à responsabilidade individual” (Cf. “Figli di un penale minore. Tra crisidelwelfare e repressione precoce”, Editoriale de Julho de 1998, in http://www. fuoriluogo.it/arretrati/1998/lug_15.htm, consultado em Novembro de 2014).

mas visa antes proteger as vítimas do risco que representa o menor delinquente (Bailleau e Cartuyvels, 2007: 13).

Na Europa, a intervenção do Estado foi sendo orientada segundo um modelo dito “de justiça”, caracterizado, segundo Duarte-Fonseca (Duarte-Fonseca, 2010), pela consideração do menor como sujeito de direitos e de deveres e, como corolário, res- ponsável pelos actos praticados, incluindo os que violem normas penais; valorização do facto praticado, nomeadamente quanto à gravidade, como critério de escolha e determinação da sanção a aplicar (princípio da proporcionalidade); clarificação das sanções, especialmente no que se refere à fixação da sua duração. Em matéria pro- cessual, são ainda característicos deste modelo os seguintes aspetos: separação da função jurisdicional da função assistencial, tipo acusatório, aproximação aos direitos e garantias dos adultos em processo penal, indispensabilidade do defensor em todas as fases e carácter público da decisão. Simultaneamente, de acordo com Bailleau e Cartuyvels (2007), atualmente, na justiça de menores europeia, assiste-se, quanto aos jovens que praticam factos que a lei qualifica como crimes, a uma tendência cres- cente de punição e acumulação de dispositivos de controlo e intervenção judicial e/ou social, associados a uma crescente intolerância social e sentimento de insegurança.

O INÍCIO DO SÉCULO XXI EM PORTUGAL: ENTRE O MODELO DE