O discurso aqui é tomado como algo maior e que não pode ser confundido com o simples ato de comunicação, que não deve ser entendido como a mera transmissão de informações. Ele carrega dentro de si um conjunto muito maior de idéias e pressupostos oriundos de determinadas práticas e conseqüentes formações ideológicas que visam, no limite, imbuir o indivíduo de uma certa subjetividade.
Para um real entendimento desta temática, iremos inicialmente resgatar suas origens, recorrendo à conceituação e contextualização histórica do estudo científico sobre a linguagem, a partir do que é engendrado o conceito de discurso. Teremos assim condições para definir o tema com maior precisão, aproximando-nos da forma como o mesmo será abordado neste estudo.
2.2.1 Lingüística
O interesse pela linguagem é muito antigo. Os primeiros estudos remontam ao século IV a.C.. Os Hindus, por exemplo, passaram a estudar a língua, a princípio, por motivos religiosos. A partir de então, segundo Fiorin (2003), surgem os primeiros gramáticos hindus e talvez da história.
Os gregos, por sua vez, interessaram-se em definir a relação entre o conceito e a palavra que o designa. Tal interesse foi compartilhado por pensadores como Platão, no livro Crátilo. Já Aristóteles, que também se interessou pela questão lingüística, enfatizou em suas reflexões a problemática da estrutura lingüística (FIORIN, 2003).
De acordo com Fiorin (2003), apesar da linguagem ter sido desde longa data objeto de estudo de vários pensadores, foi apenas no início do século XX, a partir da publicação dos trabalhos de Ferdinand de Saussure, que a lingüística passou a ser reconhecida como estudo científico.
Saussure (1973) defendia que a Lingüística até então não havia se constituído efetivamente como uma ciência por não ter sido capaz de definir precisamente seu objeto de estudo. O autor considerava que a linguagem, tomada no todo, era multiforme e heteróclifa e, portanto, passível de ser estudada sobre vários pontos de vista - e conseqüentemente, por
diferentes ciências, tais como a psicologia, a sociologia, a filologia, a gramática, a antropologia. Neste sentido, buscou delimitar o campo de estudo específico da Lingüística, no que concerne à questão da linguagem, colocando como objeto central de interesse dessa ciência a língua.
A língua, assim, é tomada como “uma parte determinada e essencial” (p.17) da linguagem e, ao contrário dessa, definida como um todo passível de ser estudado:
Há, segundo nos parece, uma solução para todas estas dificuldades: é necessário primeiramente colocar-se no terreno da língua e tomá-la como norma de todas as outras manifestações da linguagem. De fato entre tantas dualidades, somente a língua parece suscetível duma definição autônoma e fornece um ponto de apoio satisfatório para o espírito (SAUSSURE, 1973, p.16/17).
Nesta discussão considera-se que a linguagem é formada por duas partes diferentes, porém interdependentes: parte social (língua) e parte individual (fala).
A parte social ou língua permite que todos os indivíduos pertencentes a uma mesma comunidade reproduzam, ao menos aproximadamente, os mesmos signos unidos aos mesmos conceitos. A língua é, assim, definida por Saussure (1973, p 22) como:
um objeto bem definido no conjunto heteróclito dos fatos da linguagem. Pode-se localizá-la na porção determinada do circuito em que uma imagem auditiva vem associar-se a um conceito. Ela é a parte social da linguagem, exterior ao indivíduo, que por si só, não pode nem criá-la nem modificá-la; ela não existe senão em virtude duma espécie de contrato estabelecido entre os membros da comunidade.
A parte individual ou fala é o que permite a transformação e a representação da imagem mental em imagem acústica, entendida como
um ato individual de vontade e inteligência, no qual convém distinguir: 1º, as combinações pelas quais o falante realiza o código da língua no propósito de exprimir seu pensamento pessoal; 2º, o mecanismo psico-físico que lhe permite exteriorizar essas combinações (SAUSSURE, 1973, p.22).
Dentro dessa discussão, o autor estabelece os primórdios da semiologia (ciência responsável pelo estudo dos signos9 na vida social), onde a Lingüística passa a ser vista como uma parte dessa ciência. Assim, afirma Saussure (1973, p.24, grifo nosso): “a língua [objeto de estudo da lingüística] é um sistema de signos que exprimem idéias, e é
9 O termo signo é entendido como uma totalidade composta pela combinação de um conceito / imagem mental (significado) com uma imagem acústica (significante).
comparável, por isso à escrita, ao alfabeto dos surdos-mudos, aos ritos simbólicos, às formas de polidez, aos sinais militares etc., etc. Ela é apenas o principal desses sistemas”.
A partir dessas definições e categorizações, a lingüística começa a se estruturar como campo do saber, caracterizada pelo estudo científico da linguagem verbal humana, abrangendo tanto a língua falada como a língua escrita.
Todavia, na esteira do século XX, o campo da lingüística se expande, afastando-se do núcleo inicial, que remete a Saussare. Nesse sentido, a linguagem, enquanto signo ideológico, passa a ser vista como algo concreto, fruto de um determinado contexto. O contexto, ou melhor, o entendimento da relação entre o lingüístico e o social, passa a ser fundamental na compreensão do seu significado (BRANDÃO, 2002).
Dessa forma, segundo Brandão (2002), busca-se uma compreensão do fenômeno da linguagem em um nível situado fora da dicotomia saussureana, e essa instância é o discurso, possibilitando operar a ligação necessária entre o lingüístico e o extralingüístico.
Partilhando dessa visão mais ampla em relação ao fenômeno da linguagem, Brandão (2002, p. 12), conclui:
A linguagem enquanto discurso não constitui um universo de signos que serve apenas como instrumento de comunicação ou suporte de pensamento; a linguagem enquanto discurso é interação, e um modo de produção social; ela não é neutra, inocente (na medida e que está engajada numa intencionalidade) e nem natural, por isso o lugar privilegiado de manifestação da ideologia.
Surge, então, na década de sessenta, uma nova tendência lingüística, denominada Análise do Discurso. A Análise do Discurso, como será vista adiante, rompe com a visão tradicional que via a linguagem como um sistema fechado. Uma das grandes contribuições teóricas que deram ensejo à constituição dessa nova área do saber é proveniente dos trabalhos de Bakhtin (1995), pensador russo preocupado com a relação dialética entre linguagem e sociedade - considerando esta relação como dimensão fundamental para compreensão da constituição do psiquismo humano.